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Football Leaks: a cruzada pela transparência e contra os fundos de investimento no futebol

Desde setembro do ano passado, o Football Leaks tem preocupado a administração de alguns clubes do futebol. O site vem vazando documentos sigilosos e contratos de transferência entre equipes do Velho Continente, revelando em alguns deles a participação de fundos de investimento nas negociações. Esses vazamentos já levaram, por exemplo, a uma punição ao Twente, da Holanda, por envolvimento com o grupo Doyen Sports, causando a expulsão do clube de competições continentais por três temporadas.

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Outra das vítimas das revelações do Football Leaks é o Sporting, de Portugal, que publicamente acusou o site de ter ligação com o Benfica. A revelação de documentos de vários outros clubes, no entanto, mostra que o objetivo do site está longe de ser apenas prejudicar uma equipe específica do futebol português. Em entrevista ao site alemão 11Freunde, um dos fundadores do Football Leaks reconheceu que o grupo é de Portugal, negou qualquer ligação clubes e explicou um pouco mais sobre seus objetivos – além, é claro, de atacar a relação dos fundos de investimento com agremiações e a visão financeira predatória dessas empresas.

O Football Leaks foi ao ar em setembro de 2015, após o fechamento da janela de transferências de verão, e o representante que conversou com o 11Freunde conta que foi justamente a atividade dos clubes portugueses naquele mercado que incentivou a criação do site. “Nosso principal objetivo na época era expor todas as mentiras e controvérsias dentro dos clubes portugueses. A última janela de transferências de verão foi a mais intensa da história em Portugal, houve transferências chocantes, como por exemplo a de Jorge Jesus do Benfica para o Sporting, controvérsias e muitas perguntas sem respostas, principalmente envolvendo o Sporting. Decidimos ajudar as pessoas a entenderem o que realmente aconteceu, então focamos em desmascarar isso. E, felizmente, conseguimos ir além, graças às nossas fontes”, conta.

Os responsáveis pelo Football Leaks querem ajudar na busca por transparência no futebol e são muito críticos da cultura de mistério em torno dos acordos entre clubes e jogadores. Eles têm até mesmo um exemplo prático de como gostariam que as coisas funcionassem. “Alguns clubes não têm respeito algum por seus torcedores, tudo é um tabu: os salários dos jogadores, os contratos de transferência, as cláusulas secretas, os intermediários etc. Os clubes escondem tudo. Em nossa opinião, a NBA é um bom exemplo de transparência, não há segredos. Todos sabem quanto um jogador ou técnico específico ganha, e eles próprios não escondem. É disso que o futebol precisa.”

A Doyen está envolvida em vários dos documentos publicados pelo Football Leaks e é o principal alvo do site quando o assunto é fundos de investimento. Através da atividade da empresa e de sua estrutura, que a equipe por trás do site julga ser “propícia à lavagem de dinheiro”, o Football Leaks ataca os problemas consequentes do envolvimento de terceiros na aquisição de direitos econômicos de jogadores. “Em nossa opinião, há uma enorme falta de informações sobre esses fundos de investimento. Sua existência dentro do futebol levanta questões importantes em termos de potenciais conflitos de interesse e de manipulação de resultados. E, é claro, há o risco de lavagem de dinheiro e outras atividades criminosas. Esses fundos só têm um interesse financeiro, o que claramente leva a instabilidade contratual entre clubes e jogadores”, afirma um dos fundadores do site.

O Football Leaks considera o caso do Twente emblemático para todo o problema por trás das atividades dos fundos de investimento. Em dezembro, o site vazou um acerto entre o clube holandês e a Doyen, fechado em fevereiro de 2014, que dizia que o fundo de investimentos, com sede em Malta, teria direito a comissões na venda de determinados atletas do elenco do clube. Cinco deles foram vendidos de 2014 para cá, entre eles Dusan Tadic, para o Southampton, e Luc Castaignos, para o Eintracht Frankfurt.

“É um caso emblemático. Mostra as interferências danosas de participação de terceiros na política de clubes, junto com uma má administração criminosa e um presidente irresponsável. O que a Doyen faz é completamente criminoso e prejudicial aos clubes. Se você analisar todos os seus acordos de participação em direitos econômicos, não só com o Twente, mas com vários clubes, você verá como eles tiram proveito de clubes em dificuldades financeiras e e impõem termos injustos aos clubes.”

O integrante do Football Leaks que concedeu a entrevista ao 11Freunde explica como funciona a atuação da Doyen na transferência de atletas, prática que, segundo o site, rendeu à empresa mais de € 70 milhões nos últimos cinco anos: “Normalmente, a Doyen é quem busca as ofertas. E quando eles as apresentam ao clube, o clube não tem escolha senão vender o jogador. Os contratos da Doyen normalmente têm cláusulas agressivas. Infelizmente isso é comum e acontece por trás das cortinas. Os investidores colocam jogadores em certos clubes, com a promessa de que em um ou dois anos eles podem se transferir novamente para clubes maiores. Isso é rentável para os fundos de investimento e para os empresários. Na Europa, acordos de investimento de terceiros ainda estão acontecendo atrás das cortinas, mas, hoje em dia, disfarçados como acordos de observação e acordos intermediários. Ainda há muito dinheiro circulando por trás da cortina, e nem mesmo a Fifa tem a mínima ideia do que está acontecendo. A crescente influência dos empresários de jogador e o uso de offshores continuam sendo muito problemáticos”.

O Football Leaks decidiu agir de maneira independente, sem recorrer á imprensa portuguesa, em que não confia para a divulgação dessas informações, já que a considera parte do problema: “O lobby é muito grande, e mesmo a Federação Portuguesa de Futebol e a liga são acessórios para acordos de fundos de investimento”. Chegaram, então, à conclusão de que “criar um site era a melhor solução, uma quantidade enorme de pessoas descobriu sobre ele, e as redes sociais se encarregaram do resto.”

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Em meio ao escândalo de corrupção pelo qual passa a Fifa desde o meio do ano passado, recorrer à entidade máxima também não pareceu a melhor ideia para os criadores do site, que, no entanto, se dizem abertos a colaborar com a instituição se eles acharem necessária sua ajuda para a investigação de corrupção no futebol. “Como todos sabem, a Fifa foi afetada por um enorme escândalo, então naquela época não estávamos com a certeza de que enviar documentos à Fifa realmente faria alguma diferença. Uma plataforma online certamente era a melhor solução na nossa opinião, mas é claro que podemos colaborar diretamente com a Fifa se eles pedirem”, garantiu.

O site ganhou ainda mais repercussão no fim de janeiro pela revelação do contrato de compra de Gareth Bale pelo Real Madrid,que mostrou que o valor real havia sido ainda maior do que os € 91 milhões divulgados, chegando a € 99,7 milhões. Desde então, a equipe do Football Leaks tem recebido centenas de e-mails e, diante do alvoroço causado, diz esperar que “isso seja o começo de uma nova era de transparência no futebol”. Apesar de começarem a sofrer um contra-ataque, através de rumores de chantagem contra executivos da Doyen ou da própria declaração pública da empresa de que haviam feito um ataque cibernético ao fundo de investimentos, os responsáveis pelo Football Leaks garantem que não serão impedidos de seguir buscando um futebol mais limpo, incitando a discussão sobre maior transparência dos acordos e sobre a participação dos empresários no esporte. Para isso, prometem que mais vazamentos vêm por aí. “Vocês podem esperar muitas novas revelações sobre transferências e fundos de investimento.”

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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