[Crônicas da Copa #14] It’s coming home: o grito que as inglesas apropriaram com justiça ao futebol feminino
![[Crônicas da Copa #14] It’s coming home: o grito que as inglesas apropriaram com justiça ao futebol feminino](https://media.trivela.com.br/main/2019/06/leoas.jpg)
Durante a Copa do Mundo feminina, a Trivela traz textos sobre o torneio francês: personagens, jogadoras e histórias, sempre escritos por mulheres que trarão suas visões. Aproveitem!
“It’s coming home, it’s coming home”. Um desavisado que não gosta de futebol pode ter estranhado o canto entoado por ingleses no festival musical de Glastonbury nesta quinta-feira (26). Mas o hit era em torcida pela seleção inglesa feminina nas quartas de final da Copa do Mundo. Classificadas ao derrotarem a Noruega por 3 a 0, as leoas avançam para a segunda semifinal da história de seu futebol. E olhem que não é bem uma história curta.
Até serem celebradas no maior festival de música a céu aberto do mundo, elas brigaram. O gol aos três minutos, o mais rápido da Inglaterra em Copas, não dá dimensão da lentidão com que o futebol inglês demorou para se firmar.
Amazing crowd at @WestHoltsGlasto for the @Lionesses’ big World Cup match! CS pic.twitter.com/r5oOevdvli
— Glastonbury Live (@GlastoLive) 27 de junho de 2019
Se os britânicos reclamam a patente do futebol moderno, com as regras estabelecidas em 1863, as inglesas também brigam pelo registro de primeiro time feminino de que se tem notícia. O Dick Kerr’s Ladies, que segundo a Football Association nasceu em 1894, era ligado a uma montadora de veículos e teve grande aumento de funcionárias mulheres com o início da Primeira Guerra Mundial – já que os homens foram convocados para as trincheiras, coube a elas o trabalho fabril. Como consequência, herdaram também a recreação dos trabalhadores: o futebol.
A seleção feminina, hoje, se destaca pelo toque de bola. Constrói as jogadas de forma calculista e relativamente metódica, avançando principalmente pelas laterais — a construção em campo se assemelha à trajetória em um tabuleiro de xadrez. Dá o bote lá na frente, quando não há mais jogadas possíveis. Essa frieza reflete a personalidade de quem precisou ter paciência para conseguir jogar bola.
Com o fim da guerra e a entrada na década de 1920, o protagonismo das mulheres no esporte começou a ser revisto em toda Europa. Mas não para o bem. E, de fato, nisso os ingleses foram pioneiros: proibiram a elas a prática da modalidade, em 1921, alegando ser “impróprio” para o físico feminino.
O veto só caiu em 1971, exatos cinquenta anos depois da proibição. Engana-se quem acredita que, ali, a história do futebol feminino deslancharia na Inglaterra. A primeira liga nacional foi criada apenas em 1991, ano da primeira Copa feminina; as inglesas estavam fora. Tiveram sua participação apenas em 1995 e, depois, levaram 12 anos para retornar ao Mundial.
A Copa das Copas
A evolução da Inglaterra em relação à Copa de 2015 é visível: nesta quinta, abriram dois gols contra a Noruega no primeiro tempo e liquidaram o jogo no início da segunda etapa. O último encontro entre as seleções, no Mundial passado, foi nas oitavas, em confronto bem mais apertado. As inglesas saíram atrás no placar, já no segundo tempo, e precisaram virar a partida, que terminou em 2 a 1.
Terceira colocada no ranking da Fifa, a seleção feminina nunca chegou tão bem em uma Copa. Veio de sequência de 19 partidas, somando 11 vitórias, quatro empates e quatro derrotas. Desembarcou na França entre as favoritas ao título e, de fato, chegou à semifinal em caminho vitorioso: só levou um único gol, diante da Escócia, na abertura do Grupo D.
A maior dificuldade das inglesas foi diante da Argentina, muito pela marcação no meio-campo, dificultando a rodagem da bola, e pelo paredão imposto pela goleira Vanina Correa. Passaram por Camarões e Noruega com o mesmo placar, 3 a 0, e aguardam a definição entre França e Estados Unidos para conhecer a próxima adversária. Pela primeira vez, independentemente da rival, não serão favoritas.
Pesa a favor das inglesas a frieza que apresentam no Mundial. Lucy Bronze, descrita pelo jornal The Telegraph como “um trator na lateral direita”, concede a velocidade necessária a um time que, por administrar muito a posse de bola, às vezes precisa de uma jogadora mais inquieta para auxiliar na movimentação até a área adversária.
A atacante Ellen White, pronta para receber a bola lá na frente, trabalha com elegância: dificilmente erra o gol e tem boa sintonia com Fran Kirby e Jill Scott — sendo a última a principal referência na distribuição de jogadas. Se não são mais favoritas, ao menos não costumam demonstrar desespero e afobação.
Bend it like Beckham
Sensação do time, Nikita Parris usa a camisa de número 7 na Copa. Mas mal podia imaginar que outro personagem que já vestiu a mesma numeração pela seleção inglesa estaria prestigiando seu futebol.
David Beckham assistiu à partida em Le Havre acompanhado da filha caçula, a única menina entre seus herdeiros. Passou, ali, duas mensagens importantes. A primeira é que o futebol feminino conta com o apoio de ídolos do masculino, algo necessário para o desenvolvimento do esporte. Já a segunda é pela presença de mais garotas em estádios: ao levar a própria filha para ver o jogo das mulheres, mostra que as meninas têm espaço no futebol. Seja em campo ou na arquibancada.
O crescimento da liga nacional já é uma prova de que o futebol inglês muda para melhor. Todos os times de ponta apresentam equipes femininas e o campeonato delas vai ganhando novos investimentos (e retornos), como ter o Chelsea entre os semifinalistas da última temporada da Champions League, de domínio das alemãs e francesas.
Dentro da própria seleção o reflexo do investimento é nítido. Apenas quatro das 23 convocadas atuam fora do país: Lucy Bronze (Lyon-FRA), Jodie Taylor (Reign-EUA), Rachel Daly (Houston Dash-EUA) e Mary Earps (Wolfsburg-ALE).
Se o futebol não era permitido às mulheres, nada mais justo que dar a elas o gostinho histórico que merecem celebrar. E não há ironia melhor, do jeito que os britânicos gostam, de se apropriar de algo antes impróprio? It’s coming home, a volta para casa, também vale para elas. Independentemente do resultado.



