Holanda

Feyenoord teme volta de velhos tempos dentro de campo

Ah, a Copa da Holanda… o paraíso das zebras, o local onde clubes amadores podem sonhar com o protagonismo (embora somente cheguem a ele de forma fugaz), enfim, o local onde o futebol holandês é mais futebol holandês. E os jogos da segunda fase já tiveram alguns resultados esdrúxulos. Como o ADO Den Haag caindo, nos pênaltis, para o Almere City, da segunda divisão – e sem acertar cobrança alguma! Ou o placar de futsal que foi De Dijk (amador) 4×7 Fortuna Sittard (segunda divisão), jogo tumultuado, com direito a ofensas racistas da torcida e tudo.

Só que clubes grandes só cometem tais vexames nas primeiras fases do torneio caso façam muita força para isso. Mas muita força. De modo que as partidas servem até para essas equipes darem chances de jogo aos reservas, sem correrem riscos por causa disso. Foi o caso agora. O Ajax fez um “jogo-treino de luxo” contra os amadores do JOS Watergrafsmeer, aplicando 9 a 0 – com direito a seis gols (repita-se: seis gols) do polonês Arkadiusz “Arek” Milik, que igualou Luis Suárez: o uruguaio foi autor de meia dúzia de tentos na Copa da Holanda 2009/10, contra o WHC, nas oitavas de final.

O PSV também passou pelo Utrecht sem sustos. AZ, Twente, o atual campeão Zwolle: todos eles estarão nas oitavas de final. O único grande que falhou no teste foi… o Feyenoord, que caiu para o Go Ahead Eagles (0 a 1). E só avolumou o mau começo de temporada que está tendo. Nos últimos nove jogos, unindo todas as competições em que está, o Stadionclub obteve apenas uma vitória. Já são 285 minutos sem marcar gols. E quatro derrotas seguidas.

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O azar tem sido tanto que o clube maior de Roterdã perde até as partidas que não merece. Foi o caso do clássico contra o Ajax, pelo Campeonato Holandês, no último domingo. Já nos primeiros minutos, a pressão exercida no De Kuip foi irrespirável, incluindo três bolas na trave de Cillessen e tudo o mais. De nada adiantou, já que a cobrança incrível de falta feita por Van Rhijn foi parar nas redes.

Esperava-se, mesmo assim, pelo empate do Feyenoord. E seria muito merecido. Só que Kazim-Richards perdeu gol incrível, já no fim do primeiro tempo. Na etapa complementar, Cillessen ainda fez duas defesas magníficas, e Mitchell te Vrede perdeu outra boa chance, já no final da partida. Resultado: os Ajacieden puderam comemorar o 1 a 0 fortuito na casa do arquirrival, alcançando a segunda colocação na Eredivisie e somente atrás do PSV, outro rival. Já o time da casa amargou a queda para a 15ª posição.

Restou à delegação do Feyenoord apenas lamentar a péssima sorte de um jogo em que foram melhores, como até Frank de Boer admitiu. Jordy Clasie descreveu: “No intervalo, podíamos estar com 2 a 1, ou 3 a 1. Fomos realmente superiores ao Ajax. Estávamos em ótima forma. Em todo o jogo, eles só criaram uma chance de gol. Raramente estiveram perto da área”.

Mas talvez a frase lacônica do técnico Fred Rutten seja mais correta e apropriada para iniciar uma tese: “É puro azar?”. Provavelmente, não. O Feyenoord melhorou nas últimas partidas. Perder por 2 a 0 para o Sevilla, na estreia pela fase de grupos da Liga Europa, não é nenhuma vergonha – até porque são os Rojiblancos os atuais campeões continentais. Só que é inegável: há muito a consertar na equipe.

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As perdas de Janmaat, De Vrij, Martins Indi e Pellè foram bem mais sentidas do que se esperava. Eram previstas, mas a categoria de base do Feyenoord anda vivendo grandes tempos, e pensava-se que alguma das revelações poderia engrenar imediatamente. Elvis Manu, por exemplo, enfim incluído no elenco após ser emprestado algumas vezes, foi o autor do gol da vitória no 4 a 3 sobre o Zorya Lugansk ucraniano, na volta dos play-offs pela Liga Europa – quando o clube correu risco de eliminação vexatória (com 1 a 1 na ida, time vencia por 3 a 0 em Roterdã, deu o empate ao adversário e Manu só fez o gol aos 46 minutos do segundo tempo).

Não foi o que aconteceu. E nem os mais experientes renderam tudo o que podiam. Mesmo Clasie, que voltou valorizado da Copa, anda jogando abaixo da capacidade, até por sua lesão. Lex Immers, querido pela torcida e dono de maior força física na transição para o ataque, anda apagado. Vilhena até deixou de ser titular. No ataque, Boëtius nem parece o sujeito que esteve a um passo de estar na Copa. E o reforço Colin Kazim-Richards, apesar de ser um pouco mais experiente, não tem mostrado habilidade para virar o homem-gol que Pellè era (e começa a ser no Southampton, diga-se de passagem).

A defesa também está inconstante demais. Os jogadores não são ruins: não bastassem Kongolo e Nelom, Sven van Beek e Rick Karsdorp têm desempenhos promissores no miolo de zaga. Só que Fred Rutten não sabe se coloca Nelom ou Kongolo na lateral esquerda (cada um fez três partidas); o reforço Boulahrouz ainda está se recompondo, após lesão, e fica na reserva; Mathijsen fez cinco partidas, mas não é absoluto… o único sujeito firmado na linha de quatro defensores é o australiano Wilkshire, que fez todos os jogos na lateral direita. Não impressiona a polêmica contratação de Vermeer, para trazer mais confiança à torcida na defesa – mesmo que seja em detrimento do correto goleiro que é Mulder.

Então a torcida do Feyenoord deve temer uma volta aos tempos duros do final da década passada, quando caiu para o meio da tabela, era constantemente desmoralizado em campo, via turbulências internas etc? De maneira nenhuma. Em campo, a situação anda inconstante, há quem já faça alarme com a situação de Fred Rutten, mas bastará uma escalação mais constante para dar mais confiança à equipe. E fora dele, o dinheiro vindo das transferências resultou na paz financeira que o Stadionclub há muito esperava. Hoje, o clube nada deve.

Agora, chegou a hora de pensar: importa mais ter dinheiro a perder de vista no caixa ou fazer um time forte para enfim acabar com o jejum de 15 anos sem títulos holandeses? O comportamento na janela de transferências foi preocupante, com a demora em repor as perdas. Agora, com o elenco formado, resta dar mais confiança. As pré-convocações de Van Beek e Vermeer para a seleção holandesa que disputará a próxima rodada das eliminatórias da Euro 2016 traz a sensação de que há luz no fim do túnel. Falta voltar a ganhar partidas. É só e é tudo.

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