Holanda

Conclusões superficiais no congresso da federação holandesa

Vez por outra, o jornalista Paulo Vinícius Coelho costuma comentar o que a federação holandesa de futebol realizou em janeiro de 1986, para ressaltar a necessidade de processo semelhante no futebol brasileiro. Naquela oportunidade, derrotada pela Bélgica na repescagem das eliminatórias, a Holanda estava fora de mais uma Copa do Mundo. Então, os técnicos dos times do Campeonato Holandês foram convidados para um congresso, onde debateriam em que o futebol do país deveria melhorar, junto do técnico (demissionário) da Laranja, Leo Beenhakker, e do diretor técnico da federação, Rinus Michels. Como não poderia deixar de ser, um dos principais debatedores foi Johan Cruyff, então iniciando a carreira de treinador no Ajax.

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O grande ponto de discórdia foi quando, após o primeiro dia de debates, jornais holandeses divulgaram que os técnicos de PSV, Groningen, Utrecht e Ajax – ou seja, ele – estavam de acordo sobre os rumos a serem tomados. No livro “Ajax, Barcelona, Cruyff: the ABC of an obstinate maestro” (Ajax, Barcelona, Cruyff: o ABC de um comandante obstinado), coletânea de entrevistas aos jornalistas holandeses Henk van Dorp e Frits Barend, veio o relato da engrossada de Cruyff: “Li que estamos todos de acordo e levei um susto. Só estamos de acordo no fato de que não há uma maneira única de as coisas serem feitas. Somente nisso”. Foi apenas uma das várias discórdias que o congresso teve. Seja como for, em algo resultou: dois anos depois, em 1988, a Holanda ganhava a Eurocopa.

28 anos depois, a federação holandesa repetiu a ideia do congresso, como a coluna comentou há duas semanas. Nos mesmos moldes: com todos os técnicos da Eredivisie, mais diretores técnicos, ex-jogadores, técnicos etc. Na última segunda-feira, os debates foram até o final da tarde (início dela, no horário brasileiro), no evento realizado em Utrecht, no estádio Galgenwaard. Só que o resultado divulgado à imprensa decepcionou.

De certa forma, deu razão a Bert van Marwijk, uma das únicas personalidades que declinou do convite, dizendo que o encontro “não fazia sentido”. Grande entusiasta da ideia, Bert van Oostveen, diretor de futebol profissional da KNVB, revelou apenas gigantescas obviedades à imprensa, terminadas todas as palestras. Pior ainda: tais obviedades esconderam questões importantes que o futebol holandês precisa encarar de frente.

As obviedades foram duas: resolveu-se que o futebol holandês precisa desenvolver uma mentalidade vencedora, e que ele não pode deixar de lado a sua identidade. Segundo Van Oostveen, único porta-voz dos conceitos trazidos pelo congresso, o primeiro ponto foi exposto por Toon Gerbrands, diretor geral do PSV. O próprio Gerbrands o explicara no dia anterior: “Se fôssemos resumir o congresso numa frase, ela seria ‘temos um dilema entre ensinar e vencer’. Para ensinar, são necessários paciência e um desejo de vencer, uma mentalidade de ‘só passarão por cima do meu cadáver’. Vencer também é aprender, mas nós perdemos isso um pouco de vista. Espero que possamos dizer que isso [o congresso] foi um ponto de partida”.

A necessidade da Holanda ter uma mentalidade mais vencedora é algo claro desde 1974 para a maioria das pessoas que acompanham futebol. O conceito básico diz que a Holanda tem uma seleção historicamente respeitável, podendo até ser considerada a maior nação do mundo do futebol sem títulos mundiais, mas cujo poder de decisão em horas agudas é baixo. E é preciso reconhecer: talvez esta mentalidade vencedora já tenha começado a aparecer nos jogadores holandeses.

A recente Copa do Mundo foi um grande exemplo disso. Mesmo quando enfrentou dificuldades – e isso ocorreu muitas vezes: basta citar os jogos contra Austrália e México, para dar apenas dois exemplos -, a Holanda não esmoreceu. Continuou paciente, à espera da oportunidade para chegar à vitória. Novamente não ganhou a Copa, mas mostrou um crescimento psicológico admirável. Já visto, aliás, em 2010. Ou seja, além de um problema óbvio, a tal da “mentalidade de vencedor” está bem mais próxima do futebol holandês do que se pensa.

Mas a outra obviedade que saiu de Utrecht traz um caminho mais perigoso. Auxiliar de Guus Hiddink na seleção, Danny Blind lembrou: “Não temos o espírito de luta dos alemães, a paixão dos ingleses e a garra dos espanhóis e dos italianos. Dentro do futebol, somos os descobridores, os inventivos”. Todos estereótipos batidos, chavões falados à exaustão. Mas o pior é que eles já caíram em desuso. Porque, hoje, a Holanda não é mais inventiva. Se a Oranje já mostra esquemas diferentes há certo tempo, o Campeonato Holandês mostra um marasmo tático.

Na Eredivisie, absolutamente todos os 18 times atuam no velho e não tão bom 4-3-3 com dois pontas. Pior: a ofensividade que esse esquema tinha no passado já não é mais visível hoje em dia. E ela nem vem mais da Holanda. Falar em futebol ofensivo, hoje, é lembrar os meio-campistas “multiuso” da Alemanha campeã mundial; é falar de Pep Guardiola e sua sabedoria em desenvolver funções até impensadas dos jogadores; é falar de Marcelo Bielsa e a capacidade de manter uma marcação por pressão constante em seus times – coisa que Jorge Sampaoli conseguiu manter, na seleção chilena.

Como disse Ricardo Moniz, técnico holandês com alguns trabalhos no futebol alemão (trabalhos bem apagados, diga-se), “a escola holandesa está morta”. Talvez “morta” seja um termo forte demais, mas que há uma perigosa estagnação, há. Abordagens táticas interessantes, como o 4-2-3-1 de Marco van Basten na Euro 2008 (e aperfeiçoado por Bert van Marwijk na Copa de 2010) ou o 5-3-2 de Van Gaal, são vistos apenas como apêndices, remendos temporários no que se supõe ser o caminho da ofensividade suprema rumo à glória. Verdade que é bem melhor para a Holanda ter uma pretensão tática histórica, uma intenção clara, não se despersonalizar como a maioria das seleções africanas e, vá lá, a Seleção Brasileira. Mas adotar caminhos dogmáticos e sectários também não costuma levar a lugar nenhum.

Enfim, a Holanda perdeu um congresso inteiro na discussão de obviedades. Perdeu dois pontos importantes: qual o caminho a seguir, agora que está aprendendo a cuidar da defesa, e como fazer para harmonizar as capacidades defensivas crescentes e a ofensividade de que o futebol holandês tanto gosta? Nada se discutiu de prático. E o símbolo disso foi Johan Cruyff deixando o congresso ainda durante a realização dele: “Eu disse o que precisava dizer, e todos precisam ver o que farão com isso”. Pelo menos desta vez, ninguém viu. A chance foi perdida.

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