Inglaterra

A lei do mais forte impera na Premier League e, nos últimos 20 anos, cristalizou a elite

* Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Pela quarta vez nos últimos 11 anos, o Chelsea conquistou a Premier League. Uma temporada na qual poucos estiveram próximos de ameaçar a força do time de José Mourinho. Aliás, os mesmos de sempre. Nas últimas duas décadas do futebol da terra da Rainha não têm deixado muito espaço para surpresas: desde a temporada 1995/96, apenas quatro times levantaram o caneco: o próprio Chelsea, Arsenal, Manchester United e Manchester City, justamente os quatro primeiros colocados da atual temporada. Além desses, só o Liverpool pareceu ter forças para ameaçar os Blues em algum momento, mas antes de a bola começar a rolar e o castelo de areia montado por Brendan Rodgers após a venda de Luis Suárez desabar.

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Ao longo do século XX, o futebol inglês foi marcado pelo equilíbrio de forças entre um grande número de clubes na disputa pelo título. Papões de certas épocas passaram a times “ioiô” em outras. Potências surgiram das divisões inferiores e se consolidaram, ou não. Sempre foi difícil inclusive determinar quem era grande e quem não era, até mesmo em virtude da grande fragmentação provocada pela força local de seus clubes – não havia um clube de abrangência nacional, como Real Madrid e Barcelona são na Espanha, por exemplo. Por isso, o domínio destes quatro clubes (embora o Liverpool tenha voltado a conquistar até a Liga dos Campeões neste período, está há um quarto de século na fila no Inglês) em um cenário recente de cristalização da briga pelo título em torno de um mesmo grupo pequeno de clubes e – parodiando a teoria da seleção natural de Charles Darwin – sobrevivência do mais rico, é significativo. Principalmente quando comparado a períodos anteriores.

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Se retrocedermos mais vinte anos no tempo, entre as temporadas 1975/76 e 1994/95, a lista de campeões dobra de número: Liverpool, Nottingham Forest, Aston Villa, Everton, Arsenal, Leeds, Manchester United e Blackburn enriqueceram sua galeria com troféus da liga. Se puxarmos um pouco mais para o passado, nas vinte temporadas anteriores (entre 1955/56 e 1974/75), os campeões quase triplicam em relação ao período atual: Manchester United, Wolverhampton, Burnley, Tottenham, Ipswich, Everton, Liverpool, Manchester City, Leeds, Arsenal e Derby County. Não percam a conta, são 11 ao todo, em 20 edições do torneio. Por toda a década de 1960 e metade da de 1970, a Inglaterra ficou sem ver sequer um bicampeão.

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Mesmo se levarmos em conta a hegemonia do Liverpool no período entre 1973 e 1990, só igualada na história pelo Manchester United no período pós-Premier League, há um dado interessante a ser observado: os 11 títulos conquistados pelos Reds em 18 temporadas tiveram dez vice-campeões diferentes (Arsenal em 1973, Queens Park Rangers em 1976, Manchester City em 1977, Nottingham Forest em 1979, Ipswich em 1982, Watford em 1983, Southampton em 1984, Everton em 1986, Aston Villa em 1990 e Manchester United, o único “bivice”, em 1980 e 1988). De 1995/96 para cá, a lista de vices é formada por apenas seis clubes: os quatro campeões, mais Newcastle e Liverpool.

Outro feito um tanto improvável para o futebol inglês de hoje aconteceu nos títulos de Ipswich em 1962 e Nottingham Forest em 1978 (além dos vice-campeonatos do Leeds e do Watford em 1965 e 1983, respectivamente). Em todos estes casos, os times vieram direto da segunda divisão. O primeiro cederia ao English Team o técnico Alf Ramsey, campeão do mundo dali a quatro anos. O segundo partiria do título nacional para um bicampeonato continental. O terceiro acumularia títulos da liga, da Copa da Inglaterra e de copas europeias pelos próximos dez anos. E o quarto, presidido por Elton John, revelaria nomes como o ponta-esquerda John Barnes e o centroavante Luther Blissett, vendido ao Milan logo depois. No período atual, o caso mais próximo disso é o do Manchester City, que retornou à elite em 2002 e precisou de quase dez anos e muitos milhões de euros para voltar a brigar pelas primeiras posições.

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A concentração dramaticamente progressiva das primeiras posições em torno dos mesmos times na Premier League é notável quando também comparada ao Campeonato Espanhol, por exemplo. No Brasil, é recorrente encontrarmos referências à desigualdade na divisão das cotas de televisão que privilegiariam Real Madrid e Barcelona, apelidada por aqui de “espanholização”. Mas ainda assim, o número de clubes campeões de La Liga nas últimas vinte temporadas foi maior do que na Inglaterra: cinco (Atlético de Madrid, Valencia e Deportivo La Coruña fazem companhia aos já citados Real e Barça nesta lista).

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E mais: na Espanha a quantidade de campeões diferentes não se alterou em relação aos períodos anteriores analisados, apenas a ciranda de clubes é que girou. Entre 1976 e 1995, Real Sociedad e Athletic Bilbao substituem Valencia e Deportivo La Coruña na relação. E entre 1956 e 1975, figuram os dois madrilenhos, Barcelona, Valencia e Athletic Bilbao, indicando que a tendência histórica, o padrão na liga espanhola é mesmo o domínio de merengues e azulgranas, com três outros clubes correndo por fora e beliscando a taça vez por outra. Quase o mesmo acontece em relação aos vice-campeões: oito clubes diferentes terminaram nas segundas colocações entre 1956 e 1975 e sete nos dois períodos posteriores, redução bem menos drástica do que no Inglês (veja o quadro abaixo).

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A criação da Premier League em 1992 e o influxo financeiro provocado pelos novos contratos comerciais e de televisão gerados por ela, no entanto, não explicam sozinhos esse novo contexto futebolístico do país, já que em seus primeiros anos não houve mudanças expressivas em relação ao nível de competição. Ao longo destes 20 anos, outros fatores contribuíram para este afunilamento, como o advento da Lei de Bosman, a possibilidade de expansão mundial das marcas, a chegada de grandes aportes financeiros vindos de “mecenas” de outras partes do mundo e até a própria gestão de elenco. Os clubes que dominam hoje o futebol inglês se valeram de receituários distintos para chegar ao sucesso e à hegemonia atual. Alguns casos são bastante ilustrativos.

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Num primeiro momento, quem mais se aproveitou da abertura do mercado foi o Chelsea, que começou a rascunhar um ambicioso plano de reposicionamento do clube no cenário nacional e continental. Na temporada 1995-96, a última antes da Lei, os Blues tinham no elenco apenas quatro jogadores de nacionalidade não-britânica. Terminaram na 11ª posição – pela terceira vez em quatro anos. Dois anos depois, quando o clube ficou em quarto lugar na Premiership e levou a Copa da Liga e a Recopa Europeia (depois de faturar a Copa da Inglaterra no ano anterior), já eram nada menos que treze não-britânicos.

Aos poucos, o clube substituía seus britânicos de segunda linha por europeus de primeira linha. Jogadores das seleções da Itália, França e Holanda, entre outras forças, passaram a aportar em Stamford Bridge, e o Chelsea subiu de patamar: de um clube de meio de tabela, com eventuais flertes com a zona da degola (que em algumas temporadas do período anterior terminaram em rebaixamento), para uma equipe que nunca terminava abaixo da sexta colocação. Em 1999, veio a primeira classificação à Liga dos Campeões, na qual os Blues parariam nas quartas de final, eliminados na prorrogação pelo Barcelona. Em dezembro do mesmo ano, numa partida fora de casa contra o Southampton, o clube seria o primeiro na história do futebol inglês a escalar um time titular composto inteiramente por estrangeiros.

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Mas faltava o pulo do gato: brigar pelos títulos maiores no país e no continente. Numa grande conjunção de situações favoráveis, ao final da temporada 2002/03, o clube conseguiu novamente a classificação à Liga dos Campeões, depois de três anos batendo na trave, e, logo em seguida, foi vendido ao magnata russo Roman Abramovich, que não hesitou em fazer jorrar dinheiro nos cofres dos Blues. O primeiro degrau foi o vice-campeonato inglês logo em 2003/04 (melhor posição do clube até então desde o único título em 1955). O segundo foi o título, na temporada seguinte, pondo fim ao jejum. O terceiro demorou um pouco mais, mas compensou: a conquista da Liga dos Campeões, em 2012.

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O caso do Manchester United é bastante diferente do Chelsea, ainda que ambos passem pela bem-sucedida internacionalização da marca. Os Red Devils já estavam em alta nos primeiros anos da Premier League e tinham uma base forte, além de serem bastante prolíficos nas categorias de base. Como resultado, acumularam títulos ingleses e reconquistaram a Liga dos Campeões em 1999 com um time majoritariamente britânico, complementado por bons e pontuais reforços “continentais”. Assim, bem encaminhado, pôde se manter por cima até mesmo depois do veto do Governo britânico à compra do clube pelo empresário das comunicações Rupert Murdoch, em abril daquele ano. Só mesmo na virada para os anos 2000 é que o clube passou a se valer cada vez mais de jogadores de fora das ilhas, que ajudaram a manter o United como força perene.

O Arsenal apostou, em um primeiro momento, mais em continentais que o United, especialmente os franceses conterrâneos de Wenger. Mas não descartou quase totalmente sua base britânica, como fez o Chelsea, até por se tratarem de jogadores de alguns níveis acima em qualidade (Seaman, Adams, Keown, Ian Wright, todos de seleção inglesa). Entre 1998 e 2005, terminou campeão ou vice em todos os anos e parecia ter se consolidado como o principal perseguidor do time de Alex Ferguson. Mas perdeu o rumo das taças na metade da década (mesmo com a lucrativa transferência para a nova e moderna casa no Emirates Stadium), deixou-se ultrapassar pelo Chelsea e atravessa um jejum na liga que já dura 11 anos. Também sofreu com problemas de gestão de elenco, ao apostar em excesso em jogadores jovens e perder alguns de seus principais astros. Mas ainda se mantém sempre em posições de classificação para a Liga dos Campeões e deve voltar ao vice nesta temporada.

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Por fim, o Manchester City teve ascensão recente, mas algo semelhante ao Chelsea. Depois de cair para a terceira divisão no fim dos anos 1990, voltou à elite em 2002 e fez campanhas discretas por quase dez anos. Comprado pelo empresário e ex-primeiro-ministro tailandês Thaksin Shinawatra em junho de 2007, o clube foi revendido em setembro de 2008 aos investidores do Abi Dhabi United Group. Com dinheiro em profusão, saiu recrutando jogadores de primeira linha do mundo inteiro e, em pouco menos de quatro anos, já era campeão.

Time promissor no início deste período, o Newcastle contava com uma forte base britânica que quase o levou ao título em 1996. Na temporada seguinte, bateu o recorde mundial de transferências ao tirar Alan Shearer do Blackburn por 15 milhões de libras. Mas, ao contrário dos demais, não conseguiu reverter o investimento em bons resultados e sucumbiu a outro fator: a má gestão do elenco, o qual os Magpies não souberam qualificar. Em 1997, enquanto o Chelsea dispunha em seu elenco de italianos do quilate de Gianluca Vialli e Gianfranco Zola, o time do norte da Inglaterra se contentava com o defensor Alessandro Pistone. Com menos potencial atrativo dos londrinos, o clube complementou ou substituiu sua base britânica por estrangeiros de qualidade duvidosa e fez quatro temporadas muito ruins. Ensaiou uma recuperação em meados dos anos 2000, mas depois chegou até a ser rebaixado em 2009 e perdeu de vez seu lugar de destaque. De certa maneira, problemas de gestão que atrapalharam também Blackburn e Leeds, forças dos anos 1990 que encolheram drasticamente nos últimos anos.

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Hegemônico da metade dos anos 70 até o fim dos anos 80, Liverpool parece não conseguir recuperar a força perdida nos primeiros anos da Premier League. No atual período, os Reds só chegaram a brigar de fato pelo título até o fim em 2009 e 2014 (em 2002 terminou com o vice-campeonato muito mais por tropeços do Manchester United no fim do que por méritos próprios). O clube chegou a amargar quatro temporadas seguidas fora do Top 5 (foi sexto em 2011, sétimo em 2010 e 2013 e oitavo em 2012), algo inaceitável para o clube que pretende sair da fila em que se encontra desde 1990. Dois problemas ajudam a manter esta prolongada maré baixa em Anfield na Premier League: as apostas equivocadas feitas em jogadores, em tese, de ponta, mas que não renderam o esperado (o italiano Mario Balotelli é o caso mais recente) e a grave crise financeira enfrentada em 2010, quando quase faliu e os investidores norte-americanos George Gillet e Tom Hicks foram obrigados a vender o clube.

A surpreendente campanha na temporada 2013/14, quando esteve praticamente com a taça nas mãos, poderia ter significado o começo de uma nova era no clube, mas o escorregão do capitão Steve Gerrard pode custar caro ainda por alguns anos. De qualquer forma, os Reds possuem uma marca global bastante forte, que permite sonhar com o “grupo dos quatro campeões” nas próximas temporadas, por mais que o altíssimo investimento da atual temporada só tenha sido possível pela venda de Luis Suárez – e, todos viram, o resultado esteve muito longe do esperado. Só que o Liverpool está longe de ser exemplo a outros que queiram ascender. O que, neste momento, só parece possível mesmo às dezenas de “médios e pequenos” com a chegada de algum magnata.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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