Champions League 2026/27Holanda

Cuide da sua vidraça

Em 1978, a seleção brasileira de vôlei masculino disputava o Mundial, na Itália. Na segunda fase, enfrentava os donos da casa. Partida difícil, já no tie-break. A 
vitória estava próxima: 14 a 10. No entanto, com ajuda da arbitragem em dois lances, os italianos conseguiram virar para 17 a 15, e venceram o jogo – terminariam aquele 
Mundial como vice-campeões, enquanto os brasileiros ficariam na sexta posição. 

Então, jogadores e comissão técnica do Brasil pediram ao presidente da Confederação Brasileira de Vôlei que fizesse um protesto oficial contra o resultado. E o 
mandatário da entidade, um advogado carioca chamado Carlos Arthur Nuzman, repeliu prontamente os pedidos, com a frase: “14-10 numa negra, tem que fechar, doutor! O 
cara não pode roubar seis vezes. Se jogar melhor, não tem juiz que te prejudique, que vire um resultado.”

Pois bem: essa história reflete perfeitamente como deve ser encarado o desastroso 7 de dezembro, em que o Ajax viu uma vaga bem próxima nas oitavas de final da Liga dos 
Campeões ser perdida de modo desastroso. Porque o time de Frank de Boer deve culpar, primordialmente, a própria incompetência, ao não conseguir um bom resultado contra o 
Real Madrid. É isso que deve ser feito, antes de reclamar dos dois gols legais anulados, ou do extravagante 7 a 1 que o Lyon conseguiu sobre o Dinamo Zagreb.

Obviamente, os gols de Lodeiro e Sulejmani que o árbitro português Manuel de Sousa invalidou prejudicaram o espírito ofensivo com que os Ajacieden iniciaram a partida 
da última quarta-feira. Ambos foram frutos de má colocação do auxiliar – na bola que o uruguaio colocou nas redes, João Santos estava um pouco atrás da linha onde a 
jogada se desenvolveu. Sem dúvida, fatos como esses abalam o ímpeto de uma equipe que já estava atrás no placar.

E a eliminação é ainda mais doída porque o Ajax experimenta alguma evolução na Eredivisie. Venceu nas duas últimas rodadas (3 a 0 no NEC e 4 a 1 no Excelsior) e 
mantém alguma esperança de acabar com a distância de oito pontos para o líder AZ – que empatou em 0 a 0 com o Excelsior, também na quarta passada, no segundo tempo que 
completou partida interrompida. Melhor ainda é que um novo fruto da De Toekomst já mostra a que veio: o atacante Davy Klaassen fez gol na sua primeira partida entre os 
profissionais, contra o NEC. Aliás, Klaassen até entrou contra o Real Madrid. 

No entanto, não há como atribuir a eliminação do Ajax apenas aos azares externos. Reclamar de suposta má fé do quinteto de arbitragem ou sugerir que o resultado que 
classificou o Lyon foi manipulado não passa de suspeita típica de torcedor, por enquanto. A Uefa já revelou que não notou padrões anormais de apostas no jogo de 
Zagreb, o que torna quase nulo o efeito da carta que o diretor interino Martin Sturkenboom enviou à entidade com críticas a respeito do jogo. Pior: insistir em 
teorias da conspiração torna-se uma coisa chata, que esconde as falhas do clube.

Sim, falhas do clube, não só do time. Porque, justamente na quarta-feira em que os Godenzonen jogavam seu futuro na LC, havia uma reunião entre a ala liderada por 
Johan Cruyff e vários treinadores da base (um grupo que inclui Bergkamp, Jonk, Ronald de Boer, Bryan Roy, Stam…) e os quatro membros do Conselho Deliberativo que 
decidiram a contratação de Louis van Gaal como diretor técnico. Tudo mediado pelo diretor técnico atual, Danny Blind, e Martin Sturkenboom. O que só continuará um 
imbróglio que está tendo desdobramentos na justiça. E que não passa de uma guerra de egos, que não tem santos.

Em campo, se até merecia ter gols marcados pelo vigor ofensivo demonstrado no primeiro tempo, o Ajax mostrou-se preguiçoso na etapa final. E a defesa cometeu o 
primarismo de levar os três gols em jogada semelhante: lançamento pelo alto, em que a linha de impedimento não funcionou, deixando Higuaín e Callejón em condições 
plenas para fazer o 3 a 0. Sim, ainda que fosse misto, o Real Madrid é melhor do que o Ajax. E a inabilidade do futebol holandês na defesa já é conhecida. Mas nada disso 
é desculpa. Repetir o mesmo erro três vezes é incompetência pura.

Enfim, o único lado bom da derrota do Ajax é o fato de que a Holanda deverá ter, no mínimo, três representantes na segunda fase da Liga Europa. Repita-se: antes de 
atirar pedras sobre qualquer fator externo, o time de Amsterdã deve avaliar a vidraça dos próprios erros. Parafraseando o que Carlos Arthur Nuzman falou em 1978: 
3 contra -4 de saldo, tinha de se classificar, doutor.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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