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Oranje por um fio

“Eu peço desculpas ao povo. Espero que eles continuem com a gente.” Seria meio absurdo ouvir isso de um jogador que, sem dúvida, é aquele de quem uma nação mais espera. Ainda mais quando esta nação ainda tem uma chance relativa de se classificar para as quartas de final da Eurocopa – e chance não tão pequena como se pensa.

Mas não é absurdo. Porque o jogador em questão se chama Wesley Sneijder. E a seleção que deve desculpas à população do país é a Holanda. O camisa 10 deu a declaração à emissora de TV NOS, tão logo saiu do gramado, após a derrota por 2 a 1 para a Alemanha. E refletiu perfeitamente a razão pela qual a classificação da Oranje à próxima fase é pouquíssimo provável: o clima atual do elenco.

Geralmente, mostras públicas de insatisfação são um grande indício de relacionamentos se deterioriando dentro de um grupo. E esses furos no barco holandês se avolumaram, entre a derrota para a Dinamarca e a partida contra a Alemanha. Principalmente com Rafael van der Vaart, que protestou por somente ser usado no segundo tempo das partidas: “Devo dizer que está cada vez mais difícil para mim. Fico melhor a cada dia, mas estou muito triste com minha situação.”

Outro exemplo claro é Huntelaar: a cada gol que Van Persie perde (não foram tantos assim, contra a Alemanha – e mesmo naquele perdido no início do jogo, ele fez a melhor opção: se dominasse, permitiria a chegada da zaga), as imagens focalizam o camisa 9, no banco, com ar de enfado. O curioso é que tais demonstrações de raiva são apenas pela perda de posições. Não há registro de briga direta entre Van der Vaart e Van Bommel, concorrente direto. Ou entre Kuyt e Afellay, outra mudança discutida.

O que houve foram respostas atravessadas de Sneijder, em relação aos “egos” que começavam a se manifestar (para ele, “egos patéticos, contra os quais me manifestarei, se criarem distúrbios no elenco”). Nada mais. Só que também era uma exibição de como há certo cansaço no elenco holandês. Como se chegassem à segunda rodada do grupo B já irritados pela surpresa desagradabilíssima contra a Dinamarca, enjoados de não provarem o favoritismo.

E o cansaço psicológico provou ser também físico, contra a Alemanha. Começou no meio-campo: se novamente foram tranquilos, no comportamento, Van Bommel e De Jong ficaram para trás no duelo contra Khedira e, principalmente, Schweinsteiger. Os 35 anos pesaram demais para Van Bommel, que não passou do intervalo – e também não se mostrou contente ao dar lugar a Van der Vaart.

Com as falhas do meio-campo, tudo estourou na defesa. Que, se só fora frágil pela direita contra a Dinamarca, revelou a razão pela qual era causa de tantos temores contra os alemães. Pela esquerda, Willems pareceu o que se esperava dele antes da Euro: um rapaz amedrontado de 18 anos, tomando um baile de Thomas Müller. No meio, Heitinga e Mathijsen, também lentos, deram espaço de sobra para Mario Gómez pintar e bordar.

E mesmo as alterações que fizeram a Oranje melhorar sensivelmente no segundo tempo, resultando no gol de Van Persie, mostraram um time que crescia mais na base do “abafa” do que em algo que realmente causasse perigo à meta de Manuel Neuer. Chegar à última rodada com chances de classificação é até um feito – que, repita-se, nem é impossível. A Holanda vencer Portugal por, vá lá, 2 a 0, e a Alemanha ganhar da Dinamarca são resultados plausíveis.

No entanto, o cansaço físico e mental que este time demonstra em campo revela que o feito é pouco provável. Sim, houve outras situações de classificação às fases seguintes de um torneio conseguidas no desespero: a Euro 1996 (Oranje passou às quartas por ter dois gols a mais do que a Escócia), a Copa de 1978 (avanço à segunda fase veio por sofrer menos gols do que, de novo, a Escócia), a Euro 2004 (time precisava vencer a Letônia e torcer para que Alemanha não superasse a República Tcheca)…

No entanto, agora, o abalo psicológico parece demasiado grande para se imaginar uma surpresa. O time de Van Marwijk não apresenta apatia. Mas está cansado, fatigado, com a cabeça esgotada. Até há esperança. Mas ela está por um fio.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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