Holanda

Feyenoord e AZ ganham o que precisavam: esperança

Feyenoord e AZ eram dois clubes que tinham tudo para fazerem boas campanhas no Campeonato Holandês. Falar em título era um pouco demais, mas para o nível da Eredivisie, eram bons times. Só que a temporada começou e ambos viveram tempos turbulentos. O Stadionclub chegou a ficar cinco jogos sem vitória (contando-se os jogos pela Liga Europa e Copa da Holanda, foram oito partidas sem vencer), e achou-se que as perdas da última janela de transferências haviam sido mais danosas do que o previsto, trazendo o temor da volta de tempos bicudos, como a coluna comentou aqui.

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Pela vez deles, os Alkmaarders traumatizaram-se com o “rebaixamento” de Marco van Basten a auxiliar técnico, seguido da demissão de Alex Pastoor, tendo de achar um novo treinador. A coluna também comentou o problema ligeiramente imprevisto que isso trouxera ao clube. Tempos depois, John van den Brom foi contratado, após uma rápida inatividade desde a demissão do Anderlecht. E o ex-jogador teria o respeitável desafio de reanimar um elenco algo baqueado pela roda-viva de treinadores. Não foi fácil: o início de trabalho de Van den Brom veio com quatro jogos sem vitória.

E os treinadores das duas equipes compreenderam o cenário difícil. Mais do que isso: compreenderam que era preciso cuidar da defesa, para que novas derrotas    não afetassem definitivamente as chances de título e encurtassem seus trabalhos. O resultado? Se Ajax e PSV ainda continuam como principais favoritos à conquista do título, já perto da virada de turno, Feyenoord e AZ reergueram-se sobre alicerces sólidos. Em 3º e 4º lugares, respectivamente, as duas equipes se enfrentam neste domingo, pela 16ª rodada, completamente reanimadas e sonhando em tornarem-se concorrentes na disputa da Eredivisieschaal.

No caso do Feyenoord, há ainda uma curiosidade: pode-se dizer que a reconstrução do time na temporada veio não pelo campeonato nacional, e sim pela Liga Europa. Na fase de grupos, o início, com derrota por 2 a 0 para o Sevilla, deu a impressão de que a equipe de Roterdã faria apenas figuração, como os clubes holandeses, em geral, têm feito nas competições europeias. Só que vencer o Standard Liège, por 2 a 1, em casa, na segunda rodada, vitaminou o espírito da equipe. Deu a impressão de que, sim, se podia superar aquele mau momento, contra tudo e todos.

Mas como se sabe, no futebol dificilmente a vontade resolve alguma coisa sozinha. E Fred Rutten, o técnico pressionado, tratou de salvar seu pescoço, armando um esquema tático que trouxesse bastante auxílio à defesa. Mais do que segura e firme, a linha de quatro marcadores deveria ser ágil, para suportar um alto ritmo por 90 minutos. Isso bastou para que veteranos como Mathijsen, Boulahrouz e Luke Wilkshire passassem a ocupar o banco de reservas.

No lugar deles, entrou a vitalidade do lateral direito Rick Karsdorp, 19 anos. Os desempenhos promissores dos dois integrantes do miolo de zaga, Sven van Beek, 20 anos (que até já foi pré-convocado para a seleção principal, mas espera pela chance de fato), e Terence Kongolo, também 20 anos, que parece mais seguro após a convocação pouquíssimo notada durante a Copa. E a ajuda maior que tudo isso deu a Miquel Nelom, enfim ganhando uma sequência maior na lateral esquerda.

Mas acima de tudo, é preciso reconhecer a importância maciça que a chegada de Kenneth Vermeer deu à defesa dos Feyenoorders. Esperava-se certa oposição da torcida ao goleiro; afinal de contas, era alguém vindo do arquirrival Ajax, nascido e criado futebolisticamente em Amsterdã. Pois Vermeer calou no nascedouro eventuais críticas, impondo respeito insuspeito para um arqueiro de apenas 1,82m. E aprendeu a dosar melhor sua eletricidade, convertendo-a para tornar seus reflexos apurados. Sem dúvida, agora se compreende por que a diretoria do Feyenoord – e Fred Rutten – apostaram em tão polêmica transferência. Não à toa, o guarda-metas já voltou para onde pretendia: para as convocações da seleção holandesa.

A mutação da defesa – e a ajuda do meio-campo, com a agilidade de El Ahmadi, de volta ao clube após passagem pelo Aston Villa – resultaram em admiráveis 605 minutos sem gols sofridos, considerando Eredivisie e Liga Europa. No meio, Immers e Clasie ainda achavam espaço para ajudar o deficiente ataque. Porque para suprir a falta que Graziano Pellè faz, já foram tentadas muitas opções: adiantar Jens Toornstra para o ataque, usar os reservas Elvis Manu e Mitchell te Vrede na área, apelar para a velocidade de Boëtius… nada disso acabou com as lembranças do italiano. Tanto que o artilheiro da equipe na temporada, Te Vrede, é reserva. E o reforço trazido de última hora, Colin Kazim-Richards, já recebeu críticas até do técnico.

Mas já serviu para, mais do que levar o Feyenoord à terceira posição no Holandês, leva-lo à primeira classificação para a segunda fase de um torneio europeu em dez anos. Classificação cujos jogos finais da fase de grupos mostraram a renovação do espírito do time: um 2 a 0 empolgante em cima do Sevilla, que enlouqueceu a torcida em Roterdã, e um 3 a 0 categórico sobre o já eliminado Standard Liège. Agora, é sonhar com um sorteio acessível na Liga Europa, quem sabe reservando até um esperado Klassieker contra o Ajax.

No caso do AZ, John van den Brom também apostou na juventude. Como no Feyenoord, isso atingiu a defesa: o zagueiro Wesley Hoedt e o lateral esquerdo Ridgeciano Haps tornaram-se figuras costumeiras na escalação. Mas o destaque entre a garotada tem 18 anos e foi para o ataque. Já tido como promissor em suas atuações no time júnior, o atacante Dabney dos Santos Souza (não, não é parente do colunista, mas holandês de ascendência cabo-verdiana, jogador da seleção sub-19) começou a frequentar os profissionais na Eredivisie. Em apenas cinco jogos, já marcou um gol.

Todavia, o caso da melhora dos Alkmaarders deve-se mais à pacificação do ambiente com a chegada de Van den Brom e a consolidação de seu trabalho. Tanto que jogadores importantes do elenco, como Nemanja Gudelj e Guus Hupperts, recuperaram um nível razoável em suas atuações. Além, é claro, da volta de Áron Jóhannsson, que andou lesionado, mas já retomou o papel de referência no ataque. Com o auxílio de reforços como os atacantes Muamer Tankovic e Robert Mühren, já bastou para uma sequência de quatro vitórias no Holandês.

E assim, Feyenoord e AZ se encontram no próximo fim de semana. Para definirem quem está mais perto, por assim dizer, de PSV e Ajax, que seguem como os principais concorrentes ao título. E para celebrarem a melhora que parecia tão longe.

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