Holanda

Holanda viveu um ano mais “doce” do que “agri” no seu futebol

“Agridoce”. Assim era intitulada a coluna de análise de 2010 no futebol holandês, tanto em clubes quanto na seleção. O título tinha razão de ser: afinal de contas, se o vice-campeonato na Copa do Mundo daquele ano novamente frustrara o país, ele também trouxera a Holanda de volta à lista das melhores seleções do mundo – lugar em que a Oranje não estava havia algum tempo. E essas duas sensações, a frustração e o orgulho, estavam misturadas em quantidades iguais.

Em 2014, em termos, é diferente. Sim, retornou uma sensação mista. A Holanda está cheia de orgulho de sua seleção, mas não conseguiu ainda o título mundial que a fará deixar de ser “a melhor do resto” e entrar no seleto rol das seleções vencedoras de Copas do Mundo. Mas pelo que se viu entre 2010 e 2014, é bastante lícito supor que o orgulho desta vez foi bem maior do que o desapontamento, que o lado doce foi bem mais presente. E que mesmo o cenário do futebol de clubes exibe razões para otimismo.

Afinal de contas, a péssima participação na Euro 2012 fez com que se encerrasse o “doping psicológico” que motivava a equipe desde a África do Sul. O que se seguiu, com a queda de Bert van Marwijk, a chegada de Louis van Gaal e a reformulação gradual do elenco habitual da seleção levou a crer que a Holanda tinha perdido o pique de 2010. Enquanto Espanha e Alemanha, as outras duas seleções europeias mencionadas entre as melhores do mundo, só cresciam, a Oranje era eclipsada.

A tal ponto que o sorteio dos grupos da Copa fez muitos acreditarem que os holandeses seriam os eliminados, num difícil grupo, com o Chile em ascensão e a Espanha, o algoz na final de 2010. Tal crença virou quase certeza após os amistosos de março: os chilenos ofereceram dificuldades imensas à futura campeã Alemanha. Os espanhóis fizeram valer a maior capacidade técnica contra a Itália. E a Holanda… foi sobrepujada pela França com impressionante facilidade.

Pior: no 2 a 0 visto no Stade de France, Kevin Strootman torceu o joelho direito. Com ele lesionado, entrou em campo no domingo seguinte, pela Roma, contra o Napoli, em jogo do Campeonato Italiano. Sobrecarregado, o joelho esquerdo teve o ligamento cruzado posterior rompido e um menisco quebrado em dez minutos, tirando-o da Copa. Como um dos três jogadores considerados “intocáveis” por Van Gaal na seleção, sua perda aumentava ainda mais os temores de um provável e previsível fiasco na primeira fase.

Desde então, Van Gaal foi praticamente forçado a rever seu planejamento para a Copa. O que levou à escolha polêmica do 5-3-2 como esquema tático, para dar maior segurança à defesa holandesa. E à preferência por jogadores que atuavam no Campeonato Holandês, outro alvo de discussão. Enfim, parecia que a Copa do Mundo somente prolongaria o fiasco de 2012. O que talvez desse um fim à geração vice-campeã mundial havia quatro anos – e colocasse dúvidas pesadas sobre os novatos.

Mas aí começou a razão maior da boa impressão que o futebol holandês recebeu em 2014. Nada houve que direcionasse as coisas nesse sentido – pelo menos, nada vazado para a imprensa -, mas a Oranje que esteve em campos brasileiros mostrou, mais do que talento, uma raça insuspeita, uma vontade tremenda de arriscar, de superar tudo e todos. Com as atuações destacadas de Robben, talvez a motivação de provar o valor tenha sido a grande razão do que se viu na Copa: o 5 a 1 histórico contra a Espanha, as boas atuações na primeira fase, a eclosão de talentos como Depay, a seriedade que fez os discutidos zagueiros terem boas atuações, a virada empolgante contra o México nas oitavas de final, a aposta premiada em Krul contra a Costa Rica…

A vontade parou na queda de desempenho progressiva de alguns jogadores, culminando com a atuação apagada contra a Argentina nas semifinais. Mas a eliminação nos pênaltis só ampliou a sensação de que a Holanda fora derrotada apenas numa situação limítrofe, e que nada havia para se envergonhar do que um elenco antes considerado muito novo mostrara.

Finalmente, a vitória contra o Brasil e o terceiro lugar cristalizaram as opiniões até hoje vistas no país sobre a Oranje dentro da Copa: um resultado tão surpreendente quanto elogiável, nada mal para um time em que quase metade dos jogadores estava na Eredivisie. Não é à toa que Arjen Robben declarou abertamente, em entrevista ao diário “Algemeen Dagblad”, que se arrepia ao rever as imagens da Holanda no torneio. Não é só ele.

E mesmo que o campeonato nacional mantenha um nível apenas mediano, e que as atuações dos clubes holandeses na Liga dos Campeões sigam risíveis, há razões para otimismo aqui e ali. Bem ou mal, o Trio de Ferro holandês seguirá na Liga Europa, tentando reverter a perigosa situação no ranking de coeficientes da Uefa, em que Bélgica, Suíça e Turquia ameaçam tomar vagas nas competições continentais das próximas temporadas. Será difícil, por exemplo, ver PSV sobrepujando o Zenit (menos, pode acontecer) ou Feyenoord eliminando a Roma (bem mais difícil, neste caso). Mas dá para crer que os holandeses não se entregarão sem luta.

Porque, de certo modo, é isso que a Eredivisie tem mostrado: animação, apesar do nível mediano. O campeonato mostrou alguns jogos bem empolgantes ao longo do primeiro turno: partidas como Ajax 1×0 Feyenoord, PSV 4×3 Feyenoord e Twente 3×2 Willem II tiveram emoção e chances de gol para ninguém botar defeito. Não são partidas irretocáveis tecnicamente, mas fazem menos feio do que o Campeonato Holandês já fez em momentos anteriores.

Evidentemente, há problemas sérios. Se não houvesse, a federação não teria realizado o simpósio (decepcionante) que fez, há quase duas semanas. De quebra, houve a apatia perigosa apresentada pela seleção, no início das eliminatórias da Euro 2016. Mas o tempo passou, a vitória contra a Letônia ajudou os ânimos a se serenarem, Guus Hiddink deverá ficar no cargo, e aos poucos a calma retorna.

Mas se o futebol holandês tem questões a resolver, 2014 foi altamente prazeroso por mostrar, aqui e ali, focos de esperança. Que deve guiá-lo rumo ao objetivo brilhantemente descrito por Frank de Boer, antes do sorteio dos jogos da segunda fase da Liga Europa: “Atualmente, estamos abaixo dos melhores [campeonatos] da Europa, e às vezes até piores do que nossos pares. Acho que a Holanda deve ter seu padrão logo abaixo da elite, com saltos para cima, não para baixo”. Que pelo menos essa esperança seja mantida.

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