O River Plate decidirá a Libertadores pela terceira vez em cinco anos em 2019. Campeão nas duas vezes anteriores, o time de Marcelo Gallardo terá pela frente um time de qualidade como não enfrentou nas outras vezes, nem mesmo contra o ótimo time do Tigres, em 2015. O Flamengo oferecerá um desafio técnico grande, vem jogando muito bem e, não por acaso, é também líder do Campeonato Brasileiro com folga. O treinador do River Plate foi perguntado sobre o adversário na final e fez elogios ao time brasileiro comandado por Jorge Jesus, mas também ressaltou a experiência que seu River possui nesta fase da competição, algo que o Flamengo não vive há 38 anos.

“Vão se enfrentar duas equipes muito boas. Merecem estar na final. O Flamengo foi de menor a maior, se viu contra o Grêmio. Vinha mostrando coisas positivas. Nem sempre teve a possibilidade de jogar assim. Sofreu com o Emelec [nas oitavas de final]. Hoje está em um momento muito bom, líder do seu torneio e finalista da Copa [Libertadores]. Os dois apostam em algo atrativo”, analisou o treinador do River Plate.

O Flamengo voltou à final da Libertadores depois de 38 anos. A última vez foi justamente quando o rubro-negro venceu a competição, em 1981, com o time de Zico, que marcaria época. Nesse aspecto, o treinador do River Plate ressaltou que o seu time tem sido frequente nos momentos decisivos da principal competição de clubes do continente.

“Veremos como eles irão reagir. Há outras coisas na final que jogam. Estamos acostumados a jogar esses jogos e para o Flamengo será a primeira vez [do atual elenco]. A experiência nas fases decisivas pesa”, afirmou o treinador.

Situação do Chile

O Chile vive uma convulsão social, com muitos protestos nas últimas semanas e uma situação política tensa. Há dúvidas para a realização da final em Santiago, embora o governo chileno e a Conmebol sigam afirmando que o plano segue o mesmo, para jogar no Estádio Nacional no dia 23 de novembro. Parece ser difícil garantir isso. “Me preocupa a situação do Chile. Esperamos que possa resolver-se em paz por seu país e seu povo e para ter certeza de onde vamos jogar. Esperamos que essa situação possa se resolver”, declarou o treinador.

Os confrontos com o Boca

O treinador falou também sobre mais uma vitória diante do Boca na Libertadores, algo que se tornou constante nos últimos anos – em 2015 e 2018, quando o time foi campeão, e em 2019, para chegar a mais uma final.

“Eu desfrutei a classificação. Não foi fácil a série, não ia ser fácil. Não foi fácil na Bombonera. Não conseguimos jogar o nosso jogo pela abordagem do Boca, por coisas que aconteceram e eu não gostei. Não pudemos fazer o nosso jogo, mas não quer dizer que não pensamos nisso. Hoje [nesta terça, contra o Colón] retomamos. Na série com o Boca, eliminando e voltando a estar em uma final, me dá uma alegria enorme. Não é fácil”, contou.

“Não é que naturalizamos, aconteceu de maneira especial nos últimos anos. Tivemos essa possibilidade de poder não apenas estar presente na competição internacional, mas também eliminar o Boca várias vezes. O torcedor reconhece e sente isso, vive isso com satisfação. É algo que não acontece todos os dias. As pessoas gostam”, afirmou o treinador.

Um ponto que se ressalta do time é a fome dos jogadores em seguirem vencendo, o que torna o time ainda mais competitivo. “Isso é algo que fala bem destes jogadores, que trabalham conscientes do que acreditamos, do que somos. De uma maneira de sentir e não relaxar, muito normal depois de uma grande vitória. Acontece no futebol argentino, nos humanos. Temos que seguir potencializando o que conseguimos, a exigência é permanente. Se você não aproveita, haveria a tendência a cair. Eles sentem que lhes dá prazer jogar desta maneira, insistir e não relaxar”, afirmou Gallardo.

A forma de desfrutar o jogo

“Muñeco”, apelido do treinador, é conhecido por sua seriedade e a forma como trata os jogadores com pulso firme, mas também sempre entendendo os jogadores. Por isso, depois da vitória sobre o Colón pelo Campeonato Argentino, nesta terça-feira, ele foi perguntado se consegue aproveitar os bons momentos e as vitórias.

“Eu desfruto. Às vezes, desfruto sozinho e tranquilo quando temos esses momentos. Em geral, quando estou em atividade nas partidas, vivo com tensão. E assim percebi que nas partidas não tenho a possibilidade de relaxar. Estou em permanente observação. Mas há momentos que eu desfruto na minha casa”, respondeu o treinador, que foi elogiado por Pep Guardiola, que considera que ele deveria estar na lista de indicados a melhores técnicos do mundo.

“Eu vivo as partidas dessa maneira, não tenho tempo para relaxar. Menos nas partidas, eu vivo com tensão e paixão. Vejo e compreendo alguns técnicos que andam de um lado para o outro, gritam. Eu vivo mais por dentro e às vezes aparece. Depois, chego em casa e trato de relaxar e desfrutar o que fiz. Mas trato de desfrutar, se não, não teria sentido. Vivo disto, eu gosto. Me apaixona. Não poderia viver de outra maneira. O dia que não sentir assim, tomarei um descanso”, afirmou Muñeco.

Pressão sobre os treinadores

O mais badalado treinador da América do Sul no momento falou sobre a pressão que vivem os treinadores. “Sim, eu falei algo esta semana com relação a isso. Não por causa de Gustavo [Alfaro, treinador do Boca Juniors], mas em geral. Nós, treinadores, vivemos com tensão e pouca paciência, estamos ligados em resultados de forma permanente. Em alguns clubes, é difícil, te expõe de outra maneira. Nestes clubes, há realidades diferentes e há impaciência dos torcedores, dirigentes. E muitas vezes te submetem a provas permanentes. O importante é que se sinta bem consigo mesmo, confortável e expressar como se sente. Convivemos permanentemente com resultados. Quem não entender dessa maneira é difícil se sustentar”, analisou o treinador.

“Vivemos na Argentina e é uma profissão ingrata, depende de resultados. A paciência e urgência faz com que nem todos possam se sustentar sem conseguir resultados. Com essa histeria que existe, faz com que as poucas derrotas e não há paciência e o técnico é colocado em julgamento. É complexo”, analisou Gallardo.

“Somos uma ilha dentro do futebol argentino. É preciso alinhar os planetas para que aconteça. Endentemos todas as partes com o mesmo objetivo. Não vou ser hipócrita, eu me sustento com os resultados. Depois da eliminação contra o Lanaús [na Libertadores de 2017] e quando jogamos contra o Boca na Supercopa, se dizia que estava no final do ciclo. Não temos que ser ingratos. Se tivéssemos perdido, muitos iam nos querer fora. Somos uma ilha porque ganhamos. Se não ganha, o barco enche de água. É parte do jogo. E é o que temos que nos submeter como técnicos”, disse ainda o treinador do River.

Reflexões sobre seu futuro

“Que vivo da maneira que vivo, a cada final de ano repenso minha situação. Preciso pensar nas minhas energias, tempo, saúde. Estou contente com o que fiz e sempre há a possibilidade de refletir. Faço isso a cada fim de ano. Não quero dizer que tenha uma decisão tomada a respeito do meu futuro. Preciso pensar e refletir sobre o que devo fazer. Deveríamos todos fazer isso. Na nossa região, país e ambiente, é tudo muito vertiginoso. Não paramos. Se exige muito e, a longo prazo, há consequências. Por hora, estou feliz. Os resultados acontecem e acompanham. Não passa pelos resultados, mas pela maneira de sentir. Por isso, tomo esse momento para refletir e pensar no que está por vir”.

Convocação de jogadores na Data Fifa

“No ano passado, houve um acordo com as federações para a final (…). Essa mesma mensagem segue válida desta vez. Há Data Fifa pouco antes da final da Libertadores. Se vê que esse ano isso não foi levado em consideração. Veremos se as federações de outros países e a que nos administra podem entrar em consenso. Veremos se as convocações terminam sendo confirmadas e veremos se podemos chegar a um consenso”.