Futebol feminino

Por que o futebol feminino continua sendo usado como moeda de troca na Fifa de Infantino?

Ameaça de boicote da Uefa poderia impactar competições do futebol feminino já neste ano

O plano fracassado de Gianni Infantino de vender participações na Copa do Mundo para investidores privados gerou insatisfação e paralisou o futebol mundial. Mas para aqueles que acompanham o futebol feminino, a indignação teve um espaço ainda maior.

A análise da jornalista Suzanne Wrack ao “The Guardian” destacou que a modalidade foi colocada na linha de frente das ações prejudiciais. Isso porque, caso o plano do presidente da Fifa fosse mantido, as primeiras competições prejudicadas seriam as femininas.

Com a Copa do Mundo Feminina Sub-20 sendo realizada na Polônia no próximo mês, a Copa do Mundo Feminina Sub-17 e as eliminatórias da Uefa para o torneio principal começando em outubro, além da própria Copa do Mundo Feminina acontecendo no Brasil em junho de 2027, os torneios femininos teriam sido os primeiros casos de teste caso um boicote tivesse sido realizado.

Infantino
Gianni Infantino, presidente da Fifa (Foto: Imago/Enzo Santos Barreiro)

Segundo Wrack, a ausência das seleções ao Mundial Feminino teria sido catastrófica, e essa era provavelmente a consequência do prazo estipulado por Infantino, já que a modalidade dependeria da visibilidade do torneio para acelerar o seu desenvolvimento, especialmente no país-sede.

— O futebol feminino depende tanto da competição internacional para acelerar seu crescimento que o impacto negativo da ausência da Copa do Mundo teria atrasado o progresso em muito mais de quatro anos — escreveu.

A Copa do Mundo Feminina de 2023 foi a primeira a atingir o ponto de equilíbrio, gerando mais de US$ 570 milhões (cerca de R$ 2,8 bilhões) em receita, e a Fifa afirmou em maio de 2025 que sua meta é arrecadar US$ 1 bilhão (R$ 6 bilhões) na edição de 2027.

Período em que Infantino anunciou o seu plano afetaria diretamente o futebol feminino

Suzanne Wrack destacou ainda que a culpa pelas modalidades femininas serem as principais afetadas é diretamente de Infantino, já que o período em que o presidente da Fifa resolveu anunciar o seu plano de venda coincidiu com a proximidade dos eventos esportivos na modalidade.

— A Uefa não estava errada em sua posição, e o subsequente colapso do plano mestre de Infantino após a enorme repercussão negativa demonstra isso. Não foi a entidade máxima do futebol europeu que arquitetou o cronograma que colocou o futebol feminino na linha de frente, e foi correto não excluir o futebol feminino ou o futebol de base de seu arsenal na luta contra a tentativa de Infantino de impor seus planos — afirmou.

Gianni Infantino durante anúncio da Copa do Mundo Feminina no Brasil (Foto: IMAGO / SOPA Images)
Gianni Infantino durante anúncio da Copa do Mundo Feminina no Brasil (Foto: IMAGO / SOPA Images)

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Qual é o nível de compromisso de Infantino com a modalidade?

A relação de Gianni Infantino com o futebol feminino tem altos e baixos. Como apontou Wrack, Infantino é o presidente da Fifa que mais investiu na modalidade. No entanto, o seu antecessor é Sepp Blatter, que chegou a declarar em 2004 que “shorts mais justos eram a solução para atrair mais público para o futebol feminino”, o que torna os níveis de competência extremamente baixos.

— Sob a gestão de Infantino, a Fifa investiu mais no futebol feminino do que nunca, mas ele tem sido um peão em sua gestão: inicialmente útil para mostrar o quão progressistas e em sintonia com a sociedade moderna ele e a Fifa são, e agora útil porque representa uma oportunidade de ganho financeiro a médio e longo prazo, sendo uma das áreas de crescimento mais rápido e menos exploradas do futebol — pontuou a jornalista.

Vale lembrar que ainda em 2023, a “Sky News” noticiou que Infantino havia deixado a Copa do Mundo Feminina rumo ao Taiti depois de menos de uma semana, retornando posteriormente durante o torneio. 

Gianni Infantino entregando o troféu à Espanha durante a Copa do Mundo Feminina de 2023 (Foto: IMAGO / PA Images)
Gianni Infantino entregando o troféu à Espanha durante a Copa do Mundo Feminina de 2023 (Foto: IMAGO / PA Images)

Já em comparação com a edição masculina da modalidade, o dirigente compareceu a pelo menos parte de todos os 64 jogos da Copa do Mundo masculina de 2022 e, em alguns momentos, compareceu a dois jogos por dia durante a edição masculina do torneio, em 2026.

— Talvez Infantino tenha esperado até o início de um novo ciclo de quatro anos da Copa do Mundo masculina para tentar limitar o impacto de qualquer reação negativa ao evento principal, mas, ao fazer isso, ele adicionou mais uma prova à demonstração da verdadeira postura em relação ao futebol feminino, com a edição feminina do torneio no horizonte iminente — destacou Wrack.

Para Suzanne Wrack, apesar de o boicote da Uefa não ter ido adiante, o episódio deve servir de alerta não apenas para os apoiadores do futebol feminino, mas para todos que acompanham a modalidade em geral.

— Felizmente, o futebol feminino não teve que pagar esse preço tão alto. No entanto, este episódio deve servir de alerta, tanto para aqueles que se preocupam com o desenvolvimento e o futuro do futebol feminino quanto para aqueles que se preocupam com o futuro do futebol masculino — finalizou.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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