Experimentações nas regras causam discussão no Holandês
Sabe-se que a Holanda tem um clima pouco recomendável para o desenvolvimento saudável dos gramados em estádios de futebol. Inverno bem rigoroso, com chuva, frio e até neve; verão com temperaturas até amenas, mas clima bastante abafado. Sem contar o caso da Amsterdam Arena, inaugurada em 1996: o teto retrátil do estádio do Ajax até se abria para o sol e a chuva, mas a falta de vento tornava o crescimento da grama irregular (ela chegava a ser trocada por cinco vezes em um ano). Isso só foi solucionado com a instalação de um sistema artificial, com ventiladores gigantes ajudando o sistema de água que rega o gramado.
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Mas o Ajax é um caso diferente, tem mais dinheiro para investir em manutenção de seu estádio. O problema fica mais grave quando os clubes pequenos da Holanda precisam cuidar dos efeitos naturais sobre suas “casas” – afinal de contas, o dinheiro não lhes sobra para tal luxo. Decidiram, então, apelar para uma alternativa que já começa a ser usada, ainda que parcialmente, em vários estádios mundo afora: a grama sintética. Então, em 2005, o Heracles foi o primeiro clube holandês a ter um estádio com relvado completamente artificial.
Quase dez anos depois, o assunto virou um grande ponto de discussão no futebol holandês. E talvez seja apenas o ponto de partida nas mudanças estruturais por que o esporte deve passar no país. A discordância começou há pouco mais de uma semana. Precisamente em 19 de novembro, quando o diretor esportivo do Feyenoord, Martin van Geel, abriu o jogo: “Nós notamos que há bem mais desvantagens para jogar futebol na grama sintética. Seria ótimo se a Eredivisie escolhesse pela proibição”. A alternativa? Que os clubes menores se unissem e bancassem os próprios gramados coletivamente. Em dois anos, os clubes grandes (claro, Ajax, Feyenoord e PSV) também se disporiam a pagar uma “cota de solidariedade” para ajudar na implantação de grama natural.
Bastou para a discussão começar. Obviamente, alguns clubes pequenos discutiram acidamente a proposta de Van Geel. Ajax e PSV colocaram-se ao lado do rival, desta vez – bem como Heerenveen, AZ e Twente. E o assunto tomou conta das conversas de quem acompanha futebol na Holanda. De um lado, quem apoia a grama artificial dá a justificativa de diminuir os gastos dos clubes pequenos, além de negar que haja diferença tão grande entre grama natural e artificial. Já os opositores alegam que o relvado sintético força os jogadores a uma readaptação, pelo ritmo diferente da bola – além de ser mais propenso a causar contusões.
E afinal de contas, há diferença de desempenhos? Sim, há. Primeiro, porque não é só mais o Heracles a usar grama totalmente artificial em seus estádios. Agora são mais cinco clubes (Dordrecht, Zwolle, Cambuur, ADO Den Haag e Excelsior). Isso para não falar do caso da segunda divisão: dos 18 clubes da Eerste Divisie, sete têm estádios com grama sintética. E um levantamento do jornal “Algemeen Dagblad”, feito ainda no ano passado, não deixou dúvidas: desde 2005/06, a primeira temporada com um estádio de gramado diferente, até 2013/14, o aproveitamento dos times “com” relva artificial superou a média total de pontos das equipes que jogam em seus domínios (69% contra 61%).
A federação holandesa, por sua vez, manteve-se neutra na discussão. Em nota lacônica, apenas reforçou a orientação da Fifa, que deixa aos clubes a opção sobre jogar com grama natural ou artificial em seus estádios. E ainda comentou: “Preferimos uma solução que contemple todos os interesses, entre os quais a opinião de técnicos, jogadores e torcedores”. Hora de citar pesquisa do supracitado “Algemeen Dagblad”, que há duas semanas ouviu 54 pessoas atuantes na Eredivisie – goleiros, capitães e treinadores – e ouviu de 29 deles que haver grama artificial no campeonato desequilibra o jogo. Mas falar em proibição aumenta o equilíbrio: 24 contra, 23 a favor e sete abstenções. Ou seja, a discussão ainda terá alguns capítulos.
Por enquanto, a questão da grama artificial ainda mexe somente com o futebol holandês. A próxima alteração que se pensa no futebol do país já pode influenciar em outros lugares mundo afora: a implantação de ajuda eletrônica na arbitragem. Ela já começou, a bem da verdade. Afinal, na temporada atual o Campeonato Holandês já tem usado o “olho do gavião”, para resolver as bolas que eventualmente (não) passem da linha do gol. Só que o presidente da federação holandesa avisou que deseja ir além.
Na semana passada, Michael van Praag reuniu-se com árbitros da região norte da Holanda. E anunciou: a Eredivisie talvez tenha ajuda eletrônica aos juízes já na temporada 2015/16. Ao jornal “Dagblad van het Noorden”, Van Praag explicou como seria: “O ‘videoárbitro’ ficaria num automóvel fora do estádio, com acesso a várias telas de alta qualidade. E assim como os auxiliares, ele teria ligação direta com o árbitro. Enquanto vê as imagens, pode dizer se uma falta é para cartão amarelo ou vermelho, ou se houve ou não pênalti”.
Não se pode descartar a hipótese de que seja uma mera bravata. Afinal de contas, dentro da Uefa, Van Praag é dos presidentes de federações europeias que mais tem se oposto às palavras e ações de Joseph Blatter. Ou seja, pode ser mais provocação à Fifa do que uma ideia com chances de vingar. Mas se a federação holandesa estiver falando seriamente, na próxima temporada ela deverá se tornar ponta de lança de uma discussão muito importante no futebol atual. Ou melhor, de duas discussões importantes.



