Holanda

Ajax já mudou para se salvar. E mudará ainda mais

Qualquer pessoa que esteja acostumada a jogar futebol, seja em alto nível ou num jogo semanal com amigos e/ou colegas de trabalho, sabe: em caso de presença adversária forte no ataque, só se sai da defesa com bola dominada em caso de absoluta confiança no próprio taco. Daley Sinkgraven, atacante do Ajax, ” no jogo de volta da terceira fase preliminar da Liga dos Campeões, contra o Rapid Viena. Errou. E a má organização defensiva dos Ajacieden permitiu ao time austríaco abrir caminho para a classificação, com o gol de Robert Beric.

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Mais do que representar um novo vexame, ou mesmo simbolizar a fragilidade crescente do Ajax frente às janelas de transferências, a queda na Liga dos Campeões pôs a nu as falhas gritantes na montagem da parte defensiva do time de Frank de Boer. E o ” vienense, de Louis Schaub, reforçou essas falhas: um bando de defensores indo para onde a bola fosse, permitindo ao atacante fazer a fila até o chute – que ainda desviou em Joël Veltman antes de entrar, como “grand finale” do péssimo posicionamento.

Foi justamente essa a principal lamentação dos jogadores do Ajax ao deixar o gramado da Amsterdam Arena, há duas semanas. O capitão Davy Klaassen criticou: “É inacreditável. Sofremos dois gols no primeiro tempo, daí conseguimos voltar bem ao jogo, e aí entregamos de novo. Eu não tenho palavras. Isso aqui não é um bate-bola com colegas de escola, é jogo para homens. Não precisamos jogar bonito, precisamos dos pontos”.

E é justamente o que o Ajax tem feito neste início de temporada: tentar jogar de modo mais conservador, apenas para garantir as vitórias e ter mais tranquilidade no Campeonato Holandês e na Liga Europa. Não que esteja agradando a torcida, que até faz piadas, com perguntas como “Qual a novidade? [O time] já joga feio há pelo menos dois anos…”. Mas pelo menos está obtendo os resultados.

Na Eredivisie, foram duas vitórias em dois jogos, sem gols sofridos. E nesta quinta, a equipe conseguiu vencer o Jablonec, da República Tcheca, nos play-offs rumo à fase de grupos da Liga Europa (1 a 0). O que não quer dizer que as coisas estejam perfeitas. Na liga, os dois triunfos deveram-se mais ao bom início de El Ghazi, Milik e Gudelj do que à resistência da defesa. Afinal, AZ e Willem II revelaram-se times incapazes de aproveitarem as chances, e até mais frágeis na defesa.

Aliás, merece parêntese o caso dos Alkmaarders, que sofrem de mal semelhante ao dos Amsterdammers. Na Eredivisie, o AZ já tem uma das piores defesas (5 gols sofridos em dois jogos, como o Twente – só o De Graafschap sofreu mais, 6). E nos play-offs da Liga Europa, fora de casa, nesta quinta, abriu 2 a 0 na ida contra o Astra Giurgiu romeno… e tomou uma virada inacreditável para 3 a 2, ainda no primeiro tempo.

Voltando ao Ajax, o símbolo da necessidade de maiores cuidados defensivos é o citado Veltman. Qualidades técnicas não faltam ao zagueiro: esteve na Copa do Mundo, é convocado frequentemente para a seleção holandesa, já tem alguns belos gols (como os dois que fez na Eredivisie passada, contra Dordrecht e Willem II)… mas, ora bolas, exatamente por confiar demais em sua habilidade é que falha na principal atribuição de um zagueiro: evitar gols adversários.

E falha tanto que foi o único a receber reprimenda direta de Frank de Boer, à emissora holandesa de tevê SBS, momentos antes do desastre contra o Rapid Viena: “Veltman precisa saber em que momentos da partida ele pode sair jogando. Dissemos a ele que isso [as falhas] não pode acontecer neste nível. A mentalidade de Joël precisa mudar”. Como se viu, não mudou. Até por isso, houve a contratação de John Heitinga, que seria o “veterano” a apresentar os caminhos a um time predominantemente jovem.

Entretanto, até surpreendentemente, Heitinga tem ficado no banco de reservas. Enquanto isso, ao lado de Veltman, Jaïro Riedewald tem até agradado na zaga: mostra habilidade para sair jogando, mas é um pouco mais conservador. Trocando em miúdos, Riedewald sabe fazer aquilo que Frank de Boer pede a Veltman, ou seja, sair jogando com mais segurança. Mesma capacidade que mostra o volante Riechedly Bazoer, destaque Ajacied no início da temporada. Exibindo capacidade para desarmar e sair com a bola, Bazoer agrada a tal ponto que Danny Blind já o observa com carinho, para futuras convocações da seleção holandesa.

O problema é que a preocupação no toque de bola é tamanha, no Ajax, que até mesmo um simples cuidado na marcação é negligenciado. Prova disso são as laterais. Na esquerda, Mitchell Dijks foi contratado exatamente para melhorar a marcação (e até consegue isso, por enquanto). Na direita, enquanto Ricardo van Rhijn se recupera de uma lesão, quem recebe oportunidades é Kenny Tete, 19 anos. Que apresenta a mesma coisa de antecessores na posição, como o próprio Van Rhijn e Van der Wiel: um foguete veloz no apoio, com tendências a ser uma “avenida” na marcação.

E essas pequenas falhas continuam ameaçando o Ajax. Prova disso foi vista no jogo contra o Jablonec. Não só o ataque negou fogo na criação (tanto que o gol de Milik foi de pênalti), como a defesa ainda deu espaço para contra-ataques constantemente perigosos. Ainda assim, Frank de Boer ficou satisfeito, em entrevista à FOX Sports: “Não foi bonito, mas foi um ótimo resultado. Precisamos perceber que não se pode sempre jogar com bola de pé em pé contra times assim. Talvez só uns quatro times no mundo podem encurralar um adversário assim. Então, é necessário fazer diferente. É preciso ser mais oportunista”.

Enquanto o Ajax continuar aproveitando as oportunidades, tanto no Holandês quanto na Liga Europa, a crítica da torcida será menor, e maiores serão as chances (já pequenas, convenhamos) de o time cumprir o objetivo do técnico na competição continental, alcançando as semifinais. O problema é que a defesa precisa colaborar. E ainda falta um bocado até isso ocorrer.

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