Futebol feminino

Uma das jogadoras mais decisivas da história, Carli Lloyd se despediu da seleção americana como uma verdadeira lenda

Carli Lloyd foi a protagonista da Copa de 2015, além de ter marcado o gol do ouro em duas finais olímpicas

O “gol que Pelé não fez” já foi anotado por muitos jogadores ao redor do mundo desde 1970. Em uma final de Copa do Mundo, porém, o lance antológico é exclusividade de Carli Lloyd. O chute inacreditável selou a atuação de gala da atacante na decisão do Mundial de 2015, quando anotou uma tripleta contra o Japão, incluindo a pintura logo aos 16 minutos de jogo. Eleita a melhor jogadora daquela Copa e também a melhor do mundo em 2015, Lloyd ainda foi bicampeã no Mundial de 2019, além de ter marcado os gols que valeram os ouros olímpicos tanto em 2008 quanto em 2012. Uma das maiores jogadoras da história, a camisa 10 se despediu da seleção americana nesta terça, aos 39 anos. Recebeu uma aclamação do público à altura de seus 316 jogos e 134 gols pelo US Team. Antes de se aposentar, ela ainda vai terminar a temporada com o Gotham FC, na NWSL.

Carli Lloyd é uma das tantas garotas influenciadas pela expansão do futebol feminino nos Estados Unidos a partir dos anos 1980. Nascida na região de Philadelphia, a meia-atacante começou a jogar com cinco anos e dedicaria sua vida ao esporte. Em 1999, quando os EUA sediaram uma histórica edição da Copa do Mundo, a adolescente estava nas arquibancadas, já cotada como uma promessa no futebol colegial. E não demoraria muito para ela mesma defender o US Team, passando pela equipe sub-21, até estrear pelo time principal em 2005, aos 23 anos.

A primeira grande competição de Carli Lloyd foi a Copa do Mundo de 2007, mas a então meio-campista ainda não era titular absoluta. Sua explosão como uma referência da equipe nacional aconteceu em 2008, quando ela decidiu o ouro olímpico, com o gol na prorrogação que valeu a vitória por 1 a 0 sobre o Brasil na final. Terminaria aquele ano eleita como a melhor futebolista dos EUA. Dois anos depois, a camisa 10 já completaria 100 jogos pelo US Team e se firmava como um dos principais rostos da modalidade no mundo.

Em 2011, Carli Lloyd disputou a sua segunda Copa do Mundo. Naquele torneio, viveu o seu momento mais baixo pela equipe nacional, justo na decisão contra o Japão. A camisa 10 isolou um dos pênaltis na final e amargaria o vice-campeonato. Seria uma motivação para a volta por cima. A primeira revanche contra as japonesas aconteceu nas Olimpíadas de 2012, exatamente na disputa pelo ouro em Londres. A craque marcou os dois gols na vitória por 2 a 1. Aquela alegria seria apenas uma prévia do que ocorreu no Mundial de 2015, com o primeiro título da jogadora na competição.

Carli Lloyd passou em branco na fase de grupos, mas virou um monstro nos mata-matas daquela Copa do Mundo. A atacante balançou as redes em toda a caminhada até a decisão, com gols contra a Colômbia, a China e a Alemanha. Já na decisão, usando a camisa 10 e a faixa de capitã, a veterana de 33 anos não teve piedade do Japão. A tripleta de Lloyd em Vancouver aconteceu em apenas 16 minutos, deixando o melhor para o seu inesquecível chute do meio do campo. O topo do mundo era dela, após a vitória por 5 a 2 do US Team ao final do duelo.

Carli Lloyd permaneceu como uma das principais jogadoras da seleção americana nos Jogos Olímpicos de 2016, quando a medalha escapou. A camisa 10 só perderia um pouco mais de espaço depois disso, o que não a afastou completamente do US Team. Em 2018, ela atingiu os 100 gols pela equipe nacional. Em 2019, mesmo geralmente saindo do banco, participou de outra conquista da Copa do Mundo. Já em 2021, além de completar 300 jogos, também compôs o time que levou o bronze nos Jogos Olímpicos. Então, chegou a hora de parar. O último jogo aconteceu nesta terça, em amistoso contra a Coreia do Sul em Minnesota.

Já na entrada de campo, houve uma grande homenagem, com a presença da família da lenda e a entrega de uma camisa comemorativa. Nas arquibancadas, vários torcedores levaram cartazes para homenageá-la. Carli Lloyd não balançou as redes na goleada por 6 a 0 sobre as sul-coreanas, mas o momento em que a veterana foi substituída guardou o ponto alto da noite. O estádio inteiro se levantou para aplaudir a camisa 10 e agradecê-la por sua história, enquanto todas as companheiras foram abraçá-la. Antes que ela se sentasse no banco, ainda exibiu uma camisa com o sobrenome do marido nas costas, agradecendo por todo o apoio oferecido ao longo de sua carreira. Também faria um discurso ao final da noite. Os números de Lloyd falam por si. As finais olímpicas, bem como o show particular na Copa do Mundo de 2015, guardam seu lugar na eternidade.

Na história do US Team, Carli Lloyd é a segunda jogadora com mais partidas disputadas (só atrás de Kristine Lilly) e a terceira maior artilheira (abaixo de Abby Wambach e Mia Hamm). Para uma jogadora que explodiu na seleção de maneira relativamente tardia, aos 26 anos, a longevidade permitiu números absurdos. Também impressiona a consistência através de seu trabalho árduo dentro de campo, bem como a qualidade técnica bem acima do comum. Poucas jogadoras na história foram tão decisivas que ela, e essa capacidade de assumir a responsabilidade engrandeceu a seleção dos Estados Unidos por 16 anos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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