Feyenoord começou bem, mas terá grande teste no clássico

No início do Campeonato Holandês da temporada passada, muitos ainda davam o Ajax como grande favorito. Afinal de contas, os Ajacieden eram tetracampeões, e mostravam um estilo de jogo soberano na Eredivisie. Já o PSV passara por uma reformulação ao longo de 2013/14, e era uma incógnita. Mesmo tendo vencido as duas primeiras partidas, não recebia muita atenção. Isso mudou a partir do clássico entre as duas equipes, logo na terceira rodada da liga. Com a vitória categórica por 3 a 1, em plena Amsterdam Arena, os Eindhovenaren afirmaram ali o favoritismo ao título que depois conquistaram.
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Pois bem: com certas diferenças, esta é a situação atual do Feyenoord. Ao lado do arquirrival Ajax, o time de Roterdã é o único a não perder pontos na Eredivisie 2015/16: três jogos, três vitórias. E só não lidera o campeonato pelo saldo de gols, menor que o dos Ajacieden (até porque estes sequer sofreram gols na temporada). Todavia, o Stadionclub não recebe muita atenção. E só a terá caso vença o clássico contra o PSV, fora de casa, neste domingo, pela quarta rodada. De certa forma, a desconfiança se justifica. Ainda vive na memória da torcida e da imprensa a queda brusca na temporada passada, quando a vaga nos play-offs da Liga Europa parecia garantida, mas o Feyenoord terminou sem nada.
E os motivos para ter um pé e meio atrás não são só esses. Basta lembrar que a equipe já está há 16 anos sem conquistar títulos nacionais. E desde que se recompôs internamente para voltar ao topo no futebol holandês, há cerca de três anos, o clube ensaia disputar mais seriamente o título nacional, mas sempre refuga em duelos decisivos. Por exemplo: em 2013/14, o time voltou da pausa de inverno decidido a partir com tudo para alcançar o líder Ajax. Tinha qualidade para tanto. Graziano Pellè não parava de marcar; Jordy Clasie, Lex Immers e Tonny Trindade de Vilhena formavam bom meio-campo; e a defesa tinha Stefan de Vrij e Bruno Martins Indi bem entrosados.
Só que bastou uma sequência ruim, com dois empates e uma derrota, para que a equipe se afastasse definitivamente da disputa pela Eredivisieschaal. A desilusão foi tamanha que o então treinador dos Rotterdammers, Ronald Koeman, anunciou que deixaria o clube, desmotivado para renovar contrato exatamente por causa da falta de firmeza em momentos decisivos.
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De fato, é estranho se falar em apequenamento. Afinal de contas, trata-se do primeiro clube holandês a conquistar um torneio continental (a Copa dos Campeões 1969/70) e o Mundial Interclubes (em 1970) – a Trivela até comentou sobre isso, em 2010. E também do último clube do país a trazer uma taça europeia para casa, a Copa Uefa 2001/02. É bem certo que fatores como a marcante goleada por 10 a 0 sofrida para o PSV, na Eredivisie 2010/11, enfraqueceram a fama do time no exterior. Mas é inegável: sobram motivos para o Feyenoord ser considerado um clube tradicional na Europa.
Exatamente para evitar acanhamentos e decepções é que o time já começou com nível alto de exigência. Nem era para ser assim, já que Giovanni van Bronckhorst teria sua primeira experiência treinando uma equipe profissional. Mas o péssimo final da temporada passada trazia a necessidade de dar satisfações à torcida, uma das mais fanáticas da Holanda (para o bem e para o mal).
Por enquanto, a equipe tem feito isso. Fora a saída de Clasie, rumo ao Southampton, nenhum jogador considerado imprescindível deixou De Kuip (mesmo Jean-Paul Boëtius, que foi para o Basel, já não era titular absoluto). O que favoreceu a formação de uma base ainda sólida e entrosada. No gol, há Kenneth Vermeer, presença constante na seleção holandesa; entrosada em torno de Terence Kongolo, a defesa tem várias promessas, como o lateral direito Rick Karsdorp e o zagueiro Sven van Beek; no meio-campo, Karim El Ahmadi e Immers dão o toque de experiência; e no ataque, junto a Jens Toornstra, Colin Kazim-Richards vinha sendo a referência.
“Vinha sendo” é bem apropriado, aliás, ao se falar do turco de ascendência inglesa. Porque não só ele é questionado desde a temporada passada, pela falta de pontaria, mas deixou de ser preponderante desde a volta de Dirk Kuyt a Roterdã. Exatamente por sua experiência, seu papel de ídolo no clube e o conhecido esforço que deixa em campo, Kuyt chegou com tapete vermelho estendido. Titularíssimo, não se acanha em horas difíceis. Até por isso, seus três gols já marcados na temporada foram de pênalti, resolvendo jogos arriscados – como a estreia, com um 3 a 2 sobre o Utrecht, e a vitória por 2 a 0 sobre o Vitesse, na terceira rodada.

Já Kazim-Richards está ainda mais acossado por uma nova contratação: Michiel Kramer, vindo do ADO Den Haag. Prova disso foi o jogo contra o Cambuur, na segunda rodada. Ao perder uma perigosa chance de gol, daquelas imperdíveis, no segundo tempo, Kazim foi quase imediatamente substituído por Kramer – terceiro goleador da Eredivisie passada, com 17 gols, somente atrás de Luuk de Jong e Memphis Depay. O substituído foi para o banco praguejando; quem entrou… fez o primeiro gol do jogo, aos 32 minutos do segundo tempo. Desde então, embora Kazim-Richards siga titular, não falta quem peça a efetivação de Kramer na frente, junto a Kuyt e Bilal Basaçikoglu.
De certa forma, Kramer também simboliza a ótima atuação do Feyenoord na janela de transferências. Se faltam jogadores mais tarimbados na defesa, a chegada do brasileiro Eric Botteghin possibilita até a adoção do 5-3-2, experimentado por Van Bronckhorst na primeira rodada, além do 4-3-3 habitual no time. No meio, Marko Vejinovic é jogador de nível mais do que adequado para os padrões da Eredivisie, e pode manter o padrão que Clasie tinha. No ataque, embora tenha decepcionado fora da Holanda, Eljero Elia tem experiência, o que pode ajudar a desenvolver garotos como Anass Achahbar e Basaçikoglu – promissores a ponto do clube estar dispensando Elvis Manu, até mais usado no time titular.
Tudo muito bom, tudo muito bem. O Feyenoord parece um time maduro para buscar o fim do jejum no Campeonato Holandês. Mas ainda há justificadas dúvidas sobre ele. Uma vitória sobre o atual campeão PSV ajudaria a diminuí-las, aumentando a sensação de que “agora vai”. De verdade.



