Inglaterra

Entrevista de Darwin Núñez alerta para perigo das redes sociais no futebol

À emissora uruguaia, atacante do Liverpool conta como comentários negativos o afetaram

A relação do jogador com a torcida evoluiu muito no futebol nos últimos anos. Se antes o único contato era na arquibancada dos estádios, hoje, na palma da mão, o torcedor tem o direito de entrar em contato com clube, técnico e atletas via mensagem direta ou comentários nas redes sociais.

Caso o time esteja conquistando os resultados, tudo é mil maravilhas: elogios, memes e muita exaltação ao elenco, comissão técnica e gestão. Se é ao contrário e as derrotas se tornam realidade, é comum ver xingamentos, pressão e em muitos casos até ameaça de morte.

Obviamente, tudo isso afeta a saúde mental dos jogadores, seja em qualquer nível do esporte. O atacante Darwin Núñez, por vezes alvo de piadas nas redes sociais por suas atuações no Liverpool, detalhou o quanto ler comentários negativos o afetou.

Agora, o uruguaio simplesmente não lê mais, nem após uma vitória ou quando tem um bom desempenho. Recentemente, ele apagou todas as publicações no Instagram que envolviam os Reds.

– Desde o momento em que você começa a jogar até se aposentar, sempre haverá alguém que irá criticá-lo. Evito ler esses comentários [nas redes sociais]. Antes eu olhava muito para eles e isso me afetava. Quem diz que esses comentários negativos não os afetam está mentindo. Comentários negativos direcionados a você sempre afetarão você. Agora não estou olhando para nada, nem mesmo para as coisas boas. – detalhou o atacante à TV uruguaia Canal 10.

Núñez não está sozinho

Não é só na Inglaterra com Darwin. As críticas exageradas e a pressão exacerbada faz parte do futebol em países que amam o esporte, como o Brasil.

Um caso notório foi o de Gabriel Sara no São Paulo. Mesmo garoto da base, sofria com as críticas nas redes sociais, mas deu a volta por cima sob comando de Fernando Diniz em 2020. Certa vez, o técnico disse ao jovem atleta: “A torcida não vai te matar, rede social não vai fazer nada com você”.

E isso é muito comum nas consultas do psicólogo do esporte João Ricardo Cozac, que também é presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte e do Exercício, com atletas do futebol brasileiro, conforme contou em entrevista exclusiva à Trivela.

– Eu atendo os jogadores da série A e B do Campeonato Brasileiro, e muito frequentemente eu escuto os jogadores comentando que leram em redes sociais alguma crítica ou que eles julgam às vezes ser perseguição da torcida e acabam ficando muito chateados, acabam ficando muito desanimados. Quase sempre não conseguem separar o que é a fala de uma torcida com o momento que o atleta tá vivendo. – afirmou.

O impacto do ódio no desempenho dos jogadores

Ler críticas, ataques pessoais a si ou a entes queridos tendem a afetar qualquer pessoal mentalmente.

Para um jogador, que acaba de sair derrotado de um jogo, sofrendo com a cobrança própria e de membros do clube, abrir a rede social pode ser um perigo, como aponta Cozac.

– Esse jogador fragilizado, com dúvidas sobre si, chateado e se cobrando [por uma má fase ou derrota], e entra numa rede social que está sendo atacado, com falas agressivas, o atleta tende a ficar mais angustiado, mais triste, e certamente pode ter sua performance alterada negativamente da mesma forma. Principalmente pelo fato de começar a desconfiar mais, pelo fato de ficar com essas falas de torcedores ou até jornalistas presente no seu campo psicológico quando ele estiver atuando.

Elogios extremos também podem atrapalhar atletas

Nem só o extremo do ódio poderá trazer malefícios a carreira de um jogador. Quando o atleta se vê em grande fase e é exaltado de forma exagerada, por vezes fantasiosa, pode perder a noção da realidade e o foco no esporte.

– As redes sociais nos trazem um contato amplo e intenso com uma infinidade de pessoas. Esse nível de interação era impensável décadas atrás. Nem Pelé teve acesso a tantos elogios e comentários sobre suas jogadas. Lidar com essa enxurrada de informações pode levar o jogador a uma falsa percepção sobre seu talento e sobre sua carreira, tirando o atleta de um caminho sólido e de sucesso. – detalhou o psiquiatra Thiago Genaro, do ecossistema digital de saúde integral Conexa.

– Quando o atleta está numa fase super boa, é comum todo mundo começar a elogiar: novo Pelé, novo Neymar, o melhor de todos. O atleta também pode muitas vezes perder o senso de equilíbrio, de performance, e começar a não se concentrar bem, não estar tão presente nos jogos porque está deslumbrado com o que estão dizendo dele, e da mesma forma essas falas são absolutamente fantasiosas tanto por nível do ódio como por nível da paixão. – reiterou Cozac.

Segredo é entender qual é a realidade da rede social

O impacto das redes sociais não se limita as redes sociais. Qualquer pessoa pode se encontrar num mar de ódio por algum comentário ou publicação. É aí que entra a necessidade de dosar o uso e entender que o âmbito virtual muitas vezes não entrega na vida real.

– O consumo desenfreado desse tipo de conteúdo pode trazer uma ideia concreta de ameaça que muitas vezes se restringe ao campo virtual. A distinção entre o que é concreto e o que é apenas virtual não é fácil. A dúvida e o medo decorrentes do bombardeio desse tipo de conteúdo pode contribuir com o desenvolvimento de sintomas ansiosos nos atletas. – explica Genaro, emendando:

– O grande dilema não é a existência da rede social, mas como a consumimos e o quanto a utilizamos. O desafio é utilizá-la na medida adequada, sabendo dos filtros e envolvidos e do excesso de exposição a ser evitado.

A psicóloga esportiva Ana Paula Pinho também explica a importância de separar e diminuir a importância do que se lê nas redes.

– Se atribuirmos um valor demasiado para o que é dito nas redes, seja positivo ou negativo, estamos tirando o foco do que realmente temos controle. Não controlamos o que os outros pensam ou entendem, mas controlamos nosso desempenho a partir dos treinamentos, sejam eles na parte física, técnica ou mental que executamos. – concluiu a especialista.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.
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