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Jogadoras e US Soccer entram em acordo judicial e seleções masculina e feminina terão pagamentos iguais

Federação de futebol dos Estados Unidos terá que pagar US$ 24 milhões de indenização, além de garantir pagamento igual a partir de agora

A Federação de Futebol dos Estados Unidos, a USSF, ou US Soccer, como é conhecida, entrou em acordo com as jogadoras da seleção americana feminina e encerrou o processo que era movido contra a entidade. Haverá o pagamento de uma indenização, além de uma parte de pagamentos destinados a um fundo de caridade, além da garantia de pagamento igualitário daqui em diante.

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Ao entrar em acordo, as jogadoras receberão um pagamento fixo de US$ 22 milhões, que será distribuído da maneira proposta pelas próprias jogadoras e aprovado pelo Tribunal. A US Soccer ainda pagará US$ 2 milhões em uma conta em benefício das jogadoras da seleção feminina e nos seus objetivos pós-carreira e esforços de caridade relativos ao futebol feminino. Cada jogadora poderá receber até US$ 50 mil deste fundo.

A US Soccer também se comprometeu a fazer pagamentos iguais para as seleções masculina e feminina “em todos os amistosos e torneios, incluindo a Copa do Mundo”. A questão da premiação da Copa do Mundo tem sido um ponto de discórdia entre as jogadoras e a federação há anos e, enfim, as partes chegaram a um acordo.

É importante lembrar que o pedido de “equal pay”, ou pagamento igual, não se trata de ganhar os mesmos salários que os homens em seus clubes, mas sim em relação aos pagamentos e condições de trabalho na seleção americana. As jogadoras cobraram que homens e mulheres ganhassem as mesmas premiações pelos torneios que participam, sejam amistosos ou a Copa do Mundo e Olimpíadas.

“Não há justiça real nisso sem ser nunca acontecer novamente”, afirmou Megan Rapinoe, jogadora do OL Reign e agora ex-jogadora da seleção americana feminina, à ESPN. Ela se tornou uma as mais importantes vozes na luta por pagamentos iguais. “Com o acordo das condições de trabalho e este acordo, que depende de uma CBA que terá igualdade de pagamento daqui para frente, não há outra maneira de olhar para isso do que apenas uma vitória monumental para o esporte feminino e o futebol feminino em particular”.

Torcedores e torcedoras dos Estados Unidos com faixas de apoio (Harry How/Getty Images)

O CBA é o Collective Bargaining Agreement, que precisa ser estabelecido entre as ligas e os jogadores de todos os esportes americanos. A Associação dos Jogadores daquele esporte, que funciona como um sindicato dos jogadores, precisa entrar em acordo com a liga em relação às condições de trabalho e pagamento, estabelecendo pagamentos mínimos e como atender às regras dentro de cada um dos esportes.

O ponto da discórdia entre jogadoras e a federações dizia respeito às premiações oferecidas pela federação por torneios ou jogos disputados. A seleção masculina recebia um valor de premiação significativamente maior que a feminina, mesmo sendo a feminina mais bem-sucedida. No processo, as jogadoras da seleção feminina argumentaram mostrando dados que a seleção feminina gerava mais dinheiro à federação americana do que a masculina, como mostramos aqui em 2016.

O processo das jogadoras gerou um desgaste sem precedentes na US Soccer. Em 2019, quando a seleção americana se consagrou novamente campeã do mundo ao bater a Holanda na final da Copa do Mundo, a torcida presente na França ecoou nas arquibancadas os gritos das jogadoras de “Equal Pay”.

As jogadoras fizeram discursos inflamados sobre isso após a conquista do título e, com a opinião pública ao seu lado, ganharam força na batalha judicial. Elas chegaram a perder em primeira instância, mas recorreram, até que as partes chegaram a um acordo.

Nos Estados Unidos, a seleção feminina é bastante popular e a principal responsável pela venda de camisas da seleção, como revelou a Nike, patrocinadora da US Soccer e que faz os uniformes tanto da seleção masculina quanto da feminina.

Com o acordo, a US Soccer tira um problema da sua frente e resolve uma pendência que era promessa da atual presidente, Cindy Parlow Cone, que assumiu o cargo quando Carlos Cordeiro renunciou depois de comentários machistas sobre o processo contra as jogadoras.

“Disse muitas vezes antes que resolver essa disputa era minha maior prioridade. Disse isso no terceiro dia da minha presidência e continuo sentindo dessa forma”, afirmou Cone à ESPN. “Continuo otimista que iremos conseguir isso e, como Megan disse, acho que é uma vitória para o futebol dos Estados Unidos, então uma vitória para os esportes femininos e para as mulheres em geral”.

Torcedores e torcedoras comemoram na parada pelo título americano na Copa 2019 (JOHANNES EISELE/AFP via Getty Images)

As 28 jogadoras que entraram com o processo em março de 2019 acusaram a US Soccer de “discriminação de gênero institucionalizada” contra a equipe. O processo foi registrado sob o Lei de Pagamento Igual e o Título VII da Lei de Direitos Civis e se concentrou em duas áreas: igualdade de pagamentos e condições de trabalho.

“Nós temos muito trabalho a fazer e continuar a reconstruir o relacionamento com as jogadoras. Chegamos a uma solução nos acordos para o CBA. Mas o foco agora muda para crescer o jogo de uma perspectiva comercial com nossos parceiros estratégicos e ter as jogadoras ao nosso lado para irmos de mãos dadas e encorajar a Fifa a igualar a premiação da Copa do Mundo”, disse ainda a presidente da US Soccer, Cone.

Megan Rapinoe concorda com Cone e quer levar a disputa, que era nacional, dentro da federação americana, para o palco mundial.

“Por um bom tempo, essa desigualdade [bônus da Copa do Mundo] foi apenas repassada de bom grado para nós”, afirmou a jogadora. Acho que ambas as partes concordam agora que essa não é a maneira certa de fazer isso. E então podemos ir ambas contra a Fifa por quão injusto, não apenas o prêmio em dinheiro, mas os recursos, investimento, cuidado, esforço e tudo voltado para o jogo feminino. Estou ansiosa para fazer parte dessa mudança daqui para frente”, declarou Rapinoe.

Esportes como o tênis, por exemplo, já igualaram a premiação no feminino e no masculino nos seus torneios, dos maiores aos menores. É um exemplo que pode ser seguido de um esporte que mudou diante da pressão. Se prepare aí, Gianni Infantino e Fifa, porque agora a batalha das jogadoras por pagamentos de bônus iguais será no palco mundial. Elas estão indo atrás de vocês.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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