Agridoce

Encerramento do primeiro tempo de Holanda x Brasil, pelas quartas de final da Copa do Mundo. A equipe de Bert van Marwijk foi facilmente superada pela equipe treinada por Dunga. No ataque, Kaká, Robinho e Luis Fabiano pressionavam constantemente uma defesa bastante assustada – até pela repentina substituição de Mathijsen, machucado no aquecimento, por Ooijer. No ataque, Robben, Sneijder, Van Persie e Kuyt eram facilmente marcados. Enfim, parecia que a Oranje ia justificar a expectativa pessimista, por parte de sua torcida, e realista, por parte da imprensa: faria uma boa campanha, mas cairia diante do primeiro rival respeitável.
Era o que a campanha do time de Van Marwijk em 2010 fazia supor. O time fez ótima campanha nas Eliminatórias, mostrava-se concentrado como poucas vezes se viu a Holanda ser, mas ainda faltava algo. Algo que não foi visto na vitória contra os Estados Unidos, em março. Nem nos 2 a 1 sobre o México, já na fase de preparação para o Mundial. Brilhante mesmo, a equipe só fora em seus dois últimos amistosos antes da Copa, ao golear Gana (4 a 1) e Hungria (6 a 1). Todavia, mesmo o contentamento pela ótima performance na Amsterdam ArenA, contra os húngaros, foi barrado pela séria lesão muscular de Robben – falsamente solucionada por Dick van Toorn, o que permitiu ao nativo de Bedum partir rumo à África do Sul, para, depois da Copa, descobrir uma grave ruptura muscular.
Antes da chegada de Robben, a equipe holandesa teve pouquíssima imaginação nos jogos contra Dinamarca e Japão. A bem da verdade, nem mesmo Sneijder, que chegara da temporada em alta, conseguia dar o brilhantismo de que o time precisava para se tornar uma equipe diferenciada. Só mesmo a superioridade técnica fazia com que as vitórias viessem. Pelo menos, foi o suficiente para garantir a classificação às oitavas de final. E, já despreocupada e com Robben, no jogo contra Camarões, a equipe apresentou uma melhora considerável. Era um ânimo para a sequência da campanha na Copa do Mundo.
E a vitória sobre a Eslováquia apresentou um avanço inegável. Com Sneijder e Robben, a Holanda deu o salto de qualidade que esperava, e do qual precisava, para poder sonhar com um grande avanço no Mundial. Melhor ainda: quando o time de Vladimir Weiss começou a pressionar mais em busca do empate – principalmente no segundo tempo -, Maarten Stekelenburg se apresentou em ótima forma. E, de certo modo, começou a diminuir de vez a sombra de Van der Sar. Finalizando tudo, com os dois gols em momentos nevrálgicos do jogo, a Oranje começava a apresentar uma qualidade insuspeita: a eficiência, a capacidade de definir o jogo com frieza.
Se a despedida holandesa da Copa, que se avizinhava naquele fim de primeiro tempo contra o Brasil, fosse daquela maneira, seria honrosa. Mas o destino colocou no caminho o cruzamento de Sneijder, que não foi defendido por Júlio César, entrando diretamente para o gol, e empatando o jogo em Port Elizabeth. Foi o momento em que a Holanda mudou: além da eficiência, da capacidade técnica de Robben e Sneijder, o time ganhou autoconfiança. Jogadores menos capazes tecnicamente, como a dupla De Jong e Van Bommel, começaram a acreditar que a vitória era possível. Sneijder marcou o gol da virada. E ali surgiu a vitória de que a Holanda precisava, para, enfim, aspirar a algo maior do que parecia possível até então.
A partida contra o Uruguai, pelas semifinais, continuou sendo custosa emocionalmente, pelo desafio que era enfrentar uma equipe também anabolizada pela classificação eletrizante nas quartas de final. Contudo, bastaram alguns momentos em que Sneijder e Robben apareceram (além do gol tão fortuito quanto belo de Van Bronckhorst) para que a equipe laranja voltasse a alcançar uma final de Copa do Mundo, após 32 anos.
Mas a final da Copa do Mundo revelou que a maior eficiência da equipe holandesa sofrera uma transformação perigosa. Contra a Espanha, a fervilhante motivação tornou-se exagerado nervosismo – o que justifica o excesso de cartões e, sobretudo, faltas violentas como a já mítica solada de De Jong em Xabi Alonso. E a equipe fria e serena havia se tornado meramente retraída, só tentando sair para o jogo nos contra-ataques. Conseguiu enervar a Espanha e levar o jogo para a prorrogação, mas tomou o castigo, e ficou sem aquilo que mais queria: o título de campeã mundial, que apagaria toda uma história de frustrações.
Mas, mesmo com a derrota, a campanha na Copa deixou marcas indeléveis, podendo até ser chamada de “inesquecível”. Deixou a lição da necessidade de uma confiança inabalável para que a equipe conseguisse êxito. E, felizmente para a equipe, a dor da derrota na Copa não trouxe apatia. Ao contrário: no início das eliminatórias para a Euro 2012, o time soube aliar a eficiência vista no Mundial ao retorno do estilo técnico que fez a fama do futebol holandês. Resultado: em quatro jogos, quatro vitórias, e a impressão de que a classificação para a Euro há de vir.
Confiança, um time com bons jogadores, equilíbrio no estilo de jogo… se 2010 deixou um travo na garganta, também se tornará o ano em que a Holanda ganhou corpo. E voltou a ser uma das melhores seleções do mundo.
Como num conto de fadas
106 gols marcados, na Eredivisie da temporada 2009/10. 85 pontos. O Ajax, enfim, fez uma campanha um pouco mais digna, no Campeonato Holandês. Mas, ainda assim, não acabou com o jejum de seis anos sem a conquista da liga. Tudo porque o futebol holandês de clubes viu um conto de fadas chegar ao seu clímax. Um conto de fadas que teve cenário na cidade holandesa de Enschede.
Era uma vez um clube chamado Twente, que estava à beira da falência, em 2004. Até que assumiu o seu comando um empresário que atuava no campo de comunicações, de nome Joop Munsterman. E criou um plano para que o clube superasse os problemas esportivos e financeiros. Para tanto, cercou-se de um consórcio, que dariam mais segurança à organização. Tudo isso sob um título: “Trabalhando por um sonho”.
Paralelamente, foi permitido aos técnicos que fizeram parte daquele projeto contarem com apoio para contratações baratas, mas cirúrgicas. Como Engelaar, Wisgerhof, Douglas, Bryan Ruiz, Arnautovic, Elia, Janssen… aos poucos, aquele clube foi chegando perto de realizar o seu sonho. Em 2007/08, superou o Ajax, nos play-offs por vaga na Liga dos Campeões. Na temporada seguinte, conseguiu o vice-campeonato, novamente chegando à LC. E, em 2010, foi coroado, enfim, com o seu primeiro título nacional. Parecia um final feliz.
Mas, como se sabe, não há finais definitivos no futebol. E conquistar a Eredivisie significava abrir novos desafios para a equipe: escapar da história que o AZ protagonizara, saindo do título holandês para desmilinguir-se com a falência do banco DSB; fazer uma boa Liga dos Campeões; manter o padrão estabelecido com o título…
Pelo menos na primeira metade da temporada, a tarefa foi cumprida. O time disputa a liderança da Eredivisie, muito próximo do PSV. E, na Liga dos Campeões, se não conseguiu avançar às oitavas de final, garantiu vaga na Liga Europa – onde tem até boas perspectivas de classificação. PSV e Ajax podem até ter melhorado, o Feyenoord pode ter se notabilizado pela queda histórica no 10 a 0, mas o time do ano na Holanda é o Twente. Que tenta esticar o seu conto de fadas até onde possa. Para que, pelo menos, nunca mais volte a ser assombrado pela bruxa da falência.



