Inglaterra

Por que promessa não foi cumprida e Estêvão ainda é o ‘eterno ponta’ no Chelsea

Vendido como futuro articulador, brasileiro esbarra na hierarquia de Cole Palmer e segue limitado às pontas nos Blues

Quando o Chelsea investiu pesado para garantir Estêvão, o projeto apresentado à joia brasileira e seu estafe não era apenas o de mais um ponta habilidoso para rechear o elenco londrino. Havia uma promessa tática audaciosa nos bastidores: a transição definitiva para o centro do gramado.

Diferente de outros gigantes europeus que enxergavam nele o herdeiro dos “extremos” brasileiros, os Blues venderam a ideia de que o garoto seria o dono da articulação, o legítimo camisa 10. “O Chelsea foi um dos poucos clubes que enxergou o Estêvão como um 10, para jogar por dentro”, revelou seu empresário, André Cury, em entrevista ao “Uol”, concedida em março de 2025.

Contudo, hoje, a realidade dos números no Stamford Bridge conta uma história bem distinta daquela traçada nas reuniões de negociação.

A expectativa de ver Estêvão ditando o ritmo de jogo a partir da “zona 14” — o espaço centralizado logo à frente da área adversária — esbarrou no pragmatismo da Premier League e na consolidação de hierarquias dentro do elenco. Com 36 partidas disputadas pelo clube londrino até aqui, o ex-Palmeiras soma oito gols e três assistências, números respeitáveis para uma temporada de estreia.

Entretanto, o mapa de calor não mente: a “promessa do 10” continua sendo um rascunho guardado na gaveta.

Das 32 partidas em que o site “Transfermarkt” detalhou seu posicionamento, Estêvão atuou como ponta-direita em 27 delas. O impacto dessa escolha é evidente: sete de seus oito gols foram marcados partindo do flanco para dentro, reafirmando um cacoete técnico que o acompanha desde seu início no clube alviverde, mas que o afasta da função de organizador central que o clube prometeu lapidar.

Por que a ‘promessa’ do Chelsea a Estêvão ainda não se cumpriu?

Palmer e Estêvão se abraçam
Palmer e Estêvão se abraçam (Foto: Visionhaus / Imago)

A explicação para a manutenção de Estêvão na ponta não é meramente um capricho dos treinadores, mas sim uma questão de hierarquia técnica e maturidade tática. Atualmente, o posto de “cérebro” do Chelsea tem dono, sobrenome e um status de intocável: Cole Palmer. O inglês, que se tornou a referência técnica absoluta do projeto Blue, ocupa o espaço onde Estêvão deveria, teoricamente, habitar.

Deslocar Palmer para acomodar um jovem em transição seria um risco que nenhum treinador parece disposto a correr no momento. Além disso, a função de meia-ofensivo na Premier League é, talvez, a posição que exige a maior velocidade de raciocínio no futebol mundial. Jogar “por dentro” significa receber muitas vezes a bola de costas para o gol, cercado por volantes de elite e com frações de segundo para decidir entre o passe de ruptura ou o drible.

Atuar como ponta oferece a Estêvão um “colchão de segurança” necessário neste período de adaptação. Na ala, ele tem a linha lateral como aliada para proteger um dos seus lados e, crucialmente, possui mais campo para explorar sua aceleração e o um contra um. Ali, o erro é menos punitivo. Se Estêvão perde a bola na ponta, a recomposição é mais simples.

No centro, qualquer hesitação na tomada de decisão pode ser fatal. Para um jovem que ainda está assimilando a intensidade física e o estilo único do futebol inglês, a ponta-direita funciona como um laboratório controlado: ele tem mais liberdade e mais “cartuchos para queimar”.

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Entre Maresca e Rosenior: o conflito de estilos na formação de Estêvão

Estêvão durante aquecimento do Chelsea
Estêvão durante aquecimento do Chelsea (Foto: Giuseppe Maffia / Imago)

A jornada de Estêvão no Chelsea tem sido moldada por duas filosofias distintas que ajudam a explicar sua subutilização como articulador. Sob o comando de Enzo Maresca, o brasileiro participou de 23 jogos, sendo titular em 11 deles.

O técnico italiano, um herdeiro da escola de posse e posição, chegou a testar o garoto por dentro em três oportunidades, mas todas saindo do banco no segundo tempo. Foram minutos protocolares, com o jogo já em andamento e muitas vezes desfigurado. Para Maresca, a estrutura do time é sagrada, e a função de 10 exige uma disciplina tática defensiva que Estêvão ainda está desenvolvendo.

Já com Liam Rosenior, o cenário de “extremo fixo” se tornou ainda mais evidente. Dos 11 jogos sob sua tutela, Estêvão foi ponta-direita em dez ocasiões. Rosenior prefere um jogo de transições mais agudas e utiliza os corredores laterais para esticar a defesa adversária. Nesse sistema, Estêvão é uma arma de desequilíbrio.

A diferença é sutil, mas crucial: enquanto Maresca quer que ele aprenda a circular a bola, Rosenior quer que ele ataque o espaço. Em nenhum dos dois cenários, entretanto, a promessa de André Cury se concretizou. O único momento em que Estêvão fugiu da rotina da direita foi na recente goleada por 7 a 0 sobre o Port Vale, onde atuou na ponta-esquerda e deixou sua marca.

Até o momento, o Estêvão do Chelsea é o mesmo Estêvão do Palmeiras: um atacante de lado de campo com um teto de evolução imenso. A promessa de ser o “novo 10” dos Blues não foi quebrada, mas está em modo de espera.

Para que cumpra sua palavra, o clube londrino precisará de coragem para tirar o garoto da zona de conforto da ponta e Estêvão precisará provar que sua leitura de jogo é tão rápida quanto seus pés.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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