Futebol europeu

A guerra entre Fifa e Uefa que chacoalhou o futebol mundial; entenda

Plano da Fifa gerou crise no futebol mundial e pode afetar Copa do Mundo Feminina, realizada no Brasil

A Uefa anunciou, nesta quinta-feira (30), que não participará de competições realizadas pela Fifa caso a entidade concretize os planos para vender participações da Copa do Mundo aos investidores privados. A decisão foi tomada em uma reunião virtual com membros das 55 federações que integram a Associação Europeia de Futebol.

— Nenhuma seleção da Uefa participará de qualquer competição da Fifa enquanto essas propostas estiverem em vigor, a menos que essa proposta seja abandonada por completo e que sejam dadas garantias vinculativas de que a Fifa jamais abrirá sua governança ou competições à propriedade privada–, declarou a Uefa por meio de nota.

Em seu comunicado, a União das Associações Europeias de Futebol ressaltou que o Mundial não está à venda e que o torneio “não pode ser tratado como um produto de investimento”.

Presidente da Uefa, Aleksander Ceferin (Foto: IMAGO / Nicolo Campo)
Presidente da Uefa, Aleksander Ceferin (Foto: IMAGO / Nicolo Campo)

A entidade que rege o futebol europeu já havia manifestado sua oposição ao divulgar anteriormente duas declarações contundentes sobre os planos, que foi agora reafirmada.

— A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. É um dos maiores legados do futebol, foi construída ao longo de gerações por jogadores, seleções e torcedores em todos os continentes. Nenhuma parte dela jamais deveria ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda –, pontuou a entidade europeia.

Como funcionam os planos da Fifa para a venda da Copa do Mundo?

O movimento dos países europeus acontece após o anúncio do órgão que lidera o futebol mundial ter confirmado os seus planos de vender uma participação, por meio da criação de uma entidade sem fins lucrativos, para administrar os seus principais eventos, como as Copas do Mundo e os Mundiais de Clubes.

Com a criação de uma subsidiária comercial para gerir os seus principais eventos, investidores externos podem adquirir participações nela, como informou a “BBC”.

Essa nova entidade foi nomeada Fifa Forward Enterprises (FFE) e, se aprovada, assumirá as operações comerciais da Federação. Neste caso, a responsabilidade será dividida com a organização permanecendo como a Fifa e mantendo uma participação majoritária na FFE, segundo o “The Athletic”. 

Gianni Infantino, presidente da Fifa
Gianni Infantino, presidente da Fifa. Foto: IMAGO / STEINSIEK.CH

Por meio de um comunicado à imprensa, a Fifa informou que busca vender até 21% da FFE, com o objetivo de arrecadar US$ 4,2 bilhões (R$ 17,5 bilhões). A receita, segundo o órgão, seria liberada de forma imediata para as federações membros.

Ainda de acordo com a “BBC”, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, escreveu a todas as 211 federações membros da Federação Internacional de Futebol afirmando que elas ainda receberiam US$ 40 milhões (cerca de R$ 203 milhões) se apoiassem seu plano.

Segundo o jornal inglês, o dirigente estabeleceu um prazo até 19 de setembro para que as federações de futebol que aceitassem seus planos, tivessem a um montante inicial de US$ 20 milhões. Em resposta, na quarta-feira, a Uefa acusou a Fifa de usar o futebol “para enriquecer a si mesma e aos seus amigos”.

Vale ressaltar que, para que o plano seja aprovado, é necessário ter a aprovação das federações membro, do Conselho da Fifa –braço decisório da organização–, composto pelo presidente Gianni Infantino, e dos oito vice-presidentes, além de outros 28 membros.

Vale lembrar que a próxima Copa do Mundo no calendário é a edição feminina no Brasil, em junho de 2027, seguida pelo torneio masculino na Espanha, Portugal e Marrocos em 2030. Antes, a posição da Uefa poderá ser testada em diferentes competições:

No mês de setembro, entre os dias 5 a 27, acontece a Copa do Mundo Sub-20 realizada na Polônia e que conta com a participação de seis seleções europeias; em outubro, acontecem os playoffs do Mundial Feminino e a Copa do Mundo Feminina Sub-17.

A Trivela entrou em contato com o Ministério do Esporte brasileiro para tratar sobre os impactos no Mundial de 2027 e aguarda resposta.

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Qual é a parte de Infantino no projeto?

Segundo o “The Athletic”, Gianni Infantino liderou a iniciativa e afirmou, em comunicado, que “algumas partes do jogo transformaram a popularidade do futebol em um valor comercial notável”.

— Algumas partes do jogo transformaram essa popularidade em um valor comercial notável, e nós celebramos esse sucesso e queremos que ele continue, porque beneficia todo o esporte. Nossa missão é garantir que o restante do futebol cresça junto: a Fifa existe para apoiar o desenvolvimento sustentável e inclusivo em todos os cantos do mundo –, afirmou a publicação do executivo.

Infantino
Gianni Infantino, presidente da Fifa (Foto: Imago/Enzo Santos Barreiro)

Em um vídeo de cinco minutos, divulgado na última quarta-feira (29), Infantino afirmou que se tratava de um “processo democrático” e que “fortalecer o lado comercial do futebol é o próximo passo natural na evolução da Fifa”.

— A Fifa obviamente continua a governar o futebol sem qualquer interferência externa. E o principal torneio que organiza, como a Copa do Mundo Masculina ou a Copa do Mundo Feminina sempre permanecerá –, afirmou.

As reações de representantes mundiais

Os planos da Federação Internacional do Futebol foram recebidos com uma forte reação negativa em todo o mundo. O antecessor de Infantino, Sepp Blatter, e o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, estavam entre os que se manifestaram

Entre as confederações que questionaram o processo adotado pela Fifa, a Concacaf, confederação da América do Norte, Central e Caribe, acusou a entidade que rege o futebol mundial de falta de consulta em relação às propostas.

Segundo a apuração do jornalista Martyn Ziegler, os 41 países da Concacaf rejeitaram o plano da Fifa de vender a Copa do Mundo e reforçaram a necessidade de uma melhor transparência e de uma governança adequada.

A Confederação Asiática afirmou estar “desapontada com o fato de uma questão de tamanha importância ter vindo a público antes que tivesse a oportunidade de examiná-la e discuti-la pelos canais de governança apropriados e estabelecidos”.

Já a Confederação Africana apenas se manifestou para confirmar seu envolvimento no processo de consulta, “incentivando suas Associações Membro a examinarem” as propostas por si mesmas.

Uefa tem nome de candidato para concorrer com Infantino na presidência da Fifa

Apesar de ainda não ser um candidato declarado à presidência da Fifa, Nasser Al-Khelaifi é visto pela Uefa como a melhor opção para enfrentar Gianni Infantino nas eleições para presidência da Federação Internacional, que deve ser realizada em março de 2027.

Al-Khelaifi preside o Paris Saint-Germain e, segundo o jornal “The Telegraph”, conta com o apoio que o tornaria páreo na disputa do principal cargo do futebol mundial. Em conflito aberto com o atual presidente, Gianni Infantino, a Uefa procura um nome forte para a corrida eleitoral e vê em Nasser Al-Khelaifi a solução para interromper um novo mandato do atual executivo, segundo o “The Telegraph”.

A importância do executivo catari cresceu significativamente quando liderou a resistência contra o projeto da Superliga em abril de 2021, o que o levou à presidência da Associação de Clubes Europeus (EFC). Desde então, Al-Khelaifi tem participado regularmente nas principais reuniões da Federação Internacional de Futebol, como presidente da associação.

Mas a sua experiência não se limita à política esportiva. Como presidente do BeIn Media Group, um dos principais financiadores da Fifa, o presidente do PSG tem também experiência no mundo dos direitos televisivos.

No entanto, até o momento, uma fonte próxima do presidente do PSG foi categórica em declarações à “RMC Sport”, ainda no mês de julho, ao afirmar que “Nasser não tem absolutamente nenhuma ambição, nenhuma intenção e nenhum interesse nesse papel na Fifa”.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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