Inglaterra

Bob Paisley, o gênio silencioso que virou o técnico inglês mais vitorioso de todos os tempos

O Liverpool era um dos melhores times da Europa, em 1974, com títulos recentes tanto dentro de casa quanto em palcos europeus, o que torna espantoso que, no meio daquele ano, os dois homens que a diretoria desejava para comandá-lo não queriam aceitar o trabalho. Após inúmeras ameaças vazias, Bill Shankly, enfim, falava a sério. As tentativas de convencê-lo a mudar de ideia foram infrutíferas, e do homem que refundou o clube restou apenas o legado de uma década e meia de métodos que o levaram à glória. Os cartolas avaliaram trazer alguém de fora, Jack Charlton e Bobby Robson entre os candidatos, mas, em um momento de clareza de pensamento, preferiram tentar preservar esse legado. E ofereceram o cargo ao braço direito de Shankly.

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Ainda abalados com a saída do “chefe”, presença tão forte em tudo que fosse relacionado ao Liverpool naquela época, os jogadores reuniram-se em uma manhã de julho para ouvir o novo treinador falar. A novidade era relativa. Todos conheciam Bob Paisley muito bem. O natural de Hetton-le-Hole, da região de Sunderland, associava sua vida a Anfield desde 1939, como jogador, fisioterapeuta e assistente técnico. Eles queriam ser encorajados. Encontrar confiança no homem que tinha a missão impossível de suceder uma lenda. Ouvir palavras que os tranquilizassem, que os fizessem ter certeza que o time continuaria no caminho certo.

Escrever que ficaram decepcionados é um retumbante eufemismo. A conversa durou aproximadamente três minutos, nos quais Paisley conseguiu encaixar oito vez – alguém contou – que não queria o trabalho. Que tentou convencer Shankly a continuar, mas não foi bem-sucedido. Que o “andar de cima”, como ele chamava a diretoria, o havia pressionado a ser o novo técnico e que, por mais que ele tivesse tentado, não foi capaz de recusar. Foi obrigado a aceitar, faria o que pudesse “até alguém ser contratado” e “vamos ver o que acontece”.

Parte disso emanava da cultura do Liverpool, instaurada por Shankly, de respeito à hierarquia e união irrestrita, de cada um fazendo a sua parte para o bem maior. Era o jeito de Paisley deixar claro que não havia puxado o tapete de Shankly. A outra parte era sua personalidade. Ele era o homem dos detalhes, acostumado às sombras e ao anonimato, sem muitas habilidades pessoais e o terror dos jornalistas pela dificuldade de falar em público, a ponto de o clube designar um funcionário para ajudá-lo nas entrevistas coletivas.

Os jogadores ficaram ainda mais preocupados. A forte personalidade de Shankly havia sido substituída pela relutância de um homem que não poupou esforços para comunicar que não queria estar ali. Mas, entre aquela timidez, havia o cérebro do arquiteto de 308 vitórias em 535 partidas, de um tricampeão europeu que levantou 20 troféus – contando seis Supercopas da Inglaterra e uma da Europa – em nove temporadas. O cérebro de um gênio silencioso. Bob Paisley, nascido 100 anos trás, não queria ser técnico. Mas, uma vez obrigado a ser, tornou-se o maior técnico inglês de todos os tempos.

Pequeno para o Sunderland, grande no Liverpool

Robert Paisley nasceu em 1919, em Hetton-le-Hole, ao sul de Sunderland, no nordeste da Inglaterra. Filho de uma família que tirava seus rendimentos das minas de carvão, como muitas da classe operária naquela época, precisando lidar com a insegurança e os riscos do ofício – 200 quilômetros ao noroeste, os Shanklys passavam pelas mesmas provações. O pai Samuel sofreu um acidente no braço, três meses antes de a mina em que trabalhava fechar, e decidiu que seus filhos seguiriam outro caminho na vida.

Como todo garoto da região, o sonho era defender o Sunderland. Paisley destacava-se no time da escola, com uma prateleira cheia de medalhas e uma técnica muito boa para desarmar. Era duro, firme e tinha qualidade com a bola nos pés. A chance apareceu. Paisley fez o teste nos Black Cats e estava otimista, mas teve o coração despedaçado pelo treinador Johnny Cochrane, que o considerou pequeno demais. A mesma justificativa foi exposta pelo Tottenham e pelo Wolverhampton.

O garoto estava resignado a seguir a vida normal, como aprendiz de pedreiro, quando foi convocado pelo Bishop Auckland, uma equipe semi-amadora de muito sucesso, com dez títulos da FA Cup amadora. Um deles veio com a ajuda de Paisley, em 1939, contra o Willington. Ele atuava de left-half – um misto de lateral com volante, um jogador posicionado à frente dos zagueiros, com a missão de marcar o ponta-direita adversário.

As suas atuações chamaram a atenção do técnico do Liverpool, George Kay. O Sunderland também se interessou em tentar corrigir o erro de anos antes, mas Paisley já havia dado sua palavra para os Reds. Em vez de continuar em casa, atravessou o país de leste a oeste para dar início a uma associação de quase 50 anos com o clube de Anfield. A adaptação foi difícil. Ele encontrou refúgio e solidariedade nos ombros do então capitão do time, um homem chamado Matt Busby, que ficaria muito conhecido pelo seu trabalho à frente do Manchester United nas décadas seguintes.

Ele não teve tempo de se firmar no time antes de a Segunda Guerra Mundial eclodir. Paisley serviu o Exército da Rainha durante o conflito. Começou em estações locais, mas também batalhou em outros países, como Egito e Itália. Estava em um dos tanques dos Aliados quando Roma foi libertada das mãos dos nazistas – e, 33 anos depois, na mesma cidade, conquistaria a primeira Copa dos Campeões da história do Liverpool. A guerra comeu boa parte da sua carreira. Chegou ao profissionalismo com 20 anos, mas foi apenas aos 27 que fez a sua estreia na liga inglesa.

Paisley atuou em 33 das 42 rodadas daquela temporada, que terminou com o Liverpool levantando o primeiro troféu do Campeonato Inglês depois da Segunda Guerra – o quinto da história dos Reds. Ele se destacava pelo trabalho duro, pelos lançamentos longos de lateral e pela capacidade de analisar as partidas nos vestiários. Em 1949/50, o clube parecia destinado a mais um troféu, ao passar as 19 primeiras rodadas invicto, mas, depois da primeira derrota, a decadência foi acentuada, e a realidade foi o oitavo lugar.

A redenção poderia vir na Copa da Inglaterra, que o Liverpool nunca havia vencido. Paisley não era um grande goleador – marcou 12 vezes em 277 partidas -, mas foi ele quem abriu o placar da semifinal, contra o Everton, no Maine Road, de Manchester. Billy Liddel fez o segundo e marcou o encontro com o Arsenal em Wembley. A decisão foi uma grande frustração na sua carreira. Ele se machucou na preparação para a final e perdeu algumas partidas. Recuperou-se a tempo, segundo informou ao técnico, mas a diretoria, que tinha influência na escalação, decidiu não o escalar. Descobriu pelo jornal que não jogaria. Diria anos depois que uma publicação ofereceu dinheiro para que ele botasse a boca no trombone. Ele recusou. E os Gunners ganharam por 2 a 0.

O Liverpool seguiu em decadência. George Kay foi embora, em 1951, e três anos depois, o clube caiu para a segunda divisão. Ao mesmo tempo, Paisley, aos 35 anos, não constou na lista de jogadores que permaneceriam para a próxima temporada. Ele já havia feito um curso de fisioterapia por correspondência e pediu ao diretor Thomas Williams permissão para ganhar mais experiência acompanhando acidentes em hospitais da cidade. Foi contratado como treinador do time reserva, formado por jovens ou titulares precisando recuperar a forma depois de longas lesões. Tornou-o mais competitivo. Em 1957, foi promovido à comissão técnica principal de Phil Taylor e passou a paulatinamente assumir as funções de fisioterapeuta. E, em 1959, Bill Shankly chegou.

O braço direito de Shankly
Bob Paisley (esq.) e Bill Shankly

O Liverpool precisava de uma revolução, e Bill Shankly era o homem para executá-la. Havia sido um jogador importante e realizado bons trabalhos como técnico, mas, principalmente, era apaixonado pelo que fazia e compartilhava o desejo dos torcedores de ver o clube retornar ao primeiro patamar do futebol inglês. Reformou as estruturas, introduziu novos métodos e uma nova cultura. Mas nada teria sido possível sem os seus tenentes: Joe Fagan, Reuben Bennett e Bob Paisley.

Paisley havia se esforçado para ser inestimável para o clube. Não tinha medo de colocar a mão na massa. Literalmente: usando seu passado de aprendiz de pedreiro, ajudou nas reformas de Anfield. Era a mente tática da comissão técnica e tinha uma capacidade sobrenatural para diagnosticar lesões. Pelas semelhanças e pelas diferenças em relação a Shankly, era o complemento perfeito.

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Os dois eram iguais na essência: ambos haviam crescido em famílias da classe operária, próximos a minas de carvão, tinham uma ética de trabalho exemplar, acreditavam que a coletividade era mais forte que qualquer indivíduo – embora Shankly fosse muito mais político –  e jogaram na mesma posição. E gostavam de boxe. Meio que parava por aí. Embora apaixonados por futebol, Shankly era um daqueles homens que não conseguia se desligar. Pensava no Liverpool 24 horas por dia, sete dias por semana. Montava esquemas táticos com o saleiro na mesa de jantar e buscava peladas durante as férias.

Paisley tinha outros interesses. Para ele, as corridas de cavalo em que apostava eram tão importantes quanto a bola na grama. Eram personalidades muito diferentes. Shankly era a presença forte em torno da qual todos orbitavam. Ele falava, Paisley ouvia e concordava. Não há registros de discussões sérias ou discordâncias fundamentais. Também por isso, embora o respeito mútuo fosse enorme, nunca foram realmente amigos, de visitar a casa do outro, jantar com frequência e juntar as famílias para aproveitar o sol de Mallorca.

Shankly era o visionário. Possuía a visão de longo prazo para o clube. E Paisley era o homem dos detalhes, das tarefas mundanas. Era melhor observador de adversários e jogadores a serem contratados. Shankly era o motivador. Tinha um jeito especial de fazer os jogadores acreditarem que eram super-heróis. Um elogio do chefe valia uma semana de sorrisos e todos corriam aquele quilômetro extra para recebê-lo. Paisley assumia o fardo de ser temido. Sempre com orientações do técnico, era quem dava as broncas e comunicava as notícias ruins. E quem de vez em quando levava a Shankly informações que os jogadores preferiam que não chegassem ao chefe.

Paisley exercia muito bem as funções de fisioterapeuta, especialmente para quem não tinha uma educação formal na área. A sua intuição era avassaladora. Era capaz de avaliar as fraquezas físicas dos adversários e orientar os jogadores a aproveitá-las. Shankly tinha pavor de lesões e frequentemente desconfiava que os atletas estavam fingindo, ou que não estavam machucados o suficiente. Paisley conseguia diagnosticar os problemas como ninguém e estava sempre atento a novas tecnologias.

O principal conflito entre os dois surgiu depois da aposentadoria de Shankly. Como era previsto, ele não conseguiu se afastar completamente do time. Compareceu ao primeiro dia de trabalhos de Paisley como treinador do Liverpool em Melwood, com trajes de treino, para dar uma corridinha. Tudo ainda muito recente, era chamado de “chefe” pelos jogadores, enquanto Paisley, o novo chefe, ainda era “Bob”.

Paisley estava acostumado a ficar em segundo plano. Como em muitas parcerias entre técnico e assistente daquela época, e mesmo dos dias de hoje, era Shankly quem levava todas as glórias e os méritos. Ele próprio reconheceu poucas vezes em público a importância do seu braço direito e, quando se aposentou, sugeriu Jack Charlton para o cargo em vez de Paisley. Mas o trabalho de substituir uma lenda era difícil o bastante sem a presença física dessa lenda no dia a dia.

Ele precisava de espaço para trabalhar. Não deve ter sido fácil o momento em que, segundo uma biografia de Shankly, passou ao antigo chefe a mensagem de que ele sempre seria bem-vindo em Melwood, mas precisava se afastar. Que, se desejasse continuar envolvido com o Liverpool, poderia viajar à Escócia com a esposa para observar jogadores. Shankly, porém, entendeu que estava sendo expulso do clube que ajudou a construir, e sua relação com os Reds não foi mais a mesma. Embora continuasse assistindo aos jogos em Anfield, imaginava que continuaria ligado ao Liverpool de alguma maneira depois da aposentadoria, como diretor ou conselheiro, o que nunca aconteceu.

Em 1977, já campeão europeu e estabelecido como técnico do Liverpool, Bob Paisley participou de um programa chamado This Is Your Life, no qual o apresentador emboscava o entrevistado e o levava ao estúdio, onde ele recebia a visita de colegas, familiares, amigos e conhecidos. No caso de Paisley, o sequestro aconteceu no próprio ônibus do Liverpool, depois de uma derrota para o Queens Park Rangers, em Loftus Road. No estúdio, um dos convidados foi Bill Shankly, e a reação de Paisley ao vê-lo deixa claro que, se houve, o rancor não perdurou em nenhum dos dois.

O mais vitorioso técnico inglês de todos os tempos
Paisley ao lado de Souness

Alf Ramsey ganhou a Copa do Mundo pela Inglaterra, e Brian Clough liderou um conto de fadas. Em média de troféus por temporada, porém, ninguém chega perto de Bob Paisley: 2 por ano (20 no total), contando as Supercopas, e 1,4 (13) sem elas. A taxa supera até mesmo a do escocês Alex Ferguson (1,37 com Supercopas, 1 sem elas) no Manchester United. Foram seis títulos do Campeonato Inglês, três Copas da Liga, uma Copa da Uefa e, claro, três Copas dos Campeões da Europa.

O diagnóstico da diretoria estava correto. O Liverpool não precisava de alguém que mexesse nas estruturas. Elas haviam sido construídas por Shankly e continuavam funcionando. Depois de muita resistência, ele havia tomado a difícil decisão de renovar o elenco, negociando medalhões como Ron Yeats e Ian St. John, e os resultados começavam a aparecer: campeão inglês, da Copa da Uefa e da Copa da Inglaterra antes de sua aposentadoria. O sentimento de dever cumprido, depois de montar um segundo time vencedor, pode ter contribuído para sua apressada decisão.

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Era uma equipe com jovens, como o goleiro Ray Clemence e o atacante Kevin Keegan, prestes a dar frutos. Bastava alguém que conseguisse conduzir o barco à linha de chegada. Entre as desconfianças pela personalidade de Paisley, a maioria do elenco ficou feliz quando descobriu que o novo técnico não seria um forasteiro. Seria alguém da casa, que os conhecia, que os valorizava como jogadores, e que não faria mudanças bruscas.

Ele tinha suas particularidades. Enquanto Shankly adotava o estilo paizão, Paisley era implacável. Tirava e colocava jogadores no time titular sem hesitação. Como tinha habilidades precárias de comunicação, e odiava conflitos, muitas vezes os jogadores descobriam que não jogariam pela imprensa – ironicamente, como ele naquela final de Copa da Inglaterra em 1950. Nem todos ficavam satisfeitos.

Paisley também não tinha medo de negociar atletas assim que identificava quedas de rendimento, mesmo antes de eles completarem 30 anos, mesmo que eles tivessem uma grande história. Não havia lugar para sentimentalismos. O objetivo era atuar sempre no nível mais alto possível, o que foi um dos segredos da dinastia do Liverpool naqueles anos, embora talvez tenha lhe impedido de fazer muitos amigos.

Em estilo de jogo, a principal mudança foi herdada do fim da era Shankly. A derrota para o Estrela Vermelha, na Copa dos Campeões de 1973/74, foi o ponto de inflexão. O Liverpool foi dominado e derrotado pelos sérvios nas duas partidas. Na Boot Room, espartana sala de chuteiras debaixo das arquibancadas de Anfield, a comissão técnica decidiu que precisaria adotar uma postura mais parecida com a dos times europeus se quisesse ser competitivo nos palcos continentais.

Isso significava mais paciência na troca de passes. Com Shankly, a instrução era sempre passar para frente e se projetar para receber a bola de volta. Os times de Paisley, especialmente fora de casa, passariam a bola de pé em pé, sem pressa. Os objetivos eram evitar os riscos e deixar a torcida adversária ansiosa. O nervosismo passaria aos adversários e os espaços começariam a aparecer.

Para funcionar, uma mudança tática foi essencial. O último time de Shankly já tinha o meia Phil Thompson recuado à defesa, ao lado de Emlyn Hughes, outro ex-meio-campista. Desde a década de sessenta, com Tommy Lawrence, os goleiros do Liverpool treinavam para jogar melhor com os pés, e com Ray Clemence não era diferente. Isso qualificava a saída de bola, com passes conscientes e triangulações desde a defesa.

A primeira decisão difícil que ele teve que tomar foi se livrar de Larry Lloyd. Lloyd havia sido contratado por Shankly, em 1969, e era da estirpe de Ron Yeats: alto, forte, bom no jogo aéreo. Nos primeiros treinamentos, a expectativa era se Paisley o colocaria entre os titulares ou manteria a dupla com Thompson e Hughes. Lloyd jogou pelos reservas e, antes mesmo da estreia de Paisley, estava vendido ao Coventry City por £ 240 mil – valor altíssimo para a época. A vingança viria alguns anos depois.

O Liverpool teve um sucesso retumbante com essa estratégia. Para aquela época, o currículo europeu dos Reds era razoável: uma semifinal contra a Internazionale de Helenio Herrera, uma final de Recopa contra o Borussia Dortmund e o título da Copa da Uefa contra o Borussia Monchengladbach. Com Paisley, o clube disputou a Copa dos Campeões sete vezes em nove anos, com três títulos, duas quartas de final e duas eliminações na primeira rodada.

Uma delas seria para o nêmesis de Paisley, Brian Clough. O treinador do Nottingham Forest não poderia ser mais diferente e aquele time histórico que montou impediu o Liverpool de conquistar cinco edições do Campeonato Inglês em sequência, com o título de 1977/78, e o eliminou da Copa dos Campeões de 1978/79. Ao contrário do estilo de troca de passes dos Reds, o Forest adotava um jogo mais direto e solidificado na defesa, que tinha Larry Lloyd entre os seus zagueiros.

O primeiro título europeu foi em Roma, contra o Borussia Monchengladbach. “É a segunda vez que eu venço os alemães aqui. A primeira foi em 1944. Eu entrei em Roma em um tanque quando a cidade foi libertada. Se alguém tivesse me dito que eu estaria de volta aqui para vencer a Copa dos Campeões 33 anos depois, eu diria que a pessoa era louca”, afirmou. Aquela foi a última partida de Kevin Keegan pelo Liverpool.

Keegan queria ir embora na temporada anterior, mas chegou a um acordo com Paisley. Ficaria mais uma temporada, e o clube facilitaria sua saída. Na hora H, apareceu apenas o Hamburgo para contratá-lo e, por £ 500 mil, o atacante foi para a Alemanha. O Liverpool precisava de um subtituto. Quando descobriu que Jock Stein finalmente aceitaria vender Kenny Dalglish, a comitiva vermelha rumou ao norte e fechou o negócio, por £ 440 mil. Alan Hansen chegou do Patrick Thistle, e Graeme Souness, do Middlesbrough. Um novo time começava a ser formado, com base no triunvirato escocês.

As mudanças significaram alguns tropeços no Campeonato Inglês, que havia sido vencido pelo Liverpool nas últimas duas temporadas. Aliás, em toda a passagem de Paisley como treinador, o clube ficaria sempre em primeiro e segundo lugar, com exceção de 1980/81, quando, com um time envelhecido, ficou em quinto. Foram 213 vitórias em 378 rodadas. Mas, naquela campanha, não deu para alcançar o Nottingham Forest. A compensação pelo vice-campeonato viria na Copa dos Campeões. O adversário da final em Wembley, seria o Club Brugge, o mesmo que fora batido na Copa da Uefa, primeiro título europeu do clube. E o gol custaria £ 790 mil: de Souness, para Dalglish, para o gol.

O terceiro título viria em 1980/81. Aquela foi uma temporada difícil para o Liverpool, com a pior colocação da Era Paisley no Inglês. Jovens como Ian Rush e Sammy Lee começavam a surgir, mas a escalação da decisão contra o Real Madrid foi muito parecida com à da final diante do Club Brugge. Apenas três mudanças. Uma delas era Alan Kennedy. A sua contratação do Newcastle foi bancada por Paisley, que conhecia a mãe do lateral esquerdo, funcionária de uma loja de peixes em Hetton-le-Hole.

O começo foi difícil. No intervalo do seu primeiro jogo, contra o Queens Park Rangers, ouviu do treinador, nos vestiários, que “haviam atirado no Kennedy errado”, em referência ao ex-presidente americano assassinado. Mas ele eventualmente se firmou e disputou mais de 350 partidas pelo Liverpool. E marcou o gol do terceiro título europeu no Parque dos Príncipes.

Ao contrário de Shankly, houve pouco drama na saída de Paisley. Ele informou a diretoria e os jogadores um ano antes, no começo da temporada 1982/83. Queria fazer outras coisas na vida e algumas fontes apontam para um pequeno problema de saúde. Não era um homem jovem. Graças à guerra, começou tarde no futebol profissional. Graças a Shankly, começou tarde a carreira de técnico. Teria 64 anos ao fim da temporada e era hora de ir embora. Despediu-se com mais um título inglês e da Copa da Liga.

Joe Fagan, outro membro da comissão técnica, assumiu as rédeas, por dois anos, e depois foi a vez de Kenny Dalglish. Paisley continuou relacionado ao clube como uma espécie de decano. Quando Fagan renunciu, depois do desastre de Heysel, Paisley retornou oficialmente como conselheiro para ajudar Kenny Dalglish, que acumularia as funções de jogador e treinador. Mas Dalglish tinha personalidade forte e confiança. Queria fazer as coisas do jeito dele. Os conselhos de Paisley eram apreciados apenas no momento certo. E, pouco a pouco, ele foi naturalmente perdendo influência.

Nada que tenha abalado demais Bob Paisley. Ao fim da década de oitenta, ele completava 50 anos de dedicação ao Liverpool, desde que foi contratado como jogador em 1939, e era um homem diferente. Havia nascido na pobreza de uma mina de carvão, com a Inglaterra ainda sofrendo com os resquícios da Primeira Guerra Mundial, superado as barreiras para virar jogador de futebol, lutado ele próprio em uma guerra e triunfado como jogador, fisioterapeuta, assistente e técnico em um dos maiores clubes do mundo. Mesmo a pessoa mais tímida que existe não consegue evitar a auto-confiança quando se torna o treinador de futebol mais vitorioso do seu país.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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