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Duelo com Leicester relembra o ano mais glorioso do Tottenham no futebol inglês

Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Tottenham e Leicester se enfrentam neste domingo, em White Hart Lane, pela terceira fase da Copa da Inglaterra. Disputam a classificação, mas também revivem um confronto que marcou a história do torneio. Há quase 55 anos, numa decisão exatamente diante dos Foxes em Wembley, os Spurs se tornavam o primeiro time do Século XX a conseguir a dobradinha no futebol inglês, vencendo liga e copa na mesma temporada. Comandado pelo lendário Bill Nicholson e contando com alguns dos principais jogadores britânicos da época, o time londrino encerrou um tabu que perdurava desde 1897, quando o Aston Villa havia levantado ambos os torneios e que, além deles, somente o Preston North End havia realizado em 1889, temporada inaugural do campeonato inglês.

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O cérebro e capitão daquele timaço do Tottenham era o centromédio norte-irlandês Danny Blanchflower, considerado por muitos o maior jogador da história do clube, e eleito o jogador do ano no futebol inglês naquela temporada. Mas astros não faltavam: o zagueiro Maurice Norman seria titular da seleção inglesa na Copa de 62. O centroavante Bobby Smith é até hoje o segundo maior artilheiro do clube em todos os tempos, atrás apenas de Jimmy Greaves (que chegaria ao clube no segundo semestre). Smith fazia grande dupla de área com Les Allen, assim como ele pinçado do Chelsea (e pai de Clive Allen, atacante que defendeu os Spurs e vários outros clubes nos anos 80). Nas pontas jogavam Cliff Jones – galês que infernizou a defesa brasileira em um amistoso no Maracanã entre as duas seleções em 1962 – e Terry Dyson. Sem falar na trinca de escoceses formada pelo goleiro William “Bill” Brown, o zagueiro Dave Mackay e o meia John White (falecido precocemente, aos 27 anos, atingido por um raio).

Na liga, os Spurs já haviam feito campanha arrasadora, vencendo seus 11 primeiros jogos – recorde que perdura até hoje – e conquistando o título em 17 de abril, com três jogos de antecedência, após derrotarem o vice-líder Sheffield Wednesday por 2×1. Nos 42 jogos da campanha, marcaram nada menos que 115 gols. Faltava a Copa, a qual o clube não conquistava fazia 40 anos. No caminho até a final, vitórias sobre Charlton, Crewe, Aston Villa (em Birmingham), um empate com o Sunderland, seguido por uma goleada de 5×0 no “replay”, e categóricos 3×0 sobre o forte Burnley na semifinal no Villa Park. Mas completar a dobradinha era uma missão na qual já haviam recentemente falhado o Manchester United (campeão da liga e derrotado na final da copa) em 1957 e o Wolverhampton (campeão da copa e vice da liga, um ponto atrás do Burnley) no ano anterior. Havia ainda a Copa da Liga, torneio criado naquela temporada, mas que alguns clubes da primeira divisão – entre eles o Tottenham – abdicaram de participar.

tottenham double 1961

Já na equipe do Leicester, dois jovens valores chamavam a atenção na defesa: o goleiro Gordon Banks, 23 anos, e o zagueiro escocês Frank McLintock, 21 anos (que curiosamente conquistaria sua própria dobradinha exatos dez anos depois, como capitão do Arsenal). Os Foxes tinham um time promissor naquele início da década de 60, dirigido por outro escocês, Matt Gillies. Na temporada 1960/61, na qual terminaram em sexto na liga, já haviam surpreendido com vitórias sobre o Arsenal em casa e fora de casa, o Chelsea e o próprio Tottenham fora, além de uma goleada de 6×0 sobre o Manchester United. Além da decisão de 1961, voltariam à final da FA Cup dois anos depois, perdendo para os Red Devils, e chegariam a duas finais seguidas da Copa da Liga, vencendo em 1964 e ficando com o vice no ano seguinte. Em 1963, ficariam ainda em quarto lugar na liga, sua melhor classificação desde os anos 1920.

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Embora o Tottenham fosse apontado como franco favorito pela imprensa para vencer aquela final de 6 de maio de 1961, o Leicester começou a partida oferecendo forte resistência e também criou suas chances. Mas a sorte começou a pender para o lado dos londrinos quando o lateral-direito Len Chalmers, dos Foxes, quebrou a perna aos 20 minutos e foi obrigado a fazer número em campo, já que as substituições não eram permitidas (aliás, este fato ajudou a alimentar a pressão dos clubes e da imprensa a favor das trocas). Mesmo assim, o jogo foi para o intervalo sem gols, apesar de Cliff Jones ter marcado para o Spurs aos 38 minutos, num lance anulado pelo árbitro por impedimento.

Na etapa final, o Leicester passou a ser mais acuado e finalmente cedeu aos 21 minutos, quando Bobby Smith recebeu de Dyson na área, girou sobre a marcação e fuzilou Banks. Pouco menos de dez minutos depois, foi a vez de Smith retribuir. Ele cruzou da lateral da área para cabeçada certeira de Dyson, selando a vitória, apesar da pressão do adversário nos últimos minutos, mesmo com um a menos (Chalmers se retirou definitivamente de campo após o segundo gol). Após o apito final, Danny Blanchflower subiu as escadarias para receber a taça das mãos da Duquesa de Kent, antes de voltar ao gramado com o time para as celebrações do feito histórico.

O título da liga foi o segundo e último até agora da história dos Spurs. Na temporada seguinte, o clube ficaria por um gol de levar para a prorrogação o duelo das semifinais da Liga dos Campeões com o Benfica de Eusébio, depois de ter deixado para trás o Gornik Zabrze, o Feyenoord e o Dukla Praga. Quanto à FA Cup, aquela seria a terceira a morar na galeria de troféus do clube. A conquista seria repetida já no ano seguinte, diante do Burnley, e emendada com a taça da Recopa Europeia, com goleada de 5×1 sobre o Atlético de Madrid, em 1963. Depois, viriam ainda os canecos de 1967, 1981, 1982 e 1991. Depois do fim do tabu, as dobradinhas se tornaram um pouco mais frequentes (o Arsenal repetiu o feito em 1971 e o Liverpool em 1986), mas só na década de 90, já no período pós-Premier League, é que se tornaram corriqueiras – só entre 1994 e 1999 foram três do Manchester United e outra dos Gunners.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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