Libertadores Feminina

O Corinthians tricampeão da Libertadores leva a glória eterna, mas também deixa um grande exemplo às próximas gerações

A final da Libertadores Feminina serviu de aula a céu aberto para dezenas de crianças, sobretudo meninas, nas arquibancadas do Gran Parque Central

*Direto de Montevidéu

Entre as finais da Sul-Americana e da Libertadores Masculina, a decisão entre Independiente Santa Fe e Corinthians pela Libertadores Feminina parecia um complemento da Conmebol no calendário, e não um jogo com o mesmo peso dos outros. Ainda há um tratamento diferente entre a competição feminina e as demais masculinas, mas, se desse para escolher o dia em que provaremos que vale a pena apostar e vibrar pelo futebol feminino, esse dia seria o 21 de novembro, data em que, no Estádio Gran Parque Central, a glória do Corinthians se tornou realmente eterna após a conquista do tricampeonato da Libertadores, com a vitória de 2 a 0 em cima das colombianas.

Para enxergar os dias de luta das Brabas do Timão, é preciso falar sobre base. Sem o suporte necessário, não existe a evolução e o conhecimento. E isso se compartilha além do clube. Nos arredores do Gran Parque Central, no momento pré-jogo, encontrava-se Pablo Ojeda, técnico do Libertad Washington, escola de futebol uruguaia para meninas de 6 a 12 anos. A distribuição de ingressos gratuitos feita pela Conmebol para organizações relacionadas à prática desportiva permitiu que Pablo levasse à final da Libertadores meninas que estão descobrindo a paixão pelo futebol e que buscam referências para se inspirar e praticar o esporte. Mas quando se pergunta a essas garotas quais são suas jogadoras favoritas, o silêncio se espalha pelo grupo.

“O futebol feminino no Uruguai tem uma difusão relativa, não tem muito investimento”, diz Pablo, após explicar que a maioria das meninas presentes na equipe ainda tem como base jogadores homens e conhecidos mundialmente, como Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo. Cabe citar uma menção a Philippe Coutinho, que tinha uma pequena fã dentre as atletas mirins. “Trouxe elas para observar as jogadoras de perto, observar que o futebol brasileiro está em outro nível, diferente da realidade que elas se encontram aqui”.

Pablo Ojeda e as garotas do Libertad Washington (Foto: Giancarlo Santorum/Trivela)

Para chegar à conquista do tricampeonato, o Corinthians apresenta um trabalho de organização, estruturação e consolidação a longo prazo. Desde 2016, esses aspectos foram aprimorados pela diretora de futebol feminino, Cris Gambaré, e pelo técnico da equipe feminina corintiana, Arthur Elias. De lá para cá, com o retorno do investimento na modalidade e uma parceria temporária com o Audax, as Brabas foram se destacando nas principais competições nacionais e internacionais, garantindo até então nove títulos: Copa do Brasil (2016), Libertadores (2017, 2019 e 2021), Brasileirão (2018, 2020 e 2021) e Paulistão (2019 e 2020).

As torcedoras do movimento “Loucas Por Ti Corinthians”, Bruna Araújo e Dila Bramer, viajaram 42 horas de ônibus para apoiar as alvinegras em Montevidéu. Após mais uma conquista, se orgulham de todo trajeto percorrido, seja o caminho que o Corinthians traçou nesses cinco anos de futebol feminino ou o chão que as torcedoras da Fiel percorreram para apoiar o Timão das Brabas de perto.

“Quero agradecer imensamente a diretora Cris e dar parabéns a toda equipe. Por conta do trabalho coletivo deles, esse futebol feminino está crescendo e evoluindo muito. E vamos voltar para São Paulo com o Tri na bagagem, feliz da vida!”, afirma Dila. “Sinto muito orgulho delas, estão ficando cada vez melhores, se desenvolvendo cada vez demais. Além disso, tem o respeito entre elas e também com os torcedores. Isso é maravilhoso, é surreal, é Corinthians!” conclui Bruna.

As torcedoras do Corinthians em Montevidéu (Foto: Talyssa Machado/Trivela)

O ônibus de Dila, Bruna e mais de 40 torcedores da Gaviões da Fiel chegou ao estádio com um pouco de atraso, mas, assim que entraram no palco da final da Libertadores, intensificaram ainda mais o clima do Gran Parque Central, uma das sedes da Copa de 1930. É aí que voltamos à base. Grande parte do público que compareceu ao jogo era de meninas de escolinhas de futebol, assim como as meninas do Libertad Washington, de Pablo Ojeda. No momento em que a presente torcida do Corinthians começou a puxar os cânticos que embalaram as Brabas durante a partida, a base veio forte. Crianças espalhadas pela arquibancada cantavam junto e vibravam como se a casa do Nacional fosse a Neo Química Arena.

E, ali, em um clima onde meninas e meninos cantavam juntos, apoiados uns aos outros, o futebol feminino já não era mais o mesmo. A partida não foi somente um espetáculo, mas serviu de inspiração para as crianças que tomaram as arquibancadas. Certamente, esse dia ficará marcado na história delas.  A conduta dentro de campo de ambas as equipes e as crianças que sentiram o futebol, muitas delas pela primeira vez na vida, garantiram uma atmosfera inesquecível, fazendo jus à final continental do maior torneio de clubes sul-americano. E para complementar esse dia histórico, a arbitragem que comandou a partida foi composta inteiramente por mulheres, incluindo o VAR.

Elidir, corintiana das antigas, foi a Montevidéu de avião para ver, pela primeira vez, uma partida da equipe feminina. “Eu acho importantíssimo essa representatividade, porque no meu tempo não tinha. Eu sou do tempo das antigas, a representação que eu tinha era na arquibancada, na época da Elisa, torcedora-símbolo do Corinthians.” 

Elisa Alves do Nascimento era torcedora fanática do Corinthians. Mulher negra, viveu na época em que homens brancos ditavam regras às mulheres. Mesmo com essa realidade, a torcedora fanática não perdia um jogo do Timão. Serviu de exemplo para tantas outras corintianas como Elidir e, até hoje, seu legado transcende gerações de torcedoras que comparecem aos estádios, e que ainda precisam lutar contra as imposições dos mesmos homens.

Elidir e o escudo do Corinthians (Foto: Giancarlo Santorum/Trivela)

Aos poucos, o cenário vai mudando. E como se sentiu na conquista das Brabas, a base vem ganhando força, com a representatividade que vai tomando os gramados de vários cantos. “Eu acho que esse time vai incentivar bastante as meninas. Elas vão abrir mais horizontes para a meninada de hoje em dia e do futuro”, diz Elidir, ressaltando a importância e grandeza da equipe corintiana feminina.

A técnica da seleção brasileira feminina, Pia Sundhage, comentou exatamente sobre o que o futebol feminino pode representar para as próximas gerações, no evento Conmebol Talks, realizado na Embaixada do Torcedor, espaço desenvolvido para recepcionar os fãs de futebol em Montevidéu. Na ocasião, Pia destacou que as conquistas alcançadas pelo futebol feminino brasileiro na atualidade, em relação a investimento e estrutura, vão ter resultados nas próximas gerações de meninas na modalidade. A técnica ressaltou que é importante aproveitar o momento e seguir lutando por espaço e investimento, independente das dificuldades ainda presentes no desenvolvimento do futebol feminino.

Pia Sundhage, em evento da Conmebol (Foto: Giancarlo Santorum/Trivela)

Javier Tiscornia levou a filha Candela e a amiga Clarisa para a final entre Santa Fe e Corinthians. Desde cedo, as meninas jogam futebol na escolinha Esparta, localizada em Colônia Valdense, cidade ao sudoeste do Uruguai, a aproximadamente uma hora e meia de Montevidéu. Ao chegar na arquibancada aberta para o público, Candela foi facilmente um destaque entre os torcedores. Enquanto cada vez mais pessoas iam se acomodando na arquibancada, a menina seguia imponente, erguendo seu cartaz para todos que ali passavam.

“Quando conseguimos o ingresso para o jogo, minha filha pediu para fazermos um cartaz. Na verdade, o cartaz é para representar todas as colegas de time que não puderam comparecer à final da Libertadores, e assim, possam se sentir presentes aqui no estádio também”, explica Javier.

Candela e seu cartaz no Gran Parque Central (Foto: Giancarlo Santorum/Trivela)

Com certeza as colegas da menina assistiram, junto a ela, aos gols de Adriana e Gabi Portilho. Os dois tentos que garantiram a vitória do Corinthians saíram no primeiro tempo. Adriana abriu o placar com um gol de cabeça aos 10 minutos, após receber a bola de Gabi Portilho. Mais tarde, no final do primeiro tempo, quem deu a assistência para o primeiro gol também garantiu a taça para a equipe corintiana. Pela, esquerda, com um passe veloz na entrada da área das colombianas, Tamires tocou para Gabi Portilho, que finalizou a jogada no fundo do gol.

Além do confronto de qualidade entre as equipes, as crianças presentes no estádio apreciaram momentos simbólicos em campo. No instante em que foi iniciado o minuto de silêncio em respeito às vítimas da Covid-19, o público se manteve de boca fechada e olhos bem abertos. No mesmo minuto, meninas e meninos observavam com muita atenção o gesto realizado pelas jogadoras do Corinthians. Com o punho cerrado e um dos joelhos apoiados no chão, o símbolo antirracista foi mantido até o apito inicial da partida. Na semifinal, a atleta Adriana foi vítima de insultos racistas proferidos por uma atleta do Nacional, equipe que joga no Estádio Gran Parque Central, palco da final. Lições que vão muito além do campo.

Diany, do Corinthians, se manifesta (Foto: Giancarlo Santorum/Trivela)

Outro momento especial foi a ida das atletas do Corinthians em direção à torcida, para celebrar o título após a entrega do troféu, uma vez que o palco montado pela Conmebol era voltado para as cabines de transmissão, ficando de costas ao setor mais cheio do estádio. As campeãs puderam confraternizar com os torcedores alvinegros que vieram de longe, receber o carinho das crianças uruguaias, distribuir autógrafos e tirar fotos, para eternizar de vez um dia tão especial na vida de cada uma daquelas pessoas e alimentar o sonho naquelas meninas de um dia disputarem uma final de Libertadores Feminina. 

A conquista da taça Libertadores Feminina deixou o Corinthians mais perto de realizar um feito histórico. Se as Brabas vencerem a final do Paulistão em dezembro, diante o São Paulo, garantem ao clube a primeira Tríplice Coroa do futebol feminino no Brasil. Além da Libertadores, as alvinegras faturaram o Brasileirão contra o Palmeiras, com o placar agregado de 4 a 1.

Após acompanhar esse espetáculo que se guardará na sua memória, Candela, a menina do cartaz, já consegue se enxergar em campo. E, principalmente, já entendeu bem o quanto a representatividade importa. Ela pôde ver e conhecer suas referências de pertinho e, sem perceber, se tornou referência para outras meninas que ali estavam. Pelo menos para mim, se tornou uma referência de que a glória do futebol feminino não para por aqui. “Eu me emociono ao ver elas aqui, porque elas de certa forma estão participando desse momento e vão crescer e aprender com isso, com essa partida. Eu consigo imaginar elas entrando em campo um dia”, conclui Javier, o pai da garota.

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Talyssa Machado

Talyssa Machado é jornalista e também trabalha com edição de vídeo. Desde pequena, ama o futebol e tudo aquilo que proporciona ao povo. Coleciona camisas de equipes femininas e seleções africanas. Acompanha in loco as finais continentais de 2021 em Montevidéu, através do apoio da KTO Brasil.

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