Inglaterra

Atitude de Kepa fragiliza ainda mais a posição de Sarri e propõe uma questão ao Chelsea

Willy Caballero preparou-se para entrar em campo, no último minuto da prorrogação da final da Copa da Liga Inglesa. O titular Kepa Arrizabalaga estava aparentando cãibras, e o técnico Maurizio Sarri não queria um goleiro baleado nas disputas de pênaltis, além de o argentino ter um bom histórico nesse tipo de lance – na decisão de 2016, com a camisa do Manchester City, adversário do Chelsea neste domingo, defendeu três cobranças do Liverpool.

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O problema: Kepa não quis sair. Gesticulou efusivamente para tentar transmitir a mensagem que, fisicamente, estava bem. Chegou a conversar com David Luiz e ignorou as insistências de Sarri e Gianfranco Zola, seu assistente. O treinador ficou possesso. Atirou uma garrafa de água no banco e, lívido, dirigiu-se ao vestiário e depois voltou ao campo. Depois da partida, Antonio Rüdiger segurou o treinador que parecia prestes a tirar satisfações com seu jovem goleiro, tudo isso enquanto Caballero era filmado com aquela cara de quem sai para jantar com um casal de amigos e eles de repente começam a brigar.

Na disputa de pênaltis, Kepa até defendeu uma cobrança de Sané, mas conseguiu a proeza de frangar no chute de Agüero, mesmo depois de tentar desestabilizá-lo balançando-se sem parar em cima da linha. O chute foi defensável, mas passou pelos seus braços e entrou. A partir da marca do cal, o City ganhou por 4 a 3 e levantou o troféu. E o Chelsea tem que lidar com mais uma crise.

A cena insólita foi minimizada pelos personagens envolvidos depois da partida. Ambos, provavelmente não por coincidência, usaram a mesma expressão: não foi nada demais, apenas um mal-entendido. Sarri disse que ficou “realmente muito bravo”, mas que Kepa estava “correto”, embora da maneira errada. “Maneira errada pelo jeito como ele se comportou, mas, mentalmente, ele estava certo porque tinha condições de ir para os pênaltis. Ele estava certo pela sua motivação, mas não pela conduta”, disse.

Kepa, aparentemente confuso sobre o significado da palavra, explicou que nunca foi sua intenção desobedecer o chefe. Só não quis fazer o que ele estava mandando. “Eu sei que se você vir por fora, não é a melhor imagem. Eu conversei com o técnico. Eu estava apenas tentando dizer que estava bem. Ele pensou que eu não estava. Foram momentos tensos, com muita coisa acontecendo. Eu sei a imagem que passa, mas nunca foi minha intenção me recusar a sair”, afirmou.

Independentemente das intenções internas de Kepa, impossíveis de serem confirmadas, a cena foi um desafio à autoridade de Maurizio Sarri, envergonhado publicamente por um dos seus jogadores no pior momento da sua passagem pelo Chelsea, e indicação da fragilidade da sua posição em relação ao vestiário. Alguém consegue imaginar uma cena parecida com Guardiola? Klopp? Mesmo Mourinho e Conte, que também tiveram problemas de relacionamento no fim de suas passagens por Stamford Bridge?

Sarri foi contratado do Napoli para implementar um estilo de jogo diferente ao de seus antecessores. Missão difícil que exigia tempo e paciência, commodities difíceis de encontrar em Stamford Bridge. Depois de um bom começo de temporada, o Chelsea caiu de produção, com dificuldades para converter a posse de bola em chances de gol. A chegada de Higuaín, em janeiro, a pedido do italiano, ajudou. Mas derrotas pesadas por 6 a 0 para o City e 4 a 0 para o Bournemouth acabaram com o clima. No começo da semana, na derrota para o Manchester United, a torcida atacou especificamente as filosofias do treinador, cantando “Fuck Sarriball”.

As principais críticas dizem respeito à inflexibilidade de Sarri. Sempre com a mesma escalação, os mesmos desenhos táticos e as mesmas substituições, o Chelsea acaba sendo um time previsível. O que é irônico é que o italiano, enfim, adaptou suas convicções para enfrentar o City na final da Copa da Liga. Defendeu mais recuado, esticou mais bolas, correu poucos riscos e até teve chances de vencer. Foi uma boa partida dos Blues, que acaba ficando ofuscada pela polêmica com seu goleiro.

A atitude de Kepa, o goleiro mais caro do mundo, foi apenas uma evidência escancarada de rusgas entre elenco e treinador, que já foi à imprensa dizer que tem em mãos um time “difícil de motivar”. Além disso, há jogadores com idade avançada, rendimento abaixo da média e/ou que não são talhados para o Sarriball. É impossível executar uma revolução de estilo de jogo com os mesmos jogadores que há tantas temporadas atuam da mesma maneira. Se quiserem que Sarri cozinhe a refeição, o mínimo é permitir que ele compre os ingredientes.

O Chelsea tem que tomar uma decisão. Se de fato confia em Sarri, tem que lhe dar carta branca para reformular o elenco – o que pode nem ser possível, pois a Fifa acabou de impor um embargo de duas janelas de transferências por irregularidades na contratação de jogadores menores de idade; o clube acredita que, com as apelações, consegue arrastar o assunto pelo menos até o começo do próximo mercado. Ou conclui que a contratação do Italiano foi uma tentativa que não deu certo e começa outro projeto. De novo.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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