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[Crônicas da Copa #14] It’s coming home: o grito que as inglesas apropriaram com justiça ao futebol feminino

Durante a Copa do Mundo feminina, a Trivela traz textos sobre o torneio francês: personagens, jogadoras e histórias, sempre escritos por mulheres que trarão suas visões. Aproveitem!

“It's coming home, it's coming home”. Um desavisado que não gosta de futebol pode ter estranhado o canto entoado por ingleses no festival musical de Glastonbury nesta quinta-feira (26). Mas o hit era em torcida pela seleção inglesa feminina nas quartas de final da Copa do Mundo. Classificadas ao derrotarem a Noruega por 3 a 0, as leoas avançam para a segunda semifinal da história de seu futebol. E olhem que não é bem uma história curta.

Até serem celebradas no maior festival de música a céu aberto do mundo, elas brigaram. O gol aos três minutos, o mais rápido da Inglaterra em Copas, não dá dimensão da lentidão com que o futebol inglês demorou para se firmar.

Se os britânicos reclamam a patente do futebol moderno, com as regras estabelecidas em 1863, as inglesas também brigam pelo registro de primeiro time feminino de que se tem notícia. O Dick Kerr's Ladies, que segundo a Football Association nasceu em 1894, era ligado a uma montadora de veículos e teve grande aumento de funcionárias mulheres com o início da Primeira Guerra Mundial – já que os homens foram convocados para as trincheiras, coube a elas o trabalho fabril. Como consequência, herdaram também a recreação dos trabalhadores: o futebol.

A seleção feminina, hoje, se destaca pelo toque de bola. Constrói as jogadas de forma calculista e relativamente metódica, avançando principalmente pelas laterais — a construção em campo se assemelha à trajetória em um tabuleiro de xadrez. Dá o bote lá na frente, quando não há mais jogadas possíveis. Essa frieza reflete a personalidade de quem precisou ter paciência para conseguir jogar bola.

Com o fim da guerra e a entrada na década de 1920, o protagonismo das mulheres no esporte começou a ser revisto em toda Europa. Mas não para o bem. E, de fato, nisso os ingleses foram pioneiros: proibiram a elas a prática da modalidade, em 1921, alegando ser “impróprio” para o físico feminino.

O veto só caiu em 1971, exatos cinquenta anos depois da proibição. Engana-se quem acredita que, ali, a história do futebol feminino deslancharia na Inglaterra. A primeira liga nacional foi criada apenas em 1991, ano da primeira Copa feminina; as inglesas estavam fora. Tiveram sua participação apenas em 1995 e, depois, levaram 12 anos para retornar ao Mundial.

A Copa das Copas

A evolução da Inglaterra em relação à Copa de 2015 é visível: nesta quinta, abriram dois gols contra a Noruega no primeiro tempo e liquidaram o jogo no início da segunda etapa. O último encontro entre as seleções, no Mundial passado, foi nas oitavas, em confronto bem mais apertado. As inglesas saíram atrás no placar, já no segundo tempo, e precisaram virar a partida, que terminou em 2 a 1.

Terceira colocada no ranking da Fifa, a seleção feminina nunca chegou tão bem em uma Copa. Veio de sequência de 19 partidas, somando 11 vitórias, quatro empates e quatro derrotas. Desembarcou na França entre as favoritas ao título e, de fato, chegou à semifinal em caminho vitorioso: só levou um único gol, diante da Escócia, na abertura do Grupo D.

A maior dificuldade das inglesas foi diante da Argentina, muito pela marcação no meio-campo, dificultando a rodagem da bola, e pelo paredão imposto pela goleira Vanina Correa. Passaram por Camarões e Noruega com o mesmo placar, 3 a 0, e aguardam a definição entre França e Estados Unidos para conhecer a próxima adversária. Pela primeira vez, independentemente da rival, não serão favoritas.

Pesa a favor das inglesas a frieza que apresentam no Mundial. Lucy Bronze, descrita pelo jornal The Telegraph como “um trator na lateral direita”, concede a velocidade necessária a um time que, por administrar muito a posse de bola, às vezes precisa de uma jogadora mais inquieta para auxiliar na movimentação até a área adversária.

A atacante Ellen White, pronta para receber a bola lá na frente, trabalha com elegância: dificilmente erra o gol e tem boa sintonia com Fran Kirby e Jill Scott — sendo a última a principal referência na distribuição de jogadas. Se não são mais favoritas, ao menos não costumam demonstrar desespero e afobação.

Bend it like Beckham

Sensação do time, Nikita Parris usa a camisa de número 7 na Copa. Mas mal podia imaginar que outro personagem que já vestiu a mesma numeração pela seleção inglesa estaria prestigiando seu futebol.

David Beckham assistiu à partida em Le Havre acompanhado da filha caçula, a única menina entre seus herdeiros. Passou, ali, duas mensagens importantes. A primeira é que o futebol feminino conta com o apoio de ídolos do masculino, algo necessário para o desenvolvimento do esporte. Já a segunda é pela presença de mais garotas em estádios: ao levar a própria filha para ver o jogo das mulheres, mostra que as meninas têm espaço no futebol. Seja em campo ou na arquibancada.

O crescimento da liga nacional já é uma prova de que o futebol inglês muda para melhor. Todos os times de ponta apresentam equipes femininas e o campeonato delas vai ganhando novos investimentos (e retornos), como ter o Chelsea entre os semifinalistas da última temporada da Champions League, de domínio das alemãs e francesas.

Dentro da própria seleção o reflexo do investimento é nítido. Apenas quatro das 23 convocadas atuam fora do país: Lucy Bronze (Lyon-FRA), Jodie Taylor (Reign-EUA), Rachel Daly (Houston Dash-EUA) e Mary Earps (Wolfsburg-ALE).

Se o futebol não era permitido às mulheres, nada mais justo que dar a elas o gostinho histórico que merecem celebrar. E não há ironia melhor, do jeito que os britânicos gostam, de se apropriar de algo antes impróprio? It’s coming home, a volta para casa, também vale para elas. Independentemente do resultado.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).
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