Holanda

Federação Holandesa deixa claro: quer mudanças profundas no futebol do país

Na semana passada, a coluna comentou sobre a polêmica colocada no futebol holandês, com relação a dois assuntos: o uso ou não de grama sintética nos estádios dos clubes do Campeonato Holandês, mais a possibilidade de aumento do uso da eletrônica no auxílio às decisões do árbitro dentro de campo. Era um tema de certa importância nos destinos do esporte dentro da Holanda, mas havia outro acontecimento que poderia ter sido o principal, diga-se de passagem.

ASTRO: Para Robben, não há nenhum técnico no mundo melhor que Guardiola
BAYERN: Guardiola está fazendo o Bayern de Munique ser ainda mais imprevisível
SELEÇÃO: Com grande atuação e golaços de Robben, Holanda goleou e amenizou a crise

Corta para quinta-feira, dia 27 de novembro, no De Kuip, em Roterdã. Surpreendentemente, o Feyenoord vencera o Sevilla, por 2 a 0, e garantira a classificação à segunda fase da Liga Europa. E não foi só o fato de ter superado o atual campeão do torneio que causou surpresa: foi o modo como o Stadionclub jogou contra os Rojiblancos. Aguerrido, empolgado, eletrizado pelo apoio da torcida – e, claro, valendo-se das boas atuações de gente como Jordy Clasie e Jean-Paul Boëtius (até porque Kazim-Richards, o principal atacante do time, novamente não ajudou).

O retorno a uma segunda fase de competições europeias, dez anos depois de ter ido à segunda fase da Copa Uefa 2004/05, motivou o time de Roterdã, em uma vitória já tão lembrada quanto os 2 a 0 sobre a Juventus, em 26 de novembro de 1997, pela Liga dos Campeões 1997/98 (na qual a Juve seria vice-campeã, diga-se de passagem). Mais do que isso: com a confirmação da classificação do PSV à segunda fase, após o empate em 3 a 3 contra o Estoril-POR, motivou o futebol holandês, que viveu um dia otimista.

Serviu para massagear o ego, já que os coeficientes da Uefa mostram uma dura realidade: a Holanda corre sério risco de ser ultrapassada pela Bélgica, perdendo a única vaga direta a que tem direito na Liga dos Campeões, a partir de 2016/17. E serviu, então, para que a segunda-feira trouxesse um anúncio: a federação holandesa fará um congresso, no próximo dia 15, no Galgenwaard, estádio do Utrecht, para debater o futuro de seu futebol.

São esperados no evento, para mesas de discussão, diretores técnicos, diretores das categorias de base, treinadores e diretores gerais de todos os clubes profissionais da Holanda, mais nomes de influência clara no futebol do país. O que resulta, claro, numa lista de nomes estelares: Frank de Boer, Clarence Seedorf, Co Adriaanse, Leo Beenhakker, Jaap Stam, Giovanni van Bronckhorst, Dennis Bergkamp, Guus Hiddink e… Johan Cruyff, após certo mistério.

O diretor de futebol profissional da KNVB, a federação holandesa de futebol, Bert van Oostveen, exultou: “Será a primeira vez que tantos ‘experts’ em futebol, de todos os clubes, estarão juntos para pensarem sobre o futuro em comum”. Pensarem e debaterem, diga-se de passagem, porque Cruyff (novidade…) já anunciou, por meio de sua coluna semanal no diário “De Telegraaf”, sobre o que falará: a necessidade dos clubes e jogadores holandeses terem mais preparação mental.

Ali, JC comentou sobre a timidez mostrada pelo Ajax contra o Paris Saint-Germain, na quinta rodada da Liga dos Campeões – e também no 1 a 1 contra o ADO Den Haag, pela 14ª rodada do Campeonato Holandês, domingo passado: “Senti falta de um desejo de matar o jogo. Não vi isso nem contra o PSG, nem contra o ADO Den Haag”.

E “Jopie” foi além, criticando a falta de inteligência do PSV na Liga Europa, a partir de algo visto no jogo contra o Estoril. O empate contra a equipe portuguesa (num jogo iniciado na quinta, interrompido no intervalo por fortes chuvas na cidade de Estoril, e com os 45 minutos finais jogados só na sexta passada) teve uma jornada terrível da defesa dos Eindhovenaren, sofrendo com a bola aérea dos estorilistas. Exatamente aí residiu a crítica de Cruyff: se o time luso tinha jogadas de bola parada como uma qualidade, por que ceder 11 escanteios a eles? E todas as críticas, enfim, foram sintetizadas na repetição de uma frase já dita por ele: “Você joga futebol com a cabeça e corre com os pés”.

No entanto, o congresso foi apenas uma das medidas anunciadas pela federação holandesa. A outra iniciativa importante veio na terça-feira, solucionando um grande problema: a pouca interação entre clubes profissionais e amadores. Afinal, profissionais só estão em primeira e segunda divisão. Na Topklasse, a terceira divisão (só com a presença de amadores), o campeão – saído da decisão entre as duas conferências, do sábado e do domingo – podia optar por exercer ou não o direito de acesso à Eerste Divisie, a segunda divisão. Se não houvesse promoção, não haveria descenso. Caso único na Europa.

Mas o que era opção agora virou obrigação, com a criação da Landelijke Divisie (em holandês, “divisão nacional”), a ser jogada a partir da temporada 2016/17. Colocada entre a Topklasse e a Eerste Divisie – ou seja, virando uma terceira divisão dentro da “pirâmide” -, ela se pretende como uma “divisão de contato” entre profissionais e amadores. E aproveitará a seara aberta pelas equipes de aspirantes de Ajax, PSV e Twente na segunda divisão: a Landelijke Divisie terá quatro times profissionais – os clubes que desejarem poderão se inscrever até 1º de março – e 14 amadores. E o vencedor, seja quem for, terá o acesso obrigatório à segunda divisão.

Após a decisão ser aprovada pelos clubes amadores (e pelos profissionais, em que pese a oposição de clubes como o Feyenoord), em reunião da KNVB, o presidente Michael van Praag celebrou: “Foi a consequência de uma ideia de anos. Finalmente, todos tiveram olhos para o interesse total do futebol holandês. Nossos filhos e netos irão aproveitar, porque a situação só melhorará daqui pra frente”.

Embora não haja unanimidade – mesmo alguns clubes amadores têm reservas, temerosos dos gastos que o profissionalismo lhes traria -, todas essas iniciativas têm, no fundo, esse objetivo: fazer com que o futebol holandês melhore internamente. E deixe de se contentar apenas com uma ou outra boa campanha da seleção num torneio.

Mostrar mais

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo