D’Alessandro encarnou a alma colorada como craque, como líder e como mais um torcedor

Lágrimas sentidas, incontidas, sinceras. Por mais que as palavras tenham expressado a paixão, o símbolo maior da relação entre D’Alessandro e o Internacional estava evidente em seu rosto. O camisa 10 não se conteve em diversos momentos da entrevista coletiva em que anunciou sua saída do Beira-Rio. Nada mais natural. Afinal, em tempos nos quais o dinheiro mexe tanto com a cabeça dos jogadores, é raríssimo ver no Brasil um craque tão comprometido com seu clube. Quando o argentino desembarcou em Porto Alegre, dificilmente alguém imaginou que ele permaneceria por quase oito anos encarnando a camisa colorada. Não só ajudou a elevar o time com o seu talento, como também assumiu uma grande identificação com Inter. Vai embora uma referência do elenco, mas ficam a história do ídolo e o espírito do torcedor que se tornou.
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D’Alessandro voltará ao River Plate por empréstimo de um ano. Às vésperas de completar 35 anos, preferiu retornar ao time de seu coração (embora fosse racinguista na infância). Terá o gosto de disputar outra vez a Libertadores, agora como principal reforço do atual campeão, revivendo antigas parecerias de sua juventude. Sobretudo, volta a sua casa, podendo conviver de maneira mais frequente com seus pais, com seus familiares. Acima da parte esportiva, a maior motivação de sua decisão estava em seus sentimentos. Porém, hoje o camisa 10 se divide. O Internacional também é sua casa, também é seu time de coração. Acaba sendo o principal clube de sua vida. Onde conquistou mais títulos, onde foi mais ídolo.
No Monumental de Núñez, D’Alessandro complementará o seu ciclo com o River Plate. Em sua primeira passagem, conquistou três títulos nacionais em três temporadas como profissional e eclodiu como uma das grandes promessas do futebol argentino. Depois, ainda teve um sentimental reencontro na Libertadores de 2008, quando eliminou os Millonarios na Libertadores em um jogo épico com o San Lorenzo, demonstrando o seu pesar mesmo com os insultos da antiga torcida. Mas seja em Núñez, Boedo, Wolfsburg, Portsmouth ou Zaragoza, o camisa 10 não construiu uma relação tão duradoura quanto a vivida no Beira-Rio. E nem tão intensa.
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A personalidade de D’Alessandro se casou perfeitamente com o Inter. Em uma cidade que vive de maneira tão apaixonada o seu futebol, o argentino personificou os anseios da torcida por um líder aguerrido e compromissado. Uma importância que adquiriu com o tempo. Só que, antes disso, o camisa 10 logo começou cumprindo as expectativas para ser o craque do time, armador de qualidade inegável. Acumulou golaços, grandes atuações, campanhas memoráveis. Em quase oito anos, o meia somou 76 gols e 79 assistências em 340 jogos. Venceu 13 clássicos e perdeu apenas cinco, balançando as redes oito vezes em Gre-Nais. Ergueu nove taças, incluindo uma das mais importantes, a da Libertadores de 2010. Foi protagonista do “campeão de tudo”, na bola e na raça.
“O Inter é o clube que me deu tudo. Nada se compara à minha relação com o clube. É uma mistura de tristeza com alegria. Vou voltar para minha casa, ver meu pai e minha mãe. O que eu conquistei aqui ninguém vai me tirar”, declarou D’Alessandro, na emotiva entrevista coletiva. “Eu não queria que nada estragasse a minha história aqui no clube, então essa chance veio no momento certo. Fica um sentimento de dívida com o torcedor por não ter dado um título nacional. Vou torcer, mesmo estando longe. A empatia foi crescendo e hoje a gente tem um carinho muito grande e recíproco”.

Independente das lacunas, todavia, o que permanece é a trajetória. D’Alessandro não apresentou o seu melhor futebol nos últimos meses, e sua saída até pode ser importante para a renovação. De qualquer maneira, o colorado sentirá a perda do ídolo. Daquele em quem os torcedores podiam confiar sem se importar com a fase, porque sobrava talento. Daquele que comprava as brigas pelo clube dentro de campo, às vezes até se excedendo. Daquele que assumia as responsabilidades e as honrava, ao menos com muita dedicação.
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A adoração por D’Alessandro ainda vai além dos gramados. O argentino abraçou Porto Alegre como sua cidade. E a contribuição que deu à comunidade vai além do clubismo que costuma dividir os gaúchos. Não dá para negar a generosidade do camisa 10 ao longo desses anos, assumindo causas sociais. Emblematicamente, um de seus últimos grandes momentos no Internacional aconteceu durante o jogo festivo de fim de ano. O “Lance de Craque” teve sua segunda edição em dezembro, com arquibancadas cheias no Beira-Rio e a ajuda a cinco diferentes instituições de caridade, além de diversas provas da idolatria pelo craque colorado.
D’Alessandro se despede como a face do Internacional nos últimos oito anos – uma era marcante para o clube, por reconquistar as Américas e se manter como uma força. Com o tempo, o camisa 10 herdou de Fernandão o papel de protagonista: referência para conduzir o time aos títulos e também líder. Pois ninguém simbolizou melhor a alma colorada desde 2008. A entrega, a maestria e as conquistas colocam o argentino próximo ao panteão colorado – de Tesourinha, Carlitos, Figueroa, Falcão, Fernandão e outras lendas. História que terá o seu último capítulo (ao menos por enquanto) no Estádio Passo d’Areia nesta quarta. Sem dúvidas, a torcida corresponderá à tamanha paixão. Mais lágrimas rolarão. Agora, cheias de gratidão.



