Atacante de 17 anos do Blackpool se assume homossexual e quer ser um exemplo para outros fazerem o mesmo
Jake Daniels é o primeiro jogador do Reino Unido a sair do armário desde os anos noventa e um dos poucos em atividade no mundo
“Tem sido um ano bem maluco”, disse Jake Daniels, atacante do Blackpool, da segunda divisão inglesa. “Tenho 17 anos. Acertei um contrato profissional, fiz 30 gols nesta temporada (nas categorias de base) e acabei de estrear no time principal na Championship, saindo do banco contra o Peterborough. E agora eu decidi sair do armário”.
Com uma entrevista exclusiva à Sky Sports e uma carta aberta no site do Blackpool, Daniels se tornou o primeiro jogador profissional do Reino Unido a se assumir homossexual desde Justin Fashanu nos anos noventa e é um dos poucos em atividade no mundo inteiro. O australiano Joshua Cavallo, do Adelaide United, havia feito o mesmo em outubro do ano passado.
“Esta temporada tem sido fantástica para mim em campo (…) Mas fora dele eu venho escondendo quem eu realmente sou. Soube minha vida inteira que sou gay e agora sinto que estou pronto para sair do armário e ser eu mesmo. É um passo rumo ao desconhecido, sendo um dos primeiros jogadores deste país a revelar minha sexualidade, mas me inspirei em Josh Cavallo, Matt Morton (de um time da nona divisão), e atletas de outros esportes, como Tom Daley (do nado sincronizado) para ter coragem e determinação de liderar mudanças. Eu odiei mentir minha vida toda e sentir que precisava mudar para me adequar. Eu quero ser eu mesmo um exemplo ao fazer isso”, escreveu no site do Blackpool.
Em um depoimento mais longo à Sky Sports, Daniels contou a sua história. Ele buscou conselhos da família, do agente, do clube e da entidade anti-homofobia Stonewall antes de tomar sua decisão. Soube que era gay quando tinha seis anos, mas “naquela idade você não pensa que futebol e ser gay não se misturam”. Você apenas pensa “que um dia, quando eu ficar mais velho, vou ter uma namorada e vou mudar e tudo ficará bem”. Mas ele acrescenta que não é assim que funciona.
“Eu tive namoradas no passado, para tentar fazer meus companheiros pensarem que eu era hétero, mas era apenas uma grande farsa. Na escola, as pessoas até me perguntavam: ‘tem certeza que você não é gay?’. E eu respondia que não. Não estava pronto, mas eu simplesmente não quero mais mentir. Durante muito tempo, achei que teria que esconder a verdade porque eu queria ser, e agora sou, um jogador de futebol profissional. Eu me perguntei se deveria esperar até me aposentar. Nenhum outro jogador profissional aqui (no Reino Unido) é assumido. No entanto, eu sabia que isso levaria a muito tempo de mentiras e a não poder ser eu mesmo ou levar a vida que quero”, contou.
Apesar de muitas campanhas do futebol no combate à homofobia, o assunto ainda é um tabu e a próxima Copa do Mundo será organizada em um país que criminaliza a homossexualidade. Segundo Daniels, muitos jogadores querem ser conhecidos pela sua masculinidade, e as pessoas veem ser gay como “ser fraco, algo pelo qual você pode ser provocado dentro de campo”. Ele gostaria que outros jogadores homossexuais também viessem a público, especialmente algum da Premier League.
“Estou torcendo que me assumindo eu possa ser um exemplo para ajudar outros a também sair do armário, se quiserem. Eu tenho apenas 17 anos, mas tenho claro que é isso que eu quero fazer e, se ao me assumir, outras pessoas olhem para mim e talvez sintam que também possam fazer isso, seria demais. Se eles acharem que esse garoto é corajoso o suficiente para isso, eu também consigo fazer. Eu odeio conhecer pessoas na mesma situação que eu estava. Se um jogador da Premier League sair do armário, seria incrível. Eu sentirei que fiz meu trabalho e inspirei alguém a fazer isso. Eu quero que continue daqui. Não deveríamos estar na posição em que estamos agora”, afirmou.
A Associação dos Jogadores Profissionais afirmou que está “extremamente orgulhosa” da decisão de Daniels e que também estava trabalhando com ele e com o clube em torno dessa decisão. A Premier League disse que apoia Daniels e acredita que o “futebol é para todos”. O Blackpool acrescentou que é “vital que todos nós promovamos um ambiente onde pessoas se sentem confortáveis para serem elas mesmas, e que o futebol lidere a remoção de qualquer forma de discriminação e preconceito”.



