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Técnico a gente faz em casa: o que funcionou com o Liverpool volta a dar certo com o Real Madrid

Quando Bill Shankly chegou ao Liverpool, em 1959, a comissão técnica temeu pelos seus empregos. Seria natural que um novo treinador trouxesse pessoas de confiança para desenvolver o difícil e ambicioso projeto de tirar o clube da segunda divisão e fazê-lo disputar títulos novamente. No entanto, o primeiro ato de Shankly em Anfield foi reunir os auxiliares Bob Paisley, Joe Fagan e Reuben Bennett e anunciar que os manteria. Em troca, pediu apenas uma coisa: lealdade, a ele, entre eles e ao Liverpool. Sem saber, Shankly começava a formar os treinadores que dariam quatro títulos da Copa dos Campeões para os Reds.

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O grande legado de Shankly para o Liverpool foi desenvolver um método que abrangia todos os aspectos que um clube de futebol precisa para vencer: treinamentos, observação dos adversários, com dossiês extensos e detalhados, identidade tática, relações interpessoais e gestão de elenco, espírito coletivo, prospecção de talento e confiança. O símbolo da administração era uma salinha espartana que ficava em um corredor debaixo da arquibancada Main Stand, onde as chuteiras dos jogadores eram lavadas e penduradas até ficarem secas.

Não havia cadeiras na chamada Boot Room, ou sala das chuteiras, onde a comissão técnica sentava-se em velhas caixas de cerveja ou barris para discutir os adversários, o desenvolvimento dos jogadores, quem seria contratado, quem começaria jogando ou seria enviado aos reservas. Também naquele local eles recebiam os treinadores adversários para o tradicional drinque pós-jogo, quando a fofoca corria solta, e os auxiliares anotavam mentalmente cada detalhe que o convidado deixava escapar, sobre o próprio time, futuros rivais ou jogadores talentosos que ele havia notado.

A comissão técnica na famosa sala das chuteiras: Moran, à esquerda, com Paisley ao seu lado, e Fagan, abaixado, ao centro (Foto: Liverpool)

À medida em que o Liverpool conquistava títulos e galgava degraus na hierarquia europeia, a Boot Room ganhou ares de santuário, como se ali fossem realizados rituais místicos responsáveis pelos ótimos resultados em campo. Haviam rituais, de fato, e também certa religiosidade – jogadores eram raramente permitidos dentro da sala -, mas o segredo estava longe de ser cabalístico. Era apenas o trabalho duro de homens do futebol dedicados, inteligentes e comprometidos com a maneira de trabalhar em Anfield.

Shankly anunciou sua aposentadoria em 1974. A diretoria do Liverpool buscou um sucessor que desse sequência ao método que ele havia instalado no clube, embora com um estilo diferente. Escolheu Bob Paisley. Quando Paisley pendurou as botas, nove anos depois, o sucessor foi Joe Fagan, outro integrante da Boot Room. E depois de Fagan, Kenny Dalglish, que não frequentava a salinha de chuteiras, mas era letrado no regimento interno de Anfield. Em seguida, vieram Graeme Sounnes, capitão com Paisley, e Roy Evans, que integrou a comissão técnica vermelha na década de setenta.

Entre a chegada de Shankly, em 1959, e Gérard Houllier, em 1998, o Liverpool teve outros cinco treinadores e nenhum forasteiro. O único contratado, e não promovido, foi Souness, que  estava no Rangers e retornou quando Dalglish, estafado pelo desastre de Hillsborough, pediu o boné. Mesmo assim, era, como os outros, um homem formado pelo método do Liverpool. Foi com ele, porém, que a fórmula começou a caducar, entre as transformações pelas quais o futebol inglês passou na década de noventa.

Mas durante muitos anos, formar treinadores funcionou impecavelmente para o Liverpool. Esses técnicos foram responsáveis por quatro Copas dos Campeões, uma Copa da Uefa, 12 títulos do Campeonato Inglês, quatro Copas da Inglaterra e cinco Copas da Liga Inglesa, além de mais de uma dezena de Supercopas domésticas ou europeias. Coincidentemente, o adversário do Liverpool na final da Champions League, no próximo sábado, tem experimentos de sucesso com a mesma fórmula “técnico a gente faz em casa”.

A estratégia do Real Madrid é intermitente, e não uma política contínua como foi a do Liverpool. Os casos são esporádicos, entre contratações de treinadores de renome de outros clubes, mas também com muito sucesso. Entre Miguel Muñoz, José Villalonga e Vicente Del Bosque estão metade das Copas dos Campeões conquistadas pelos merengues. Com a demissão de Rafa Benítez, de propósito ou não, a fórmula foi retomada. Zinedine Zidane subiu do Castilla para o time principal, em 2016, e acrescentou mais dois títulos europeus a esta rica história. E tentará o terceiro em Kiev contra um Liverpool treinado pelo forasteiro Jürgen Klopp.

LIVERPOOL

Bob Paisley (1974-1983)  
Paisley: três Copas dos Campeões

A manchete do Liverpool Echo dava a medida do trabalho que o sucessor de Bill Shankly teria pela frente: “A busca por um super-homem começou”. Shankly havia se tornado o coração do Liverpool que renasceu nos anos sessenta como um clube capaz de se candidatar aos principais títulos. Expirava carisma por todos os seus poros, entendia os torcedores melhor do que ninguém e simbolizava toda a paixão de acompanhar os Reds naquela época. Em 1974, porém, estava cansado. Havia conseguido renovar a primeira equipe que montou e voltou a ser campeão. Sentimento de dever cumprido. Ameaçava se aposentar todo fim de temporada e acabava voltando atrás. Mas, desta vez, falava sério. O Liverpool estava em busca de um novo treinador e qualquer um teria que lidar com uma sombra do tamanho de Anfield.

O que ninguém imaginava é que esse homem seria Bob Paisley – nem o próprio Paisley. Nomes externos foram considerados: Jack Charlton, sugestão direta de Shankly, e Bobby Robson. Mas a cúpula do Liverpool temia que alguém de fora chacoalhasse demais um barco que já estava acertadinho. Entre os assistentes de Shankly, a famosa turma do Boot Room, a escolha mais óbvia seria Paisley, braço direito do antigo treinador. “Se me pedirem para assumir o comando, a rotina do clube não mudará um centímetro”, disse Paisley. E era exatamente isso que a diretoria queria.

A vida de Paisley havia sido o Liverpool. Chegou ao clube em 1939, como um meio-campo que fazia bem o seu trabalho, mas nunca brilhava demais. Perdeu seis anos de carreira defendendo o Exército britânico na Segunda Guerra Mundial e retornou a Anfield para conquistar o Campeonato Inglês de 1946/47. Em 1954, um mês depois de se aposentar, tornou-se membro da comissão técnica. Fez um curso de fisioterapia por correspondência e se tornou famoso por uma capacidade quase intuitiva de diagnosticar lesões.

O problema foi convencê-lo. As duas primeiras conversas terminaram com negativas do fisioterapeuta. Com todo conhecimento que tinha, não se sentia capaz de lidar com todos os aspectos do cargo de técnico principal, especialmente negociar com outros clubes, renovar contratos e conversar com a imprensa. A personalidade de Paisley não poderia ser mais diferente do que a de Shankly: introvertido e pouco comunicativo, não se sentia confortável com conflitos e nem sempre foi totalmente franco com seus jogadores, o que gerou algumas rusgas ao longo dos nove anos do seu reinado. Quando foi anunciado, conta o biógrafo John Keith, Paisley chamou a imprensa para uma reunião e lhe deu permissão para completar as suas frases porque “não era muito bom em expressar o que queria dizer”.

O começo teve problemas, especialmente porque Shankly fez questão de transformar a sombra metafórica em uma presença física. De energias recarregadas, o ex-treinador não lidou muito bem com a monotonia da aposentadoria. Aparecia em Melwood, centro de treinamentos, e continuava a ser chamado de “chefe” pelos jogadores, enquanto Paisley era apenas “Bob”. O novo técnico do Liverpool teve que angariar muita coragem para pedir que ele se afastasse, o que foi dolorido, mas necessário: seu trabalho já era difícil o bastante sem que houvesse uma briga por autoridade que ele invariavelmente perderia.

Com o tempo, conseguiu ganhar o elenco. A aparente timidez escondia a personalidade forte de quem nunca teve medo de tomar decisões difíceis, fosse para mandar embora jogadores renomados que começavam a decair ou deixar alguém de fora da escalação titular. O olho para os detalhes foi essencial para modificar jogos importantes e recrutar com excelência. Foi achar um jogador como Ian Rush no Chester City, buscou Ronnie Whelan no nada relevante Campeonato Irlandês e trouxe Groobelaar do Vancouver Whitecaps. Todos seriam lendas de Anfield. Desenvolveu uma maneira de atuar em partidas europeias fora de casa que deu muito certo e os troféus começaram a se empilhar: seis edições do Campeonato Inglês em nove temporadas, três Copas dos Campeões, uma Copa da Uefa, e um punhado de copas nacionais que o tornaram o treinador inglês mais bem-sucedido da história.

Joe Fagan (1983-85)
Joe Fagan

Ao contrário de Shankly, Paisley não pegou ninguém de surpresa. Anunciou sua aposentadoria à diretoria do Liverpool com quase um ano de antecedência, embora a notícia tenha sido confirmada ao público apenas depois do fim da temporada 1982/83. Durante o período de especulação, ex-jogadores do clube que haviam conseguido algum destaque como treinador em outros lugares se animaram, como Ian St. John, Emlyn Hughes, Gordon Milne e John Toshack. Mas, desta vez, a cúpula vermelha sequer discutiu trazer alguém de fora. Com o sucesso estrondoso de Paisley, não havia motivo para não confiar na produção industrial de treinadores da Boot Room. Era um caso de progressão natural e de hierarquia. Era a vez de Joe Fagan.

Fagan foi um jogador de relativo sucesso com a camisa do Manchester City entre os períodos anteriores e posteriores à Segunda Guerra Mundial. Foi contratado pelo Liverpool pelo antecessor de Shankly, Phil Taylor, em 1958. Sua primeira função foi como treinador do time reserva. Ascendeu à equipe principal e virou o braço direito de Paisley. Seu forte era o relacionamento com os jogadores. Sabia o momento de abraçá-los e o momento de cobrá-los. Suas broncas eram raras, mas temidas, curtas e grossas. Às vezes meramente com o olhar. Ele se tornou o conselheiro mais procurado pelo elenco. E tinha algo mais a seu favor: era um scouser, nascido em Liverpool. Desde que chegou ao clube até morrer, em 2001, morou na mesma casa a uma pequena caminhada de Anfield. Mesmo quando se tornou treinador principal, ia a pé para o trabalho, como se fosse um técnico de televisão ou um leiteiro, e não o comandante do melhor time da Inglaterra.

Como Paisley, Fagan precisou ser convencido. “Quando Bob decidiu se aposentar, eu temi que eles me pedissem para assumir o cargo. Eu havia dito anos antes que nunca me tornaria treinador. Mas as coisas mudam, não mudam?”, disse Fagan, em sua autobiografia autorizada. Segundo ele, a mudança de opinião foi baseada no medo que viesse alguém de fora para interromper o projeto que havia sido aprimorado por Paisley. “Minha primeira reação foi não aceitar. Mas eu pensei nisso cuidadosamente e percebi que poderia vir alguém de fora e atrapalhar todo o ritmo. Eu finalmente decidi aceitar e manter a continuidade um pouco mais”, afirmou.

Se suceder uma lenda já foi difícil para Paisley, a pressão era inimaginável sobre os ombros de Fagan, que deveria suceder duas lendas. Mas ele tirou a situação de letra, com um feito que nenhum de seus antecessores havia conseguido. Conquistou três troféus importantes em uma mesma temporada: o Campeonato Inglês, a Copa da Liga e a Copa dos Campeões, derrotando a Roma, no Estádio Olímpico da capital italiana. O ano seguinte não foi tão bom, mas, ainda assim, o Liverpool foi vice-campeão inglês e chegou à principal final europeia novamente.

Heysel marcou tragicamente o fim da breve passagem de Fagan como treinador do Liverpool. A decisão de se aposentar havia sido tomada antes daquela decisão contra a Juventus. Ele havia assumido o clube já com 62 anos e o plano sempre foi comandar duas ou três temporadas e dar espaço para alguém mais jovem, como Phil Neal ou Kenny Dalglish. Mas havia uma suspeita de que Fagan não conseguiria se afastar do time tão facilmente e que um bicampeonato europeu o faria reconsiderar. Mas a morte de 39 torcedores italianos por causa das ações criminosas dos hooligans ingleses atingiu o seu espírito de tal maneira que não havia mais espaço para deliberação. As imagens de Fagan depois da partida eram de um homem quebrado, triste, pouco condizentes com a figura forte que, em dois anos, teve uma taxa de sucesso sem precedentes à frente do Liverpool. “Eu amo futebol e amo este clube, mas sinto que, se eu seguir em frente mais um pouco, as pessoas podem não me amar mais”, encerrou.

Kenny Dalglish (1985-1991)
Kenny Dalglish (Foto: Getty Images)

Não foi uma surpresa, pela ascendência e respeito que Kenny Dalglish tinha no Liverpool, e pelos rumores que já circulavam, mas a sua nomeação como sucessor de Joe Fagan foi um risco. A progressão natural seria dar o emprego para Ronnie Moran, que havia se juntado à turma da Boot Room ainda na época de Bill Shankly. Romper a ordem de sucessão da comissão técnica foi uma decisão encorajada principalmente pelo presidente John Smith. Aos 34 anos, Dalglish não tinha experiência como treinador, além da compreensão sobre-humana do jogo, que demonstrava sempre que entrava em campo, e o que havia aprendido com seus antigos treinadores. Ele conciliaria as novas responsabilidades com as de jogador nos dois primeiros anos (no seguintes, atuou apenas uma vez em cada campeonato), período em que teve o aconselhamento de Bob Paisley, trazido de volta ao clube para dar apoio ao iniciante.

A situação causou alguma confusão. Os jogadores não sabiam como se referir a Dalglish, ao mesmo tempo colega de vestiário e comandante da equipe. No fim, concordaram que “chefe” era o bastante. O capitão Phil Neal recusou-se, chateado por ter sido preterido para o cargo de técnico, e antes do Natal sairia para ser jogador-treinador do Bolton. Os conselhos de Paisley também precisaram de certos ajustes. Houve uma certa colisão de grandes lendas quando o veterano descia aos vestiários, no intervalo das partidas, para dar palpites. Dalglish apreciava a experiência de Paisley, mas nos momentos certos – na segunda-feira, quando a comissão técnica se reunia em Melwood para fazer um balanço da partida do fim de semana. O escocês também queria fazer as coisas do jeito dele. Era um homem de confiança absoluta e personalidade forte.

Heysel aumentou o tamanho da tarefa de Dalglish. Os clubes ingleses foram expulsos de competições europeias por cinco anos, e todos culpavam o Liverpool, embora torcedores de outros times também tenham contribuído para a punição. Além do ressentimento do resto do país, o vestiário ainda estava abalado pelos acontecimentos de Bruxelas. Seu estilo de administração era onipresente: sabia tudo que estava acontecendo em todos os cantos de Melwood e Anfield. Da equipe de Fagan, mexeu apenas nas laterais e comandou uma campanha histórica em sua temporada de estreia como treinador. Pela primeira vez, o Liverpool conquistou a Dobradinha, com os títulos do Campeonato Inglês e da Copa da Inglaterra. E o troféu da liga ainda foi selado graças a um gol do próprio Dalglish contra o Chelsea. Graças à punição, ele não foi capaz de testar suas habilidades em campos europeus, mas foi muito bem no âmbito doméstico. Em seis temporadas, conquistou três vezes o título inglês e foi vice nas outras três edições. Ainda ganhou duas Copas da Inglaterra.

Sua renúncia foi um choque. Dois dias depois de um dérbi eletrizante contra o Everton pela FA Cup (4 a 4, com prorrogação), o Liverpool convocou uma entrevista coletiva para anunciar que Dalglish estava deixando o clube. Era fevereiro, no meio da temporada. O treinador culpou o estresse do trabalho e, posteriormente, em sua autobiografia lançada em 1997, esclareceu que Hillsborough desempenhou um papel determinante na sua decisão. “Eu não percebi no momento, mas Hillsborough foi o fator mais importante na minha decisão de deixar o Liverpool, em 1991”, disse. “Eu falava para mim mesmo: ‘Por que eu deveria sentir pressão? ‘. As pessoas sob pressão eram as que haviam perdido aqueles que amavam. Na verdade, eu queria deixar Anfield em 1990, um ano antes de renunciar. Nos 22 meses entre Hillsborough e minha renúncia, a corda foi esticando até finalmente estourar. Comecei a ter dúvidas sobre minha habilidade de tomar decisões. No passado, eu tomava a decisão, geralmente mais certa do que errada, e não pensava mais naquilo. Mas, naquele momento, eu agonizava com tudo”.

Dalglish diria depois que aceitaria retornar ao fim do verão europeu, após um período de férias na Flórida, mas o Liverpool já havia seguido em frente, com outro ex-jogador como técnico – e essa experiência não daria tão certo.

Graeme Souness (1991-1994) 
Souness (Foto: Getty Images)

A escolha por Graeme Souness fazia todo o sentido. Tanto que houve pouco tempo de deliberação. O novo treinador assumiu as rédeas em abril, menos de dois meses depois da saída de Dalglish. Era um ex-jogador identificado com o clube, capitão do título europeu de 1984, e notório pela sua liderança e inteligência. Como bônus, Souness já tinha uma boa experiência como treinador do Rangers, pelo qual havia conquistado três vezes o título escocês em cinco temporadas, encerrando um jejum de nove anos dos Teddy Bears. Com o apoio de Ronnie Moran e Roy Evans, dois membros da velha guarda da Boot Room, a expectativa era que conseguisse tocar o barco com o mesmo sucesso dos seus antecessores.

Mas o jogo havia mudado. Souness chegou às vésperas das transformações da Premier League e da Champions League, quando muito dinheiro começou a ser injetado no futebol. Encontrou um vestiário diferente de quando saiu. Enquanto na era Paisley o elenco praticamente se autogovernava, com os treinadores impondo alguns limites e líderes estabelecendo exemplos de comportamento, Souness precisou lidar com jogadores constantemente pressionando por salários maiores. Era uma época em que os vencimentos dos atletas começavam a se multiplicar e ninguém queria perder a oportunidade, principalmente os veteranos que começavam a discutir seus últimos contratos. “Eu não entendia por que alguém reclamaria por receber o que eu achava que era uma boa soma para jogar pelo Liverpool. Qualquer coisa que eu ofereceria, eles sempre queriam mais”, disse. O espírito coletivo de camaradagem e profissionalismo inspirado por Shankly não existia mais, e não contribuiu nada para a causa que a abordagem humana de Souness tenha sido autoritária e arrogante.

O elenco deixado por Dalglish estava envelhecido. Jogadores como Ian Rush, Ronnie Whelan, Peter Beardsley e Grobbelaar aproximavam-se ou superavam os 30 anos. Renovar era imperativo, mas Souness adotou uma abordagem agressiva no mercado, vendendo e contratando muitos jogadores. Movimentou cerca de € 30 milhões, bastante para a época. Segundo Steve Nicol, companheiro e jogador daquele elenco, a estratégia do escocês foi “trazer grandes nomes que imediatamente tornariam o time melhor”. Mas muitos deles não atingiram as expectativas. Alguns dispensados ainda tinham lenha para queimar, como Peter Beardsley, que foi vendido para ninguém menos do que o Everton, e ainda atuou em um bom nível por aproximadamente seis anos. E havia coisas que ele não podia ter previsto, como a lesão séria de John Barnes. Um problema no Tendão de Aquiles tirou o jogador mais talentoso do time de ação por boa parte da primeira temporada de Souness, e, mesmo recuperado, Barnes teve dificuldades para retomar a boa forma.

Souness também precisou passar por uma séria cirurgia no coração, em abril de 1992. Ronnie Moran assumiu interinamente e completou a temporada, conquistando o título da Copa da Inglaterra, o único do mandato do ex-capitão. Naquela época, Souness cometeu um erro crasso, segundo ele, o seu único arrependimento à frente do Liverpool: aceitou dar uma entrevista para o The Sun da cama do hospital, que acabou sendo publicada no dia do terceiro aniversário de Hillsborough – por ter veiculado uma série de mentiras sobre as ações dos torcedores dos Reds no desastre, o tablóide já era odiado e boicotado pela cidade. Em janeiro de 1994, depois de ser eliminado da FA Cup, em casa, pelo Bristol City, Souness pediu o boné: “Eu peguei o trabalho acreditando que poderia devolver o clube às glórias, mas essa tarefa se provou mais difícil do que eu antecipava. Os torcedores foram muito pacientes, mas eu sinto que a paciência deles está se esgotando”. O Liverpool ficou muito longe da antiga glória. Nos três anos de Souness, colecionou dois sextos lugares e um oitavo. O ponto positivo da sua passagem foi estabelecer no time principal jovens como Robbie Fowler, Steve McManaman e Jamie Redknapp, essenciais nos anos seguintes.

Roy Evans (1994-1998)
Evans, ao lado de Houllier (Foto: Getty Images)

Roy Evans estava acostumado a ter paciência. Foi contratado pelo Liverpool em 1965, mas estreou no time principal cinco anos depois. Atuou muito pouco, apenas 11 vezes. Quando substituiu Shankly, Paisley ofereceu uma posição na comissão técnica ao jogador, que ainda tinha 25 anos. Ele sabia que precisava decidir entre continuar sua carreira em outro lugar ou pendurar as botas para continuar fazendo parte daquele clube que amava. Treinou os reservas, auxiliou seus companheiros e, em 1994, 20 anos depois, ganhou a chance de ser o treinador principal, com a renúncia de Graeme Souness. Foi convidado à casa do presidente e aceitou o desafio em uma hora de conversa. Tudo resolvido em um único dia. Com tanto tempo de casa, sentiu-se preparado e com experiência para fazer um bom trabalho. Foi o último da linhagem da Boot Room, uma última tentativa do Liverpool de reviver as glórias do passado com os homens do passado.

Os problemas de comportamento acentuaram-se com Evans. Os jogadores popstars se proliferaram e, enquanto Souness era autoritário, ele era bonzinho demais, acusado de não impor a disciplina necessária. E tinha em mãos um grupo especial neste quesito. Robbie Fowler, Jamie Redknapp, Steve McManaman e outros foram chamados de Spice Boys, em contraste com as Spice Girls, pelo estilo de vida chamativo que ostentavam fora de campo. Dentro dele,  o time refletia essa indisciplina, oscilando puro brilhantismo e quedas bruscas de rendimento. Atacava muito bem, não defendia tão bem. Evans não foi mal. Conseguiu voltar ao topo da tabela, sempre entre o terceiro e o quarto lugar, e foi o treinador que mais próximo chegou de conquistar a Premier League pelo Liverpool até Brendan Rodgers, com uma briga de três cabeças com Newcastle e Manchester United em 1995/95.

Mas o título não veio. A única conquista foi a Copa da Liga e as campanhas europeias na Copa da Uefa foram péssimas, com eliminações na segunda rodada. Quando Evans retornou das férias para dar início à temporada 1998/99, descobriu que o Liverpool havia contratado o francês Gérard Houllier, não para a diretoria de futebol, mas para ser o co-treinador da equipe. Obviamente, não deu certo. Ninguém sabia quem estava no comando. Houve uma cisão de poder. “Em resumo, os jogadores não sabiam o que estava acontecendo. O clube nunca iria demitir Gérard assim que o contrataram, então eu levantei os braços e renunciei, de novo, pensando no melhor para o clube”, disse, em entrevista ao LFC History. Em novembro de 1998, a decisão de entregar as chaves para Houllier foi anunciada, encerrando os 35 anos de casa de Evans e a sequência de treinadores formados em casa pelo Liverpool.

REAL MADRID

José Villalonga (1954-57)
José Villalonga

No começo do seu reinado de 35 anos no Real Madrid, Santiago Bernabéu trocava de técnicos como se troca de camisa. Até Miguel Muñoz, o único que conseguiu emplacar três temporadas no comando dos blancos foi José Villalonga. Militar de profissão e formado em Educação Física, Villalonga chegou ao clube merengue em 1952, contratado por Juan Antonio Ipiña para ser preparador físico. Dois anos depois, promovido para técnico principal, deu início a uma dinastia. Conquistou o Campeonato Espanhol na sua primeira temporada e venceu a primeira edição da Copa dos Campeões no ano seguinte. Repetiu a glória europeia em 1956/57, mas não foi a única conquista daquela campanha. Acrescentou os títulos da liga e da Copa Latina, compondo um então inédito triplete para o Real Madrid.

Com tantos talentos à disposição, como Di Stéfano e Gento, sua principal missão era administrar o vestiário e deixá-los satisfeitos. Tinha a característica que tanto agrada ao clube espanhol, presente em diversos momentos gloriosos de sua história: um treinador de perfil modesto que permitisse aos jogadores brilharem. Um exemplo dessa modéstia veio na primeira rodada da Copa dos Campeões de 1956/57, o Real Madrid perdia por 3 a 0 para o Rapid Viena. O placar agregado era de 5 a 4 a favor dos austríacos. Segundo Di Stéfano, no intervalo, Santiago Bernabéu invadiu o vestiário e deixou Villalonga de lado para dar uma bronca homérica na equipe. Di Stéfano marcou o gol de empate no segundo tempo, e o Real conseguiu vencer o jogo desempate para manter a campanha europeia a todo vapor.

Mesmo bicampeão europeu, empecilhos para renovar o seu contrato fizeram com que Bernabéu o demitisse, em 1957. Foi substituído pelo argentino Luis Carniglia, que acrescentaria mais duas taças da Copa dos Campeões às prateleiras merengues. Villalonga seguiu carreira na seleção juvenil da Espanha e assumiu o Atlético de Madrid, pelo qual conquistou uma trinca de títulos (duas Copas do Generalíssimo e uma Recopa). Em seguida, assumiu a seleção espanhola principal e conquistou a Eurocopa de 1964, que seria o único título importante da Roja até a geração de Xavi e Iniesta.

Miguel Muñoz (1960-1974)
Miguel Muñoz

Quando a equipe de Villalonga conquistou a primeira edição da Copa dos Campeões, o homem que levantou a taça foi alguém que se tornaria um símbolo do que é ser madridista. Miguel Muñoz chegou como jogador, em 1948, enquanto o Real Madrid passava por um longo jejum sem títulos do Campeonato Espanhol. O meia acabou formando uma parceria famosa com Di Stéfano, e os blancos conquistaram a liga de 1953/54. O fim de 14 anos de seca. Foi de Muñoz o primeiro gol do Real na competição que marcaria a história do clube, aos 29 minutos do segundo tempo da primeira rodada contra o Servette, da Suíça. Tricampeão europeu e tetra espanhol, Muñoz pendurou as chuteiras em 1958 e integrou a comissão técnica. Passou a ser o treinador do Plus Ultra, o time B do Real Madrid.

O sucessor de Carniglia foi o paraguaio Fleitas Solich. Os resultados do ex-treinador do Flamengo não foram ruins, mas, em abril, na iminência de perder o título espanhol para o Barcelona, depois de uma derrota decisiva no clássico, Solich não aguentou a pressão e pediu demissão. Duas semanas depois, o Real Madrid encararia o Barça na semifinal da Copa dos Campeões e ainda não tinha um treinador. Muñoz foi alçado ao time principal e se classificou à decisão europeia com duas vitórias por 3 a 1 contra os rivais da Catalunha. No Hampden Park, goleou o Eintracht Frankfurt por 7 a 3 e garantiu o quinto título seguido do Real Madrid na competição. Foi o bastante para convencer Santiago Bernabéu.

Uma decisão brilhante do presidente. Muñoz ainda é o técnico mais longevo da história do Real Madrid, com 14 títulos em 14 anos de reinado. Nessa conta, estão inclusas cinco ligas consecutivas, entre 1960 e 1965. Foi dele também o trabalho de renovar a equipe que havia sido pentacampeã europeia. Um processo doloroso para o treinador porque isso significou afastar amigos e ex-companheiros, como Di Stéfano. Mas, com uma equipe jovem e fresca, Muñoz conseguiu recuperar a Copa dos Campeões com o título de 1966. O fim da linha para ele foi em 1974, quando uma série de resultados ruins, com a eliminação para o Ipswich Town na Copa da Uefa como destaque, fizeram com que os torcedores passassem a criticá-lo. Em janeiro, pediu demissão. O Real Madrid terminou aquele Campeonato Espanhol em oitavo lugar, mas, com Luis Molowny no comando do banco de reservas, goleou o Barcelona por 4 a 0 e conquistou a Copa do Generalíssimo.

Vicente Del Bosque (1999-2003) 
Vicente del Bosque (Foto: Getty Images)

John Toshack recebeu a segunda carta de demissão do Real Madrid, em novembro de 1999 – a primeira foi em 1990. O galês havia criticado publicamente o goleiro argentino Albano Bizarri, que vinha cometendo erros. O então presidente Lorenzo Sanz exigiu que ele se retratasse, e a resposta não foi exatamente a que ele esperava: “Haverá porcos voando sobre o Bernabéu antes de eu recuar nos meus comentários”.  Não pegou muito bem com o chefe, e Toshack foi mandado embora. A decisão foi colocar um dos auxiliares no comando da equipe temporariamente até o fim da temporada. Vicente Del Bosque, porém, seria treinador do Real Madrid pelos próximos quatro anos.

Del Bosque era um homem do Real Madrid como poucos. Chegou ao clube no final da década de sessenta e, depois de alguns anos nos reservas e sendo emprestado, subiu à equipe principal em 1973, bem no fim da passagem de Miguel Muñoz. Elegante meio-campista, ficaria 11 temporadas seguidas e conquistaria nove títulos: cinco ligas e quatro Copas do Rei. Quando se aposentou, integrou a comissão técnica, como treinador das equipes jovens. Foi duas vezes interino antes de substituir Toshack, em 1994, no lugar de Benito Floro, e em 1996, com a saída de Jorge Valdano.

Se a ideia era contratar um treinador mais experiente ao fim da temporada, Del Bosque tornou as coisas bem difíceis para a diretoria do Real Madrid. Embora não tenha conseguido uma recuperação digna de nota no Campeonato Espanhol, comandou a campanha rumo ao oitavo título europeu dos merengues, eliminando Manchester United e Bayern de Munique rumo à decisão com o Valencia. Foi o bastante para garantir sua permanência. Com um estilo de administração diplomático, era perfeito para gerenciar os egos e as estrelas que o Real Madrid já contratava para o time.

Del Bosque repetiu o feito na Champions League de 2001/02 e ainda conquistou duas edições do Campeonato Espanhol. Assim que conquistou a segunda, foi empurrado à porta de saída por Florentino Pérez. “O perfil de Del Bosque é tradicional. Estamos buscando alguém com mais ênfase na tática, estratégia e preparação física. Acreditamos que o time que estamos construindo será mais poderoso com um técnico com um caráter diferente”, explicou o mentor da política dos Galácticos. Del Bosque foi substituído por Carlos Queiroz, então auxiliar do Manchester United. E o Real Madrid só voltaria às semifinais da Champions oito anos depois, com José Mourinho.

Zinedine Zidane (2016 – )
Zidane: bicampeão europeu (Foto: Getty Images)

Zidane foi pouco a pouco aproximando-se do cargo de técnico do Real Madrid. Ex-jogador que dispensa comentários, virou diretor cinco anos depois de se aposentar. Tornou-se assistente com Carlo Ancelotti em 2013 e contribuiu para a conquista da décima taça da Champions League. Assumiu o Castilla, time B dos merengues, na temporada seguinte, entre rumores de que poderia comandar o Bordeaux, clube em que surgiu para o futebol. Em janeiro de 2016, com a demissão de Rafa Benítez, foi anunciado como treinador principal e terminou aquela temporada com o título europeu. Repetiu o feito no ano seguinte, acrescentando a conquista da liga espanhola ao seu currículo. Em Kiev, tenta se tornar o primeiro técnico da história a conquistar a competição três vezes seguidas, e apenas o segundo a ser tricampeão com o mesmo clube. O outro, curiosamente, é Bob Paisley.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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