Brasil

Saber partir

por Emanuel Neves

“Primero, hay que saber sufrir
Después, amar
Después, partir
Y al fin andar sin pensamiento
Naranjo em Flor” (Virgilio Expósito)

Então, se é assim mesmo, está quase tudo em seu lugar. Porque hoje já se faz difícil o pensar, o encadeamento de ideias novas. As coisas cristalizadas em minha mente, eu não as classifico como pensamentos, mas as chamo de infinito. Este, inclusive, é o único conceito diferente brotado em mim no último ano: descobri o parto do infinito. O infinito é feito de um rasgo no tempo, chamado de quando, e o quando é sempre ontem. Para consertar essa fenda, o tempo engendra uma massa muito sólida, obtida na infusão de nervos, sensações e imagens. É um tipo de composto capaz de chumbar fatias de vida com a gente junto lá dentro.

Eu sabia sofrer antes de tu chegares, aprendi com os outros. Mas a dor não é infinita. Infinita é a tua chegada. Está inculcada no ar como teu corpo, teu corpo subindo, pairando e alçando o meu também. Ah!, foi logo de pronto um arrebatamento e foi uma trepidação e um urro histórico, um clarim de anunciação, um brado que tantas e tantas vezes se repetiria. Infinito é o brado incansável desse teu nome ecoando em minha voz pelas noites afora. Pois se hoje minha garganta não sufoca mais grito algum, é porque um dia ela berrou por ti.

E foi desse modo, aos rugidos, que soubemos amar. Era da nossa natureza de bicho enjaulado e faminto, ansiando e necessitando havia tanto. E talvez por essa faina ser tão recíproca, nos entregamos um ao outro até já não existir outro ou um, só coisa só. Infinita é a união do tu e do eu – e assim fomos por onde quer que tenhamos ido. Eu fui contigo, em verdade. Tu me levaste, revelaste os caminhos, as veredas vedadas, seladas ou esquecidas, e em todo canto eu segui à tua mão e às tuas ordens. Palmilhamos o desconhecido; deparamos as surpresas agradáveis e malfazejas; transpomos vales e cordilheiras. Eu fui teu praça e escudeiro na jornada. Guia e luzeiro, tu foste. À guerra, nós fomos. O mundo nos foi. E a festa, tu eras. Infinitas são a tua luz e a tua alegria.

Menino-maestro, eu ainda te enxergo brincando de reger esses infinitos tão nossos. Te via, assim, como um imã no centro de tudo quanto fosse bom. E ser um feixe em tua órbita era um privilégio e um carimbo, uma assinatura. Esse sinetes, teus regalos, eu os carrego sobre e dentro de meu peito. Infinita é a nossa história. Mas quando o universo tremulou em caos, o céu não parou mais de despencar. Como remédio, busquei usar tua fórmula ao avesso. Ou seja, não quis acreditar. Ainda hoje tento, às vezes. A lógica é simples: se não creio, se não creio com afinco, ora, não acontece. Não aconteceu, pois, e pronto. Mas nunca dá certo. E infinita é a tua falta.

Aqui entra o ponto crucial. Está lá subentendido neste tango-cartilha que embala minha madrugada insone: “hay que saber partir”. Assim versou o argentino Virgilio Expósito, ao seu piano, em 1944. Mas como se parte do infinito, Expósito? Se baixo as pálpebras, vejo as mãos dele espalmadas ao alto; o olhar transbordando em minha direção, como se estivesse enxergando uma aparição; a boca entreaberta, o rosto em clara epifania. Infinito é teu rosto, infinito o meu êxtase. E já estou preso nesse pedaço da eternidade, Virgilio. Quer outra nesga do eterno? Aqui, na minha frente, ele está escorado no ar, suspenso, qual fosse a partner de um mágico deitada numa mesa invisível, pedalando no vento em revelia à gravidade. E toda a gente se ensandece perante a sua magia. É tudo tão lindo que não dá vontade de sair.

Eu agora estou aqui, pianista, olhando para as costas dele. A melena negra lambe a gola da camisa; a fronte aponta o horizonte; o braço hirto estendido é uma seta, e a faixa branca se impõe, dona de todo o respeito. Nasceu mesmo para que mirassem as suas costas – e quem o fizesse, ia por bom caminho. O infinito agora se espraia como perfume: é a voz dele, Expósito, é o golpe das palavras içando cada pelo do meu antebraço, me dizendo que a hora das grandes coisas chegou – e não só é possível, como vai acontecer. Ele aqui não fala, ele promulga destinos. E assim se deu. Está tudo lá, nas caixas mais reluzentes do sem fim em minha cabeça, onde fomos juntos colhendo estrelas, amealhando o mundo aos magotes e o tomamos por inteiro.

E às vezes, Virgílio, o infinito não traz som nem imagem, mas me envolve numa bolsa de água e sal, uma redoma com travo amargo e dolorido. E eu sou as suas lágrimas pungindo pesadas, uma a uma. Mas todo choro já cessa logo e se amaina, porque os infinitos nos quais eu vivo com ele não foram forjados na decepção, não foi para isso que viramos um só. Soubemos amar, de fato e intensamente. Assim, os cenários de nossas eternidades são sempre de um vermelho-sangue que pulsa e cobre tudo de vida. Infinito é o vermelho. Ele mesmo disse.

“Quando falo da minha passagem pelo Inter, começo a chorar. Parece que eu nasci aqui dentro; que eu fui criado aqui dentro.” Fernandão

Sim, tu sentenciaste, aos prantos, quando me deixaste o último ensinamento. Ah, infinitos são teu exemplo e teu legado. Aquilo foi como se tu soubesses ou antevisses. Que tu antevias, não? Antevias e acenaste um adeus velado. Era isso, tu sabias. Soubeste partir. Soubeste, antes, chegar – e infinita é a tua chegada. Soubeste sofrer. E soubeste amar. Amar, sobejamente. Andas, agora, sem pensamento. Não, disso eu duvido. Cada fagulha de nossas eternidades deve espocar em tua mente com um viço incomparável, em milhões de matizes, em evoluções de brilhos e pirotecnias. Infinitas são a tua luz e a tua alegria. Vives nelas, e eu contigo.

Sim, soubeste partir, meu querido, como ninguém mais o fez. Porque tu espalhaste tantos e tão belos infinitos em mim que não me posso desenlaçar de um sem já me ver logo enredado noutro. E assim rolo eu, no ardil dessa girândola de nossas lembranças, nessa armadilha boa que armamos juntos, onde tu nunca foste nem jamais irá embora.

E infinita é a tua presença.

Dedicado a Fernanda Bizzotto Costa

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