Abramovich se afasta da gestão do Chelsea, mas segue como dono e gera mudança mais simbólica que prática
Abramovich já estava afastado do dia a dia do clube e ele continuará como dono, mas dá poder a gestão da fundação do clube para ditar os rumos futuros
O dono do Chelsea, Roman Abramovich, entregou a administração do Chelsea à fundação do clube, após a invasão da Rússia na Ucrânia. A mudança é mais simbólica do que prática e funciona mais como uma ação de relações públicas diante das críticas à Rússia e a todos ligados ao país, em um momento que o bilionário é questionado se é alguém que poderia ser dono de clube no país.
O afastamento de Abramovich significa formalizar que ele não terá participação no dia a dia do clube, o que já não acontecia, e também que não será ele que irá gerir estrategicamente o clube em direção ao futuro. Não significa, porém, que ele deixa de ser dono. Aliás, Abramovich não tem qualquer intenção de vender o Chelsea. A ideia é apenas tirá-lo da frente do clube, deixar formalmente a gestão na mão de outros que poderão planejar o futuro. Ele segue como dono, apenas distante – mas ainda com influência, evidentemente.
Abramovich raramente se pronuncia e suas aparições tem sido raras, justamente por não ter autorização de viver no Reino Unido. Por isso, o comunicado divulgado na noite de sábado no site do Chelsea com palavras do dono é uma raridade.
“Durante meus quase 20 anos como dono do Chelsea FC, sempre olhei meu papel como um guardião do clube, cujo trabalho é garantir que sejamos tão bem-sucedidos quanto podemos ser hoje, assim como construir o futuro, ao mesmo tempo que desempenhamos um papel positivo em nossas comunidades”, diz a nota.
“Sempre tomei decisões com o melhor interesse do clube no coração. Me mantenho comprometido a esses valores. É por isso que hoje estou dando aos curadores da fundação de caridade do Chelsea a administração e os cuidados do Chelsea FC. Acredito que eles estão na melhor posição para cuidar dos interesses do clube, jogadores, funcionários e torcedores”.
Isso significa que Abramovich não estará ais envolvido no dia a dia do clube e que o poder de decisão estratégica de longo prazo do clube será entregue à Chelsea Foundation, a fundação de caridade do clube. Os curadores da Chelsea Foundation são Bruce Buck (presidente do Chelsea), John Devine (advogado esportivo), Emma Hayes (técnica do time feminino), Piara Powar (executiva do Football Against Racism in Europe), Paul Ramos (diretor financeiro do Chelsea) e Hugh Robertson (vice-presidente da Associação Olímpica Britânica).
Em termos de futebol, quem tem o poder em mãos há anos é a diretora executiva Marina Granovskaia, que é auxiliada pelo assessor técnico Petr Cech, ex-goleiro do clube, e que trabalham diretamente com o técnico Thomas Tuchel. Ou seja, em termos de operação no futebol, não muda nada.
Há dúvidas se Abramovich poderá continuar investindo no clube. Teoricamente, não há qualquer impedimento nesse sentido, mas isso pode mudar se houver sanções contra ele no Reino Unido. Porém, na prática, mesmo isso mudaria pouco o dia a dia do clube, porque o clube tem lucro desde 2012. Ainda que o suporte financeiro de Abramovich d6e segurança, a operação do clube é lucrativa e isso não deve ser problema para que continue operando normalmente.
Pressão contra Abramovich no parlamento britânico
Há pressão na Casa dos Comuns, parte do Parlamento Britânico, para que alguém como Roman Abramovich não possa ser dono de clube no Reino Unido. Mais do que isso: há pedidos até de confisco do Chelsea das mãos de Roman Abramovich. O deputado Chris Bryant diz ter em sua posse um documento vazado do Home Office (parte do governo britânico) que diz que o bilionário russo era investigado por “ligações com o estado russo e sua associação pública com atividades e práticas corruptas”.
Abramovich desistiu de tentar um visto permanente de moradia no Reino Unido em 2018, após a crise dos espiões do seu país de origem com os britânicos. Ele tinha passaporte israelense e conseguiu recentemente um passaporte português. A crise atual no Leste Europeu, com a Rússia invadindo a Ucrânia, fez com que a pressão sobre Abramovich aumentasse. Bryant questionou se alguém com esse tipo de violação poderia ter permissão para dirigir um clube de futebol.
Com o seu afastamento, é possível que a fervura diminua e o clube possa operar com mais tranquilidade. O próprio técnico Thomas Tuchel afirmou, em coletiva, que entendia as críticas feitas ao clube neste momento de crise da Rússia com a Ucrânia e que era impossível se dissociar disso. Assim, com Abramovich distante, o clube pode ter um pouco mais de paz, ainda que ele continue sendo o dono.
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Abramovich: mais de £ 1 bilhão gasto no clube
Abramovich comprou o Chelsea em 2003 de Ken Bates e pagou £ 140 milhões. Nesses 19 anos à frente do clube, ele gastou mais de £ 1 bilhão e transformou os Blues de um clube que lutava eventualmente por vaga na Champions League para uma potência primeiro nacional e depois europeia. Foram 19 títulos, sendo cinco Premier League, cinco Copas da Inglaterra, três Copas da Liga, duas Champions League, duas Ligas Europa, um Mundial de Clubes e uma Supercopa da Uefa.
Mais do que gastar em reforços, Abramovich transformou o clube em termos administrativos também. Melhorou diversas áreas, desde infraestrutura, que transformou o Chelsea em um dos maiores formadores de talentos da Inglaterra, até setores administrativos, como a área comercial, uma das responsáveis por tornar o clube lucrativo ao longo desses últimos 10 anos.
Com esses quase 20 anos à frente do clube, ele é um dos poucos casos que dá para apontar que fez bem ao clube. Foi mais do que um bilionário que brincou de Football Manager: ele transformou o clube para além das contratações estelares dos primeiros anos para ser um clube estruturado e capaz de competir com as principais potências do país e da Europa.
O fato de ter operação lucrativa é um bom sinal de gestão do clube, que se beneficiou de não ter o Fair Play Financeiro nos seus primeiros anos como dono, o que o permitiu gastar dinheiro sem ter que prestar muitas contas em relação à isso às entidades gestoras. Premier League e a Uefa só mais tarde desenvolveriam um sistema de controle de gastos para evitar a quebradeira de clubes, como aconteceu com Rangers na Escócia e Portsmouth na própria Inglaterra, além do Leeds, que caiu e voltou depois de uma crise financeira no começo dos anos 2000.



