Inglaterra

Demissão de Pochettino e busca por novo técnico: entenda o caótico Chelsea de Boehly

Blues mantém tradição histórica e novamente direcionam olhares ao mercado de treinadores

A demissão de Mauricio Pochettino no Chelsea só pegou de surpresa aqueles que não conhecem a história do clube. Os Blues não costumam ter paciência com treinadores, e os números deixam isso claro. Com a saída do técnico argentino confirmada, o próximo comandante será o vigésimo a assumir o posto desde 2000 — incluindo os interinos. Ou seja, pouco mais de um ano para cada profissional em Stamford Bridge.

A média é bem diferente dos principais rivais do Chelsea na Premier League. Jürgen Klopp, por exemplo, se despede do Liverpool após nove anos em Anfield. Pep Guardiola, por sua vez, irá para nona temporada no Manchester City. Já Mikel Arteta dirige o Arsenal desde dezembro de 2019.

Todd Boehly, empresário norte-americano que assumiu o Chelsea em maio de 2022, é diferente de Roman Abramovich em diversos quesitos, mas herdou uma característica marcante da gestão do magnata russo no clube: a dança das cadeiras de técnicos. Boehly buscará o quinto treinador diferente desde que comprou o time londrino — o sexto se contado o interino Bruno Saltor. Thomas Tuchel, Graham Potter e Frank Lampard antecederam Pochettino.

Vale destacar que a torcida do Chelsea também tem parcela de culpa na criação desta cultura. Os fãs dos Blues são bem diferentes da maioria e costumam exigir resultados a curto prazo. Durante a ‘era Abramovich’, período em que o clube recebeu sua primeira grande injeção financeira do estrangeiro e empilhou taças, tal comportamento foi intensificado. Paciência e visão de futuro definitivamente não são características dos adeptos do único londrino campeão da Champions League.

Por que Pochettino foi demitido?

Mauricio Pochettino não teve vida fácil durante a passagem pelo Chelsea. Ao longo da temporada, o argentino precisou lidar com forte pressão diante dos resultados ruins em campo. Parte da torcida nunca aceitou seu passado ligado ao Tottenham, e a cada tropeço dos Blues pedia a cabeça do comandante. A imprensa britânica, como de praxe, também ajudou a colocar lenha na fogueira.

Para surpresa de muitos, Pochettino conseguiu vencer a desconfiança. Após começo irregular e decepcionante, o Chelsea foi crescendo de produção gradualmente e terminou 2023/24 de maneira positiva. Sexto colocado da Premier League, o time londrino garantiu vaga na Conference League. E em caso de título do Manchester City na Copa da Inglaterra, os Blues jogarão a Liga Europa na próxima temporada.

Pochettino levou o Chelsea ao sexto lugar da Premier League e a um vice-campeonato de Copa da Liga Inglesa (Foto: Icon Sport)

Mas afinal de contas, foi o desempenho do Chelsea em campo que culminou na saída de Pochettino? A resposta é não. A meta da diretoria, estipulada no início da temporada, era terminar entre os quatro primeiros da Premier League e, consequentemente, assegurar vaga na próxima edição da Champions. Isso não aconteceu. Ainda assim, não foi o que determinou a queda do técnico argentino.

A arrancada final do Chelsea nas últimas rodadas agradou à diretoria, que chegou a discutir internamente a permanência de Pochettino. Liderada por Behdad Eghbali, homem forte à frente do futebol dos Blues, a alta cúpula do clube estava disposta a dar mais uma temporada ao treinador, desde que ele aceitasse os termos propostos. E é aí que mora o problema.

Basicamente, os dirigentes queriam o silêncio de Pochettino no mercado de transferências e em outras decisões extracampo. A ideia da diretoria é ter um profissional submisso no cargo de técnico, que se preocupe apenas em treinar a equipe e conseguir os resultados estabelecidos previamente. De imediato, o argentino não topou, e o vínculo entre as partes foi encerrado na última terça-feira (21).

Como os jogadores reagiram à saída de Pochettino?

A reação da maioria esmagadora dos jogadores do Chelsea foi a pior possível. Pochettino era querido pelo elenco, e mesmo com os altos e baixos da temporada, nunca perdeu o vestiário. Pelo contrário. Com seu estilo agregador e positivo — ‘paizão’, no português claro — o argentino conquistou o grupo e certamente deixará saudades, sobretudo nos mais jovens.

Cole Palmer, por exemplo, fez questão de agradecer o técnico. Melhor jogador do Chelsea na temporada, o camisa 20 publicou a seguinte mensagem em suas redes sociais: “Obrigado por tudo o que fizeste por mim e por tornares os meus sonhos realidade. Tudo de bom”. Abaixo, confira outros recados do elenco para Pochettino.

“Você me ensinou lições valiosas dentro e fora do campo. Eu sempre serei grato. Desejo a você o melhor no próximo capítulo de sua vida”, escreveu Madueke.

Reece James: “Obrigado por tudo, chefe. Tivemos uma relação incrível desde o momento em que nos conhecemos (…) Você acreditou em mim e deu-me uma enorme responsabilidade quando muitos outros duvidaram de mim”.

Qual perfil de treinador que o Chelsea busca?

Como citado acima, o Chelsea deseja um técnico que não interfira nas movimentações do clube no mercado de transferências. No entendimento da diretoria, apenas ela deve determinar quem será vendido ou comprado nas próximas janelas.

A função do treinador se restringe a treinar e fazer o time evoluir no campo de jogo, segundo a perspectiva da alta cúpula dos Blues. Por isso, o perfil experiente e multicampeão está descartado. Entende-se que o sucessor de Pochettino será um profissional jovem, que aplique um futebol baseado em posse de bola e seja capaz de moldar o time para controlar os jogos, além de mantê-lo defensivamente estável.

O próximo treinador do Chelsea também deve adequar-se aos principais jogadores do elenco atual, e aqueles que a diretoria planeja contratar no verão. Os diretores esportivos Paul Winstanley e Laurence Stewart lideram o processo para nomear o novo técnico, e reportarão aos co-controladores Behdad Eghbali, Todd Boehly e Jose E. Feliciano.

Quais são os candidatos?

Enzo Maresca

  • Ex-auxiliar de Pep Guardiola no Manchester City;
  • Comanda o Leicester e guiou o clube até o título da Championship e acesso à Premier League;
  • Tem experiência no trabalho com jovens;
  • Multa rescisória de 10 milhões de euros

Kieran McKenna

  • Comandante da ascensão recente do Ipswich Town no futebol inglês. Conquistou o acesso da 3ª para a 2ª divisão em 22/23, e levou o clube da Championship para a Premier League nesta temporada;
  • É tido por muitos como a grande sensação do mercado de técnicos ingleses;
  • Brighton e Manchester United também estão interessados

Thomas Frank

  • O dinamarquês é técnico do Brentford desde 2018, e liderou a equipe de volta à Premier League em 2020/2021;
  • Desde então, Thomas Frank tem conseguido manter o Brentford na elite do futebol inglês sem sustos. A melhor campanha das Abelhas foi em 22/23, quando ficou na nona posição, com 59 pontos em 38 jogos — apenas dois pontos de distância de uma vaga para competições europeias;
  • Em entrevista recente ao The Athletic, Frank admitiu que está aberto a ouvir propostas nesta janela de transferências para assumir outro clube.

*Sebastian Hoeness (Sttutgart), Roberto De Zerbi (sem clube) e Michel (Girona) também foram nomes ventilados, mas correm por fora neste momento

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme Calvano

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.
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