Inglaterra

Everton ouviu a voz do povo e optou por Lampard, que terá que se provar à altura de um desafio enorme

Após desistir de Vítor Pereira, reprovado pelas arquibancadas, o Everton contratou o ex-técnico do Chelsea, ainda em início de carreira e com uma missão difícil pela frente

Os muros de Goodison Park foram pichados no começo da última semana com um mensagem extremamente clara dos torcedores do Everton: Pereira fora, Lampard dentro. O dono Farhad Moshiri tomou aquilo como uma ordem, o que não contribuiu para afastar a percepção de que muitas vezes desde que assumiu o clube em 2016 prefere tomar a decisão que considera ser a mais popular. Ele talvez tenha achado que contratar Rafa Benítez, importante nome do maior rival, seria popular. É… não foi.

Lampard, no momento, é. Em parte porque ele não é Vítor Pereira. Difícil traçar a origem de um sentimento de massa, e como ele se dissemina, mas grande parte da torcida do Everton passou a odiar a ideia de ter o campeão por Porto, Olympiacos e Shanghai SIPG à frente do clube. Para não dizer que era exclusivamente pela sua associação com Kia Joorabchian, cuja influência sobre Moshiri e o investidor Alisher Usmanov desagrada as arquibancadas, muitos apontaram para fracassos recentes.

Mas realmente pesou a associação com Kia. A ponto de Pereira ter tomado a incomum decisão de dar uma entrevista ao vivo para a Sky Sports durante o processo de contratação. Foi ao ar na quarta-feira, momento em que sua chegada parecia certa, para defender o seu currículo, explicar que foi rebaixado da segunda divisão com o 1860 Munique e demitido do Fenerbahçe em apenas cinco meses porque não dá para ter uma carreira inteira só com momentos positivos – e na Alemanha porque faltou dinheiro.

Depois de ter sido duas vezes preterido como técnico do Everton, a entrevista sugeriu o quanto ele queria que as negociações dessem certo desta vez – a ponto de transbordar certo desespero. Não funcionou. Após o calculado risco de contratar Benítez apesar da sua história com o Liverpool ter sido um desastre gigantesco, Moshiri não quis arriscar outra contratação controversa. Pereira nem era a primeira escolha. O retorno de Roberto Martínez foi discutido e tentado. Wayne Rooney disse que foi procurado, mas não quis abandonar o vice-lanterna da segunda divisão.

Nem todos os motivos de Rooney foram uma negação ao que foi proposto, e ele merece ter sua lealdade aplaudida, mas que ele tenha rechaçado sem muita cerimônia a chance de trocar o Derby County em profunda crise financeira pelo que deveria ser um dos clubes mais promissores da Premier League é uma mensagem desanimadora sobre como o Everton é visto neste momento. E dá para culpá-lo? Vamos ilustrar com uma historinha.

O diretor de futebol Marcel Brands era contra Benítez. Preferia um perfil mais jovem, como Graham Potter. Perdeu o cabo de guerra. O Everton foi com Benítez. No começo de dezembro, demitiu Brands, que havia sido contratado para que o departamento de futebol seguisse uma linha coerente, independente de quem fosse o técnico. Parte da estrutura de observação e recrutamento que Brands havia construído se foi com ele. Alguns dias depois, despachou Lucas Digne, um dos maiores acertos do holandês no mercado, para o Aston Villa, a pedido de Benítez. Mais alguns dias depois, demitiu Benítez.

Havia críticas justas a serem feitas ao trabalho de Brands (e principalmente Benítez), mas um clube que consegue atirar para tantas direções diferentes ao mesmo e no fim ficar sem nada não é realmente o ambiente mais convidativo, e até é um pouco surpreendente que tenha sido esse o que Lampard escolheu para reiniciar a sua carreira, após um ano esperando a oportunidade certa.

Grande nome como jogador, como técnico ele ainda é um iniciante, a milhas de distância da experiência dos seus dois antecessores. Um raciocínio lógico básico diria que se Carlo Ancelotti – que até parecia caminhar para algum lugar quando pulou do barco – e Benítez não tiveram sucesso, por que ele teria? Pode parecer um passo atrás. O otimista poderia contra-argumentar que depois de fracassar com medalhões, o Everton está tentando um perfil diferente, o jovem promissor. Dois desses (Ronald Koeman e Marco Silva) também não duraram muito tempo em Goodison Park.

Para a sorte do Everton, o futebol é mais complicado e imprevisível do que isso. Claro que Lampard pode dar certo. Ele terá que mostrar os resultados das cicatrizes que colecionou no Chelsea. Em campo, armar um time mais equilibrado. Atacava bem e era muito frágil na recomposição defensiva. Quando conseguiu fechar a casinha, perdeu poder de fogo. Ele tentou implementar uma cultura de trabalho e de comportamento em Stamford Bridge, com regras e punições, e sua demissão foi acompanhada por reportagens expondo problemas de relacionamento no vestiário. O ponto certo vem com a experiência.

Lampard levou o Derby County aos playoffs do acesso e conseguiu navegar muito bem a situação complicada que encontrou no Chelsea (sem Hazard e sem poder contratar). Lançou jovens como Mason Mount, chegou à final da Copa da Inglaterra e conseguiu vaga na Champions League. São sinais promissores. Por outro lado, o fato de que Thomas Tuchel entregou o título europeu com o que ele tinha em mãos, com alguns ajustes e muito pouco tempo, também evidencia que Lampard ainda não é aquele treinador que tira todo o potencial de um elenco.

Clubes como o Everton precisam disso. É a única maneira de tirar a diferença para o primeiro patamar porque mesmo com os aportes de um dono rico não dá para competir na grana. Agora, precisa ter fé que Lampard chegará lá em um futuro próximo. Não precisa ser nesta temporada. O objetivo imediato é fugir confortavelmente do rebaixamento. Se o ambiente ficar mais leve, não deve ser difícil fazê-lo com os jogadores que o Everton tem à disposição.

Mas ainda seria um band-aid. O problema do Everton não é um dono que não sabe o que está fazendo, técnicos que não conseguem tirar o máximo do elenco e jogadores que parecem muito conformados com resultados medíocres. É um pouco de tudo isso que, no combinado, cria uma cultura danosa. A principal missão de Lampard, aquela em que seus antecessores falharam, será quebrá-la e construir uma mais favorável em que o quarto maior campeão da Inglaterra possa progredir, disputar vagas em competições europeias, incomodar os mais ricos, avançar nas copas e se posicionar para receber o último impulso quando o seu novo estádio for inaugurado.

Desde que a austeridade foi substituída pelo alto investimento mal feito, o torcedor do Everton se permitiu acreditar mais de uma vez que a hora estava chegando. Por mais que tenha ficado satisfeito com a escolha por Lampard em vez de Pereira, está cada vez mais difícil embarcar no agora vai, independente de quem seja o técnico.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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