Copa da Inglaterra

O protagonismo de Kasper Schmeichel em Wembley reforça ainda mais sua imagem como símbolo da era de ouro do Leicester

O goleiro realizou duas defesas fantásticas contra o Chelsea e premia uma trajetória que já leva dez anos no clube

O Leicester City aguardou 52 anos para disputar novamente uma decisão de Copa da Inglaterra. E a sina das Raposas em Wembley, com quatro derrotas nas quatro finais anteriores, seria transformada contra o Chelsea. Cinco anos depois da inacreditável conquista na Premier League de 2015/16, o clube voltou a erguer um troféu, agora como prêmio ao trabalho de excelente nível desde aquela façanha. E, na decisão, um dos personagens fundamentais à bonança do Leicester nestes cinco anos saiu de campo como um merecido protagonista. Kasper Schmeichel teve o gosto de levantar o troféu ao lado de Wes Morgan, como um dos capitães. Mais do que isso, o dinamarquês operou dois milagres e seria decisivo à vitória por 1 a 0 contra os Blues. É um cara que traduz essa identidade das Raposas e ganha o condizente destaque.

Kasper Schmeichel construiu no Leicester uma ligação forte que é rara de se ver no futebol de alto nível atualmente. O goleiro de sobrenome notável não teve um começo de carreira tão linear, afinal. Desde o princípio, as comparações com seu pai foram frequentes. E se o lendário Peter Schmeichel se consagrou na meta do Manchester United, o filho iniciou a trajetória no rival Manchester City – onde o progenitor se aposentou de maneira até controversa. Kasper precisava trilhar seu próprio caminho e tentar apresentar suas próprias virtudes para escapar das cobranças.

“Nunca senti pressão por ser filho de quem sou, mas eu me senti julgado, muito cedo e muito rapidamente. Cresci num ambiente hostil, porque naquela época o United era assim e você não se safava disso. Mas isso te ensina algo – te ensina a ser duro, resiliente, o que eu sempre fui e ainda sou. Como eu estudei para ser goleiro, assisti desde muito novo e realmente me aprofundei muito, nunca quis provar que alguém estava errado – eu tentava provar que eu estava certo. Meu pai me disse, quando escolhi minha carreira, que as pessoas iriam me julgar e ter essa noção pré-concebida, que seria mais difícil para mim do que para os outros e que eu precisaria trabalhar mais duro. Isso estava no meu DNA, porque eu tinha visto desde muito jovem que, se você quer chegar a um certo nível, precisa se empenhar”, contaria, em entrevista recente à BBC.

Ainda no Manchester City, Kasper Schmeichel pouco vestiu a camisa celeste e rodou por empréstimos a times das divisões de acesso. Isso até ser vendido e virar titular do Notts County, então na quarta divisão, em 2009/10. O bom trabalho mostrou que Schmeichel merecia mais e ele também defendeu o Leeds United por um ano, na Championship. Virou um dos melhores do time e até pretendia continuar em Elland Road, mas os Whites decidiram vender o arqueiro diante de uma vantajosa proposta do Leicester. Sven-Göran Eriksson, na época diretor das Raposas, seria o responsável por levar o camisa 1, com quem trabalhou no City e no Notts County.

Schmeichel celebra com a taça (Foto: Imago / One Football)

A chegada de Kasper Schmeichel ao Leicester aconteceu em junho de 2011, apenas quatro meses depois da compra da agremiação por Vichai Srivaddhanaprabha. O goleiro de 24 anos fazia parte de um projeto de longo prazo, que visava colocar as Raposas na Premier League e, dentro de algum tempo, também na Champions League. Naqueles primeiros anos, o dinamarquês se estabeleceu como um dos melhores da Championship. Era muito elogiado por sua ética de trabalho e por seu comprometimento, além de brilhar seguidas vezes dentro de campo. Em seu primeiro ano, Schmeichel foi eleito o melhor do clube na temporada. No segundo ano, acabou apontado à seleção ideal da segundona – mesmo com a traumática queda nos playoffs contra o Watford. Já no terceiro, repetiu a nomeação no time do ano, faturando o almejado acesso.

A estreia de Schmeichel como goleiro titular na Premier League, em 2014/15, não seria fácil. E o desafio não seria apenas manter o Leicester na primeira divisão, como também se recuperar de uma fratura no pé que o afastou dos gramados por três meses. O dinamarquês voltou ao time em março, para ser justamente um dos principais responsáveis na incrível arrancada que evitou a degola das Raposas. Seria nomeado até ao prêmio de jogador do mês no campeonato. E, a partir de então, ocorreria o inesquecível 2015/16 do Leicester. Nomes como Jamie Vardy, Riyad Mahrez e N’Golo Kanté eram até mais badalados. Mas não se nega a grandeza de Schmeichel ao longo daquela campanha, com seus momentos decisivos ao time de Claudio Ranieri, sobretudo na reta final. Das últimas 18 partidas, o camisa 1 não foi vazado em 12. Acumulou defesas incríveis, que permitiram aos apertados placares do Leicester se transformarem em pontos vitais para o título.

A conquista da Premier League 2015/16 foi tratada como cume por muitos jogadores do Leicester, que buscaram novos rumos diante do sucesso. Schmeichel decidiu fazer seu próprio caminho e aumentar seus laços no Estádio King Power, tal qual Jamie Vardy. O dinamarquês ainda tinha 29 anos e alguns clubes chegaram a especular sua transferência, incluindo Liverpool. O camisa 1 ficou, para se tornar ainda mais preponderante num momento de transição das Raposas. Seu nível de desempenho na Champions League de 2016/17 foi excelente, virando um dos heróis na caminhada até as quartas de final. Chegou a terminar um jogo contra o Copenhague com a mão fraturada e, nas oitavas, pegou um pênalti em cada duelo contra o Sevilla. Seria de novo eleito o melhor jogador do Leicester na temporada.

Já em 2018, Kasper Schmeichel teve outro grande momento para consolidar sua história, respondendo a quem ainda insistia em fazer comparações com seu pai. O goleiro, afinal, brilharia na campanha da Dinamarca até as oitavas de final da Copa do Mundo. Foi o melhor em campo contra o Peru, no jogo que possibilitou a classificação aos mata-matas, e também brilhou nas oitavas diante da Croácia, com três pênaltis defendidos (um deles no fim da prorrogação), apesar da eliminação. Era mais uma prova da sua estatura, enquanto se consolidava como um gigante na meta do Leicester.

Schmeichel e Aiyawatt Srivaddhanaprabha (Foto: Imago / One Football)

A temporada de 2018/19 seria importante para Schmeichel no Leicester, e não apenas para usar com mais frequência a braçadeira de capitão, diante do declínio de Wes Morgan. Foi em outubro de 2018 que o goleiro perdeu um grande amigo, com a morte do presidente Vichai. Como um dos mais antigos do elenco, o dinamarquês construiu uma relação bastante próxima com o dono do clube, que ia além de qualquer vínculo empregatício. “Quando você me contratou em 2011, me disse que poderíamos ser campeões da Premier League em seis anos e que poderíamos fazer grandes coisas. Você me inspirou e eu acreditei. Você me fez sentir como se nada fosse impossível. Sem você e a sua família, tudo isso, tudo que fizemos juntos, tudo que conquistamos poderia nunca ter acontecido. Você me deu experiências que apenas acontecem na fantasia. Você literalmente fez meus sonhos se tornarem realidade”, escreveu Schmeichel, numa emotiva carta na época do acidente aéreo.

Naquele momento de dor, Kasper Schmeichel prometia honrar a memória de Vichai e seu legado construído no Leicester. A chegada de Brendan Rodgers, sobretudo, permitiu que tais palavras se cumprissem. O clube se restabeleceu como um dos melhores da Premier League e voltou a frequentar as copas europeias. Schmeichel seguia apresentando um nível excepcional sob as traves, mesmo se aproximando dos 35 anos. Na final da Copa da Inglaterra, havia uma imensa imagem de Vichai nas arquibancadas. E o goleiro pareceu especialmente inspirado para não desperdiçar a oportunidade contra o Chelsea.

A atuação de Schmeichel na decisão da FA Cup foi fantástica. O golaço de Youri Tielemans abriu caminho ao título do Leicester, mas nada disso teria sido possível sem o goleiro. As duas defesas que ele realizou na reta final do jogo ficam na memória dos torcedores. São duas intervenções que separam os bons goleiros daqueles acima da média, que definem campeonatos. Primeiro, se esticou todo para desviar a cabeçada de Ben Chilwell que ia no cantinho, já na altura da trave. Depois, teve um tempo de reação fantástico para espalmar uma bomba de Mason Mount dentro da área, à queima-roupa. Ainda contou com sua pitada de sorte no gol que acabou anulado corretamente no fim. Mas nada que diminuísse seu trabalho incrível no clube, numa caminhada que dura uma década.

Ao lado de Wes Morgan, Schmeichel levantou o troféu. E não se esqueceu do amigo falecido, que permitiu toda essa história fantástica em Leicester: “É disso que os sonhos são feitos. Eu sonhei com este momento desde que eu era criança. Falamos sobre ganhar troféus e a atuação de hoje foi com bravura, com determinação. Tenho muito orgulho de todos. Todos eles são sensacionais, também o time por trás do time e a equipe médica, todos têm sido fantásticos. Quando você trabalha junto e tem essa crença interna, é isso que você pode alcançar. Na parte de dentro das nossas camisas, temos uma imagem de Vichai. Ele está sempre conosco. É sobre isso que falamos por tanto tempo e, para a torcida, esse momento é incrível”. Foi o goleiro, inclusive, que levou ao gramado Aiyawatt Srivaddhanaprabha, filho de Vichai e atual presidente, para também erguer o troféu.

Ao longo dos últimos cinco anos, o Leicester se firmou como um clube diferente. Um clube capaz de escrever um conto de fadas, um clube capaz de encantar as pessoas, um clube preocupado com sua própria comunidade. Kasper Schmeichel é uma face importantíssima nesta construção. Com 372 partidas, nenhum outro jogador nas ligas nacionais europeias defendeu mais vezes um mesmo time ao longo da última década. O goleiro é uma liderança junto aos jogadores, é um interlocutor junto aos donos, é um ídolo junto à torcida. Não tem a coleção de títulos da estante de seu pai, ou então a reputação de Gordon Banks e Peter Shilton, os dois outros grandes goleiros no passado do Leicester. Mas o futebol não é feito só de ouro ou de fama, o futebol também tem muito de identidade e pertencimento. Quando surgir a imagem de Kasper Schmeichel, vai ser difícil não pensar no Leicester e em todas essas boas histórias. A final da Copa da Inglaterra, ainda mais, reforça o arqueiro como símbolo de uma era e como uma lenda de verdade no Estádio King Power.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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