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Tecnologia pode diminuir erros, mas não é o milagre que vai salvar a arbitragem

O Palmeiras estava em luta desesperada contra o rebaixamento e havia até aberto o placar contra o Internacional, no Beira-Rio, um dos desafios mais difíceis que o Campeonato Brasileiro apresenta. Sofreu a virada, ainda no começo do segundo tempo, e em uma bola lançada à área conseguiu voltar à igualdade. Mas o gol de Hernán Barcos foi anulado pela arbitragem, sob enorme suspeita de interferência externa.

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O clube paulista até tentou buscar a anulação da partida, mas o STJD sequer julgou o caso, mesmo ciente de que o regulamento da Fifa sempre impediu o uso de tecnologia. A International Board e o próprio presidente Joseph Blatter nunca gostaram da ideia, e apenas neste ano, quando o suíço anunciou mais uma candidatura à presidência, houve uma sinalização de que essa barreira pode ser quebrada. Blatter falou sobre métodos de implantação e até data para testes, mas ainda está cedo para saber como isso deve funcionar e como a dinâmica da partida seria alterada. Por enquanto, podemos apenas pegar os exemplos de outros esportes e usar a imaginação.

Como funciona em outros esportes
Os árbitros da NFL tem uma cabana para avaliarem os vídeos (Foto: AP)
Os árbitros da NFL tem uma cabana para avaliarem os vídeos (Foto: AP)

A NFL revisa todas as jogadas de pontuação ou turnover (quando um time perde a posse), mas o replay só é utilizado em questões objetivas. Ou seja, se a bola passou da linha de gol ou se o quarterback foi desarmado antes de começar o movimento de passe. Não pode ser usado para julgar novamente faltas que os árbitros marcaram. Cada treinador tem dois desafios e, se errar, perde direito a pedir tempo. Se acertar ambos, ganha mais um.

A partir desta temporada, haverá uma central de vídeos em Nova York para facilitar o trabalho do árbitro, já separando os melhores ângulos para que ele tome a decisão mais rapidamente. É o que já acontece na Major League Baseball, que permite ao treinador um desafio nas seis primeiras entradas (como são chamados os períodos de jogo no beisebol). Do sétimo em diante, tem mais dois. Também só podem ser usados em jogadas de posicionamento.

No tênis, o jogador que estiver com os olhos afiados. Tem direito, porém, a apenas três contestações equivocadas (quatro se a partida for para o tie-break). Caso o tenista abra mão de continuar jogando para realizar o desafio, perde o ponto se estiver errado. Do contrário, a jogada será repetida. A Federação Internacional de Vôlei também colocou os desafios eletrônicos nos seus torneios. São duas chances por set para os técnicos, e vale pedir para toque na rede, pisar na linha, zona de levantamento do líbero e, naturalmente, para ter certeza se a bola saiu ou não

A NBA adotou a tecnologia na temporada 2002/03 apenas para avaliar se um arremesso havia sido realizado antes ou depois do tempo acabar. Aos poucos, foi desenvolvendo o sistema e hoje em dia ele também é utilizado para lances de faltas que resultam na expulsão de um jogador ou mesmo para determinar se o chute foi de dois ou três pontos.

No entanto, esses esportes têm uma dinâmica diferente do futebol e consistem de jogadas curtas, com pequenos intervalos entre elas. O exemplo mais próximo seria o rúgbi, que também trabalha com tempo corrido. Na Rugby League, o árbitro principal pode pedir o auxílio do vídeo para decidir trys (a principal forma de marcar pontos) e outras jogadas, como trombadas, impedimentos, obstruções e etc. Na Rugby Union, no entanto, apenas para trys, e em nenhuma delas os técnicos têm direito a desafios.

Como poderia ser usado no futebol
O diretor da Hawk-Eye explica como a tecnologia seria aplicada ao futebol (Foto: AP)
O diretor da Hawk-Eye explica como a tecnologia seria aplicada ao futebol (Foto: AP)

Mesmo nos esportes que mais utilizam a tecnologia para resolver dúvidas, há limites, principalmente em relação aos lances que podem ser rejulgados. Por enquanto, Blatter ainda não falou sobre esse assunto. Disse apenas que pensa em “um ou dois” desafios por tempo e com a bola parada. Mas precisará fazer isso porque não dá para usar o replay em todo tipo de jogada.

Descobrir se a bola entrou ou não já é um problema superado. O chip na bola foi usado durante a Copa do Mundo e funcionou muito bem (apesar das desnecessárias intervenções para confirmar gols claros). A questão é como usar a tecnologia para solucionar dúvidas em outros tipos de jogadas capitais, como pênaltis e impedimentos.

Uma das formas seria recorrer à tecnologia apenas em impedimentos, mas isso causa dois problemas. A jogada nunca flui naturalmente depois que o auxiliar levanta a bandeira. Os marcadores geralmente param durante o lance e balançam os braços para reclamar. Teria que haver uma orientação para que o trio de arbitragem permitisse o prosseguimento da jogada até que esteja claro o seu resultado. Como isso seria avaliado? Com mais subjetividade em um processo que deveria acrescentar objetividade às decisões.

Há também a possibilidade de um jogador estar impedido, mas não conseguir marcar o gol e ainda armar o contra-ataque da equipe adversária. Apenas depois que a bola parar, o que pode levar vários minutos, o treinador poderia pedir um desafio. O que aconteceria? Nesse cenário, todos os lances seguintes deveriam ser anulados, e o tempo desperdiçado voltaria ao relógio ou seria compensado nos acréscimos.

Esse é outro dos problemas que o futebol enfrenta para usar a tecnologia. Como o esporte usa tempo corrido, no mínimo seriam gastos um ou dois minutos para cada revisão e todos os tempos teriam que terminar com aproximadamente 50 minutos. Por outro lado, realizaria o sonho de algumas emissoras de televisão: a possibilidade de passar comerciais (rápidos, é verdade) durante as transmissões, enquanto os árbitros examinam o monitor.

O que mais mudaria a dinâmica do futebol seria usar o recurso eletrônico para faltas e toques de mão dentro da área (dificilmente alguém vai gastar os desafios para lances fora dela) porque a jogada muitas vezes continua normalmente sem uma definição. Digamos que o zagueiro toque a bola com a mão, o árbitro não considere pênalti e o técnio desafie. A partida poderia ser interrompida muito depois, em um escanteio por exemplo, até que o lance fosse reavaliado. Se o pênalti for confirmado (esse tipo de lance é muito interpretativo), para tudo e coloca a bola no cal? O futebol americano, por exemplo, não reavalia as faltas.

E também é bom esclarecer que dificilmente todos os problemas da arbitragem seriam solucionados com o uso do replay. Muitos lances permanecem uma questão de interpretação, e os árbitros brasileiros não são muito bons em reconhecer erros, mesmo horas depois da partida e de cabeça fria. A ideia tem seus méritos principalmente para impedir erros crassos e grosseiros da arbitragem. “Não tenho dúvidas (que seria uma boa forma de diminuir erros)”, afirma o ex-árbitro Sálvio Spinola Fagundes Filho, comentarista dos canais ESPN. “Mudaria a cabeça do árbitro e ele correria mais riscos, dando mais dinâmica ao jogo”.

Não parece haver uma fórmula clara para introduzir a tecnologia no futebol, embora isso precise acontecer o mais rápido possível. Serão necessários muitos testes para que seja encontrada a melhor forma de usar o replay, e o primeiro deles pode ser já no ano que vem, durante o Mundial sub-20 da Nova Zelândia. A principal avaliação a ser feita é se os erros de arbitragem vão ser reduzidos o bastante para compensar o impacto na dinâmica do jogo.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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