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Chelsea derrotou Invincibles do Arsenal para quebrar o maior tabu do clássico em 2004

Rivalidades são normalmente locais e podem depender de algum tipo de empurrão para alcançarem todo seu potencial. Arsenal e Chelsea sempre foram da mesma cidade, mas o confronto entre os dois ganhou um novo patamar a partir da compra dos Blues pelo bilionário Roman Abramovich. Neste domingo, em situações bem diferentes, os rivais se enfrentam no Emirates Stadium, e vale a pena voltar um pouco no tempo para lembrar um dos primeiros grandes duelos da fase do confronto inaugurada com o crescimento do Chelsea: a virada dos Blues em pleno Highbury, pela Champions League, em abril de 2004. Um jogo que acabou com o maior tabu da história do clássico.

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A temporada de 2003/04 estará sempre marcada na história do Arsenal pela conquista invicta da Premier League. Os chamados Invincibles venceram 26 e empataram 12 dos 38 jogos no Campeonato Inglês, contando com ídolos do clube em grande fase, como Thierry Henry, Patrick Vieira e Robert Pirès, entre outros, mas mesmo no período dos sonhos houve alguma turbulência, e ela foi catalisada justamente no confronto contra o Chelsea, no Highbury, pela partida de volta das quartas de final da Champions League.

Pelo futebol apresentado até então, o Arsenal tinha muitos motivos para fantasiar com uma tríplice coroa, mas o sonho ruiu em um intervalo de quatro dias. No fim de março, pela 30ª rodada da Premier League, os Gunners venciam o rival Manchester United em casa por 1 a 0, mas sofreram um empate dolorido no fim do jogo. Para piorar a situação, quando reencontrou os Red Devils em seu jogo seguinte, pela semifinal da Copa da Inglaterra, o time de Wenger acabou eliminado pelo maior rival, com uma derrota por 1 a 0. O jogo seguinte foi então justamente o da volta contra o Chelsea, pela Liga dos Campeões.

A situação do Arsenal não era exatamente ruim, mas havia uma pressão pelo resultado, algo que sobrava também para o lado azul do confronto. Apesar de, naquele momento, estar na segunda colocação, a sete pontos do líder Arsenal, e nas quartas de final da principal competição continental do mundo, o técnico Claudio Ranieiri também se via pressionado por um resultado positivo, por mais difícil que fosse o adversário. Um dia antes do jogo no Highbury, Peter Kenyon, diretor-executivo dos Blues, havia se encontrado com Sven-Goran Eriksson, o que confirmava os rumores da imprensa inglesa de que o clube estava atrás de outro treinador. No meio de março, Ottmar Hitzfeld já havia revelado que havia sido procurado pelo time de Abramovich.

Ranieri estava no comando do Chelsea desde 2000, mas a maneira como vinha conduzindo a temporada 2003/04 não agradava o russo desde o começo. O italiano teve 120 milhões de libras à sua disposição na janela de transferências, e os dirigentes do Chelsea não gostaram tanto assim de suas escolhas no mercado. Posteriormente, as constantes trocas na escalação e na disposição tática da equipe também passaram a ser alvos de críticas. Mesmo adorado pelos jogadores e torcedores, que cantavam seu nome em sua defesa, Ranieri sabia que trabalhava em um lugar em que seus empregadores não iam muito com a sua cara. É claro que vencer o Arsenal naquele momento era algo muito grandioso, mas esse pano de fundo é outro fator importante para explicar o choro de Ranieri após aquele 2 a 1 sobre os Gunners que levou os Blues à semifinal da Champions League.

Antes do confronto, era difícil achar alguém que apostasse em uma vitória do Chelsea. Como se todas as circunstâncias daquela temporada não fossem suficientes, os Blues ainda não sabiam o que era vencer o adversário há 17 jogos, o que segue, até hoje, como o maior tabu do confronto. O último triunfo do Chelsea contra o Arsenal havia sido em 11 de novembro de 1998: uma goleada por 5 a 0 pela Copa da Liga Inglesa. Todos esses elementos contribuíam para esquentar o jogo às vésperas, e a expectativa por um grande encontro foi cumprida.

O primeiro tempo foi de extrema intensidade. O Arsenal atacava rapidamente, desafiando a forte defesa do Chelsea, e era contra-atacado também de forma incisiva, com Damien Duff dando o ritmo necessário. Pelos Blues, entretanto, os maiores destaques individuais foram mesmo dois ídolos da história do clube: John Terry, em uma de suas principais atuações pela equipe que até agora defende, e Lampard, senhor do meio-campo e que teve uma atuação para guardar na memória, ofuscando Vieira no setor.

Empurrado pelo alçapão que era o Highbury, o Arsenal foi quem abriu o placar. Nos acréscimos do primeiro tempo, o time de Wenger subiu pela direita, Lauren cruzou, Henry desviou de cabeça para o meio da área, e Reyes chegou batendo forte na bola, após desvio de Ljungberg.

Ranieri não tinha um grande plano tático para aquela noite. Não foi o tipo de confronto em que o italiano se superou na prancheta e deu um banho em Wenger. Tratou-se, sobretudo, de um triunfo de gana. O técnico tinha o grupo na mão, os jogadores o adoravam, sobretudo Terry e Lampard, jogavam pelo comandante, e isso se materializou na energia com que o Chelsea voltou para o segundo tempo. Logo aos cinco minutos da etapa complementar, Makélélé aproveitou saída de bola errada de Edu e finalizou forte. Lehmann deu o rebote, e Lampard igualou o marcador: 1 a 1.

Após o gol de empate, as duas equipes passaram a atuar de maneira mais cautelosa, buscando diminuir as oportunidades do adversário, e os lances de ataque não se repetiram no segundo tempo com a mesma frequência do primeiro. Ainda assim, houve espaço para emoção ainda maior. Ela apenas estava guardada para os minutos finais. Aos 40, Gudjohnsen quase garantiu a virada para o Chelsea, mas viu Ashley Cole salvar os Gunners em cima da linha. O esforço do lateral, entretanto, não evitou o que viria dois minutos depois.

Wayne Bridge desceu como uma flecha pelo flanco esquerdo, tabelou rapidamente com o atacante islandês e bateu cruzado, rasteiro, na saída de Lehmann, para conseguir o que, considerando todas as circunstâncias cercando aquele jogo, parecia impensável. A virada por 2 a 1 não apenas eliminou da Champions League o Arsenal. Não apenas colocou um time de Londres pela primeira vez na semifinal do principal torneio europeu desde 1962. Não apenas encerrou uma longa sequência de 17 jogos sem vencer os Gunners.

O jogo foi uma redenção pessoal para Ranieri, que não conteve as lágrimas. Um primeiro grito da grandeza que o Chelsea vislumbrava para os próximos anos no cenário europeu. Foi o duelo que, por um momento muito breve, fez algumas pessoas questionarem se o Arsenal não poderia estar entrando em um declínio súbito após uma temporada que até poucos dias atrás era dos sonhos. A resposta dos Gunners foi imediata, com um 4 a 2 sobre o Liverpool na rodada seguinte da Premier League e com a manutenção da invencibilidade no Inglês, a grande história que é lembrada daquela temporada, mas não a única. De seu ponto de vista, o Chelsea adora lembrar como conseguiu frustrar o sonho de conquista europeia do rival, ainda que tenha sido impossível batê-lo em âmbito nacional.


2004 (April 6) Arsenal (England) 1-Chelsea… por sp1873

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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