Copa da Inglaterra

As finais de FA Cup disputadas pelo Leicester: foram quatro vices, mas grandes personagens e boas histórias

O Leicester quase sempre entrou como azarão em Wembley, com derrotas dolorosas diante de adversários emblemáticos

O Leicester terá a chance de conquistar a inédita Copa da Inglaterra neste sábado. Depois do conto de fadas com Claudio Ranieri na Premier League de 2015/16, as Raposas atravessam um período até mais estável sob as ordens de Brendan Rodgers e poderão erguer um novo troféu em Wembley, diante do Chelsea. Apesar disso, não será a primeira vez que o clube disputará uma decisão do torneio. Muito pelo contrário, o Leicester vai à sua quinta final na FA Cup. Teve a primeira chance em 1949, antes de perder três decisões entre 1961 e 1969. Aquele período, aliás, é o mais relevante em Filbert Street até a epopeia que encantou o mundo na última década.

O Leicester disputou a Copa da Inglaterra pela primeira vez antes mesmo de integrar uma liga. Caiu na primeira fase do torneio em 1890/91. A partir de então, enquanto as Raposas escalavam a pirâmide nacional até estrearem na elite do Campeonato Inglês em 1908/09, também fizeram campanhas mais relevantes na FA Cup. Os azuis chegaram a uma semifinal pela primeira vez em 1933/34, mas acabaram derrotados pelo Portsmouth por 4 a 1. Não tardaria muito para que o clube alcançasse a primeira decisão, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial.

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A primeira final

O Leicester superou cinco adversários para chegar à decisão da Copa da Inglaterra em 1948/49. Passava longe de ser favorito, numa época em que fazia figuração na segundona, terminando aquela temporada num modestíssimo 19° lugar – um ponto acima do rebaixamento. A campanha se iniciou contra o Birmingham City, adversário da elite que precisou de dois replays até a classificação dos azarões. Depois, as Raposas também bateram outro adversário da primeira divisão, o Preston North End do mítico Tom Finney. Nas oitavas, o primeiro encontro com o Luton (da segundona) terminou num insano 5 a 5 (com direito a um gol salvador dos azuis nos acréscimos da prorrogação), antes da classificação em outro emocionante 5 a 3 no replay.

O Leicester também passaria pelo Brentford, oponente da segunda divisão, nas quartas. Isso até a vingança contra o favorito Portsmouth na semifinal. O Pompey foi o campeão inglês naquela temporada, com uma equipe forte o suficiente para ser bicampeã na edição seguinte da liga. Porém, sucumbiu diante das Raposas por 3 a 1, em duelo realizado em Highbury. Mais de 20 mil torcedores do Leicester foram a Londres para ver o jogo, embora uma boa parcela tenha ficado sem ingressos. E a comemoração ainda guardou uma cena curiosa nos vestiários: cada jogador ganhou uma garrafa de uísque. A bebida seria derramada até em torcedores do lado de fora, o médico dos azuis desmaiou de tanto beber e alguns jogadores voltaram completamente embriagados de trem para casa. Na chegada à estação em Leicester, uma multidão de torcedores exultantes os aguardava.

O adversário do Leicester na final em Wembley seria tão duro quanto o Portsmouth: o Wolverhampton de Stan Cullis, que já trazia Billy Wright e outras figuras que dominariam o futebol inglês nos anos 1950. Os Lobos ficaram na sexta colocação do Campeonato Inglês naquela temporada. Ainda assim, havia uma enorme dose de confiança em Leicester. Antes da decisão, a cidade inteira se adornou de azul e milhares de pessoas viajariam a Londres para o grande momento.

O Leicester era treinado por Johnny Duncan, lenda do clube nos tempos de jogador, sendo um dos nomes mais importantes em Filbert Street na década de 1920 – quando a equipe foi vice-campeã nacional. O antigo capitão assumiu como treinador em 1946 e mantinha sua relação carnal com as Raposas. Já dentro de campo, o principal nome se ausentaria da decisão: Don Revie. Um dos técnicos mais célebres do futebol inglês, nos tempos de atleta deu seus primeiros passos como atacante no Leicester. Era um tanto quanto desacreditado e chegou a trabalhar como aprendiz de pedreiro, até se profissionalizar e virar um jogador cerebral.

Revie era um fiel aprendiz dos ensinamentos de Duncan – a quem, anos depois, dedicaria um capítulo de sua autobiografia. O atacante protagonizava o Leicester naquela FA Cup, especialmente ao anotar dois gols no surpreendente triunfo sobre o Portsmouth em Highbury. Porém, na semana da decisão, o destaque do time sofreu uma pancada no rosto durante um jogo contra o Plymouth. O acidente foi tão severo que, por conta de uma hemorragia nasal, o atleta precisou ser internado e recebeu transfusões em decorrência da perda de sangue. Ouviu apenas do rádio, no hospital, o jogo contra o Wolverhampton. Além de Revie, o goleiro Ian McGraw era outro desfalque sensível, após fraturar o dedo.

Dentre os presentes em campo pelo Leicester, o mais tarimbado era o ponta direita Mal Griffiths. Jogador da seleção galesa, chegou a fazer parte do Arsenal no início da carreira. O ataque também tinha Jack Lee, artilheiro do Leicester naqueles anos, assim como Charlie Adam, ponta esquerda que era o único remanescente das Raposas do período anterior à Segunda Guerra Mundial. Já a braçadeira de capitão ficava com Norman Plummer, um dos esteios no meio-campo, embora jogasse também como centroavante.

Sem Revie, o Leicester acabou se tornando presa fácil ao forte Wolverhampton, que ganhou por 3 a 1 diante de 98 mil espectadores em Wembley. Jesse Pye foi o destaque da partida, ao abrir o placar com 13 minutos e também ampliar a diferença aos 42. As Raposas melhoraram na volta do intervalo e chegaram a descontar logo aos dois minutos do segundo tempo, com Mal Griffiths. Quase o empate saiu na sequência, com um tento de Ken Chisholm anulado por um impedimento mínimo. Mas, aos 19 minutos, os Wolves selaram o triunfo com Sammy Smyth. Pela terceira vez, o clube era campeão, no primeiro troféu da era Stan Cullis. A princesa Elizabeth entregou a taça para o capitão Billy Wright. Já em Leicester, havia orgulho mesmo com revés, a ponto do time desfilar em carro aberto pela cidade para comemorar a campanha. Tal ato se repetiria nos outros três vices.

Aquele sucesso do Leicester não renderia frutos posteriores. Na temporada seguinte, Johnny Duncan deixou o comando da equipe, descontente com a política de contratações da diretoria. Em solidariedade, sem ver perspectivas, Don Revie também fez as malas e assinou com Hull City. Seria campeão da FA Cup dentro de campo tempos depois, pelo Manchester City, na famosa final em que o goleiro Bert Trautmann sofreu uma fratura no pescoço e seguiu jogando. As Raposas ficariam na segunda divisão até 1953/54, quando subiram e caíram de imediato. A volta estável para a primeira divisão só aconteceu em 1956/57, para uma sequência de 12 temporadas na elite. Seria um período de alegrias mais duradouras em Filbert Street, que incluiria as outras três finais de FA Cup.

A era de ouro do Leicester

O Leicester ressurgiu como uma equipe verdadeiramente competitiva na temporada 1960/61. As Raposas terminaram o Campeonato Inglês na sexta posição, sua melhor classificação desde o vice em 1928/29. E mais significativo ainda seria o desempenho na Copa da Inglaterra, voltando à final 12 anos depois. Se não havia mais o fator surpresa como em 1948/49, os azuis pegaram adversários até mais fáceis.

A caminhada começou despachando o Oxford United, o último sobrevivente da non-league. O Leicester depois goleou o Bristol City, então na terceirona. Seu primeiro oponente da elite foi o Birmingham, superado só no replay. O mesmo aconteceu nas quartas de final contra o Barnsley, com dois jogos para escapar da zebra da terceirona. Já na semifinal, foram necessários dois replays até que o Sheffield United fosse derrubado, numa temporada em que conquistaram o acesso à elite. O problema, outra vez, seria a decisão. O adversário em Wembley era o Tottenham, campeão inglês naquela temporada. Bill Nicholson era o treinador de uma equipe recheada de lendas dos Spurs – como Danny Blanchflower, Bobby Smith e Cliff Jones.

O Leicester era dirigido por Matt Gillies. Antigo defensor do clube nos anos 1950, viraria parte da comissão técnica pouco depois da aposentadoria e assumiu o comando em 1958. A situação não era nada fácil, com a torcida revoltada depois que seu antecessor, David Halliday, decidiu vender o ídolo Arthur Rowley – segundo maior artilheiro da história do clube e um dos símbolos das vacas magras na segundona. Gillies conseguiria contornar a insatisfação com bom futebol.

Escocês como boa parte do Leicester naquela época, Gillies privilegiava um futebol mais solto. Apostava num estilo de mobilidade, em que os jogadores podiam realizar diferentes funções, mesmo dentro do antigo W-M. Além do mais, os passes rápidos e verticais atordoavam as defesas adversárias. O treinador teria grande responsabilidade na montagem daquele elenco, em especial ao apostar num goleiro pouco conhecido que militava na terceira divisão com o Chesterfield. Seu nome? Gordon Banks, contratado em 1959 e uma das bases ao forte plantel das Raposas.

Aquele time do Leicester reunia outros tantos jogadores simbólicos em Filbert Street. A grande referência na linha de zaga era Francis McLintock, considerado um dos melhores beques do Campeonato Inglês nos anos 1960. Era acompanhado no setor por Ian King e Colin Appleton, numa famosa tríade na marcação. A braçadeira de capitão ficava com Jimmy Walsh, antigo ídolo do Celtic que se tornaria importante no Leicester, eternizado como um dos dez maiores artilheiros do clube. Também aparecia por ali Ken Keyworth, goleador de tentos marcantes e anos prolíficos naquele início dos anos 1960. Já o maior problema era lidar com a ausência de Ken Leek. O atacante de Gales na Copa de 1958 tinha marcado em todas as fases anteriores da FA Cup. Contudo, sem nenhuma explicação clara, foi barrado por Matt Gillies na véspera da final e logo se transferiu ao Newcastle.

Cabe dizer que aquele Leicester, ainda assim, tinha um toque de conto de fadas. O ponta Howard Riley veio do time do exército. Appleton chegou a conciliar os treinos com os serviços como aprendiz de carpinteiro. King trabalhava em uma mina de carvão até se profissionalizar. Já McLintock ainda fazia meio expediente como pintor quando o time vivia sua caminhada histórica na FA Cup de 1960/61. O zagueiro até ajudou a pintar os refletores do antigo estádio de Filbert Street. Na véspera da final, pintou um porão.

Quando a bola rolou na finalíssima, o Tottenham cumpriu o favoritismo diante de 100 mil olhares em Wembley e venceu por 2 a 0. A situação do Leicester se complicou logo de cara, quando o lateral Len Chalmers machucou o joelho ao sofrer uma entrada dura. Sem substituições, precisou ficar em campo no sacrifício. Mesmo na prática com dez homens, as Raposas eram melhores no primeiro tempo, mas os Spurs só não saíram em vantagem porque Cliff Jones viu um gol ser anulado por impedimento. Já na segunda etapa, os londrinos comprovaram sua força. Bobby Smith venceu Gordon Banks e abriu o placar aos 21 minutos. O Leicester sentiu o baque e viu Terry Dyson fechar a contagem nove minutos depois. O Tottenham consumava a primeira dobradinha do futebol inglês no Século XX, interrompendo um hiato de 64 anos sem que um time levasse liga e copa na mesma temporada.

Matt Gillies continuou realizando um trabalho fantástico no Leicester. E a temporada de 1962/63 foi uma das mais marcantes do clube. Num inverno rigoroso no Reino Unido, que provocou o adiamento de vários jogos por causa das nevascas, as Raposas chegaram a liderar a liga. Eram os célebres Reis do Gelo. Os azuis se mantiveram no topo a cinco rodadas do fim, mas passaram lidar com muitas lesões e despencaram nos momentos decisivos. Os muitos jogos atrasados provocaram uma desgastante rotina de viagens e compromissos fora de casa. No fim das contas, o time acabou numa modesta quarta colocação na liga. Ainda assim, chegou à final da Copa da Inglaterra mais uma vez para se consolar.

O Leicester eliminou primeiro o Grimsby Town, da segundona. Depois despachou o Ipswich Town, campeão nacional na temporada anterior e sob as ordens de Sir Alf Ramsey, em seus últimos meses antes de assumir a seleção inglesa. As oitavas guardaram um duelo mais palatável contra o Leyton Orient, rebaixado na elite. Venceram depois o Norwich, da segundona. Isso até o feito histórico nas semifinais, diante do Liverpool. Os Reds de Bill Shankly atravessavam sua ascensão e tinham subido na temporada anterior, mas já apresentavam vários nomes que levariam a liga um ano depois.

A semifinal aconteceu em Hillsborough, para 65 mil torcedores. E aquela seria uma das atuações mais famosas de Gordon Banks. O Liverpool atacou o tempo todo e forçou 30 defesas do arqueiro. O Leicester, ainda assim, venceu por 1 a 0. O gol da vitória foi anotado por Mike Stringfellow aos 20 minutos. Já na reta final da partida, Banks operaria um verdadeiro milagre contra Ian St. John. A defesaça era comparável ao célebre voo do arqueiro na Copa do Mundo de 1970 para espalmar a cabeçada de Pelé. O craque de luvas levava as Raposas para a final.

“Todo mundo se lembra de Banks por sua defesa contra Pelé, mas a melhor que eu vi foi nessa semifinal. As defesas que ele fez nesse dia foram incríveis, uma depois da outra. Ganhamos por 1 a 0, mas poderia ter sido seis. Os ataques vinham de todos os lados: St. John, Hunt, Thompson, Callaghan. Eu estava atrás de St. John quando Gordon, de alguma forma, desviou sua cabeçada para fora. Ian apenas colocou a mão na cabeça, sem acreditar”, afirmaria o ponta Howard Riley, ao Daily Mail.

O adversário na decisão era outra camisa pesada: o Manchester United. Os mancunianos eram treinados por Matt Busby, mas viviam um período de entressafra e inclusive foram ameaçados pelo rebaixamento naquela edição do Campeonato Inglês, terminando num inexplicável 19° lugar. Busby chegaria a declarar publicamente que o Leicester era o “inquestionável time do ano”, jogando o favoritismo aos adversários. Os Red Devils tinham à disposição o talento de Bobby Charlton e Dennis Law, além de outros nomes emblemáticos, como Bill Foulkes e Pat Crerand. Law, aliás, tinha sido sondado por Matt Gillies para defender o Leicester, quando ainda era atleta do Huddersfield Town. No entanto, o treinador azul desistiu de contratar o prodígio escocês ao assistir dois jogos em que ele não se saiu tão bem. Melhor ao United.

Enquanto isso, o Leicester tinha novidades em relação à equipe de 1961. Nomes como Banks, McLintock, Appleton (agora capitão) e Keyworth seguiam firmes. Mas quatro atletas diferentes apareceriam na escalação para a final de 1963. John Sjoberg seria um importante reforço à defesa. O meio-campo contava com a afirmação de Graham Cross, formado na base e recordista em aparições pelo clube. Já Dave Gibson chegou do Hibernian e virou o cérebro na armação. O próprio Stringfellow era vital, como um ponta muito incisivo – trazido como o jogador sub-18 mais caro do futebol inglês até então, após sua compra junto ao Mansfield Town.

Se valia de motivação, o Leicester tinha vencido o Manchester United no segundo turno do Campeonato Inglês por 4 a 3, com direito a tripleta e gol de bicicleta de Keyworth. Em Wembley, para 99 mil torcedores, a resposta dos Red Devils garantiria a taça: 3 a 1 no placar. O Leicester iniciou a decisão abusando da sorte, perdendo uma porção de gols nos primeiros minutos. Quando o United respondeu, passou a bombardear a meta de Banks, até marcar aos 30 com Law. No segundo tempo, as Raposas até tentaram responder, mas David Herd ampliou aos 12 minutos, numa bola solta por Banks. Keyworth só descontou aos 35, mas o banho de água fria viria em seguida, com Herd fazendo o terceiro e fechando a conta após falha de Banks. A FA Cup encerrou um jejum de cinco anos em Old Trafford, culminando a reconstrução após o desastre de Munique. Nos cinco anos seguintes, o United levaria outras três taças, sendo duas da liga e a inédita Champions em 1968.

As Copas da Liga e a última aparição

O Leicester não passaria mais perto de conquistar o Campeonato Inglês na década de 1960. E se a Copa da Inglaterra insistia em não vir, o clube deu a volta por cima na recém-criada Copa da Liga Inglesa. As Raposas conquistaram a quarta edição do torneio, em 1963/64. Na final, pegaram um Stoke City que voltava à primeira divisão cheio de medalhões. Dennis Viollet e Jimmy McIlroy eram referências dos Potters treinados por Tony Waddington. Na época, a decisão da Copa da Liga se decidia em dois jogos. Após o empate por 1 a 1 no Victoria Ground, o Leicester celebrou a conquista ao ganhar por 3 a 2 em Filbert Street. Stringfellow, Gibson e Riley marcaram os gols.

Já em 1965, o Leicester repetiu a final da Copa da Liga e terminou como vice. Perdeu exatamente para o Chelsea. Os Blues eram comandados por Tommy Docherty e contavam com vários nomes importantes. Peter Bonetti, Ron Harris e John Hollins eram verdadeiras bandeiras em Stamford Bridge. O meio reunia o capitão Terry Venables e George Graham, que depois fariam fama como treinadores. Já o ataque contava com Bobby Tambling, segundo maior artilheiro da história dos londrinos, ultrapassado apenas por Frank Lampard. E o troféu ficou com o Chelsea. Na ida, o time da capital ganhou num apertado 3 a 2 em Stamford Bridge, com gol heroico do improvisado Eddie McCreadie, lateral que foi parar no ataque. Por fim, o empate por 0 a 0 selou o amargor do Leicester.

Aos poucos, o Leicester de Matt Gillies começou a se desmontar. McLintock foi para o Arsenal por conta de desavenças internas. Banks também acabaria vendido ao Stoke, mesmo após conquistar a Copa do Mundo de 1966, porque o treinador preferia dar espaço a um garoto promissor chamado Peter Shilton. O declínio das Raposas era claro e a era de Gillies em Filbert Street se encerraria em novembro de 1968. Doente, o técnico se ausentou de suas funções e, diante dos maus resultados, a diretoria demitiu seus dois assistentes que tocavam o barco. Em protesto, o comandante também deixou o cargo. Ex-treinador do Torquay United, Frank O’Farrell assumiu o posto. E, por incrível que pareça, ainda levou o Leicester à final da Copa da Inglaterra na bagunçada temporada de 1968/69.

A campanha do Leicester começou contra o Barnsley, da terceirona, necessitando do replay. Depois, passaram pelo Millwall, da segundona. O grande feito ocorreu nas oitavas, novamente diante do Liverpool de Bill Shankly – vice-campeão inglês naquela temporada, atrás apenas do Leeds de Don Revie. Depois do empate por 0 a 0 em Anfield, o replay teve o triunfo por 1 a 0 das Raposas. Andy Lochhead anotou o gol decisivo, enquanto Shilton pegou um pênalti de Tommy Smith. O goleiro se provaria mesmo o herdeiro ideal de Banks, ao parar o ataque dos Reds. Nas quartas, o Leicester superou o Mansfield Town, zebra da terceirona. Já a semifinal contou com o triunfo sobre o West Brom, de campanha mediana na elite, graças a um gol tardio de Allan Clarke.

O adversário na final, mais uma vez, se prometia um osso duro de roer. O Manchester City de Joe Mercer tinha sido campeão inglês na temporada anterior e carregava diversas lendas celestes. Francis Lee, Colin Bell, Mike Summerbee, Tony Book, Mike Doyle, Alan Oakes e Neil Young fazem parte do Hall da Fama dos mancunianos. Já o Leicester tinha um elenco bem distinto das finais do início da década. Graham Cross e Dave Gibson eram os únicos remanescentes, já que John Sjoberg desfalcava a zaga. A braçadeira ficava com David Nish, que aos 21 anos se tornava o mais jovem capitão numa decisão de FA Cup. Os novos protagonistas eram Shilton, prestes a iniciar uma era na meta da seleção inglesa, e o atacante Allan Clarke, que chegou como a transação mais cara do futebol britânico e logo faria história no Leeds de Don Revie.

O Leicester chegou à final da FA Cup correndo riscos de rebaixamento no Campeonato Inglês e vinha como azarão. De fato, o Manchester City sublinhou seu favoritismo e ganhou por 1 a 0. As Raposas, ainda assim, fizeram uma atuação digna ao saírem para o ataque e buscarem o resultado. O duelo era equilibrado, com chances aos dois lados, até que Neil Young definiu o placar aos 24 minutos. Já no segundo tempo, o Leicester tentou uma pressão, mas acabou dominado pelos Citizens. Allan Clarke, ainda assim, seria eleito o melhor em campo. E aquela conquista teria um significado maior ao City, já que possibilitou a classificação para a Recopa Europeia, rumo ao primeiro título continental do clube.

Três semanas depois, o Leicester não escapou do rebaixamento ao final da temporada 1968/69. Passaria dois anos na segundona e, ao conquistar o acesso, ganhou o direito de desafiar o Liverpool na Charity Shield – que acabou ganhando em 1971. Os sucessos, entretanto, minguaram em Filbert Street. O clube disputaria mais duas semifinais de Copa da Inglaterra depois disso, em tempos embalados por famosos artilheiros. Primeiro, o time estrelado por Frank Worthington caiu para o Liverpool em 1973/74. Já em 1981/82, as Raposas viam a ascensão de Gary Lineker e sucumbiram na semifinal diante do Tottenham.

Finais para o Leicester depois de 1969, só mesmo na Copa da Liga. Foram três, todas disputadas de 1997 a 2000, com títulos em cima de Middlesbrough e Tranmere Rovers, além de uma derrota para o Tottenham. Kasey Keller, Neil Lennon, Emile Heskey, Steve Walsh, Muzzy Izzet, Robbie Savage, Tim Flowers e Matt Elliott eram jogadores célebres no período, em campanhas sempre dirigidas por Martin O’Neill, um dos maiores treinadores que já passaram por Filbert Street. Aquele era um Leicester que fazia boas campanhas no meio da tabela na Premier League, mas não com o impacto que se nota desde os investimentos tailandeses na última década. E, depois de 52 anos fora da decisão da FA Cup, o clube tem chance de reatar essa história, quem sabe para quebrar sua escrita infeliz no torneio com um inédito troféu.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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