Copa do Mundo Feminina

Maior festival de futebol feminino de várzea do mundo teve mais de 80 times

"Não é só uma partida de futebol, porque elas foram proibidas de entrar num campo por 40 anos", diz uma das responsáveis pelo domingo histórico

Uma semana antes da seleção brasileira estrear pela Copa do Mundo Feminina, na Austrália, a periferia de São Paulo recebeu a terceira edição do maior festival de futebol feminino de várzea do mundo. Idealizado pela Liga Feminina de Futebol Amador de Parelheiros, o evento, realizado neste domingo (16), reuniu mais de mil jogadoras, de 80 times, no Parque Sete Campos, em Cidade Ademar.

“É a realização de um sonho, porque tô vivendo algo que eu não vivi na minha infância, na minha adolescência, e que hoje essas meninas têm a oportunidade de viver. Então, tudo o que faço é com essa ideia de que não é pra mim. Óbvio que eu me realizo fazendo isso, mas é uma conquista para essa e as próximas gerações de meninas e mulheres”, conta Maria Morim, fundadora da Liga, à Trivela


Em 2019, três anos após sua criação, a Liga já somava mais de cem agremiações, com um conjunto expressivo localizado nos bairros periféricos da zona sul de São Paulo. A quantidade expressiva de equipes motivou a organização do espetáculo esportivo. 

Diferentemente de um torneio, o festival não tem caráter competitivo. O objetivo era unicamente reunir atletas amadoras para um momento de celebração entre elas e suas famílias. Prêmios e medalhas foram distribuídos para todas as agremiações. 

É importante celebrar o futebol feminino, porque ele mostra que as mulheres são muito mais do que os rótulos que a sociedade impõe. Somos mães, donas de casa, chefes de família… Nós podemos fazer tudo o que quisermos.” 

Mulheres do futebol de várzea resistem e se multiplicam

O mapeamento das equipes que participaram do festival foi feito em uma parceria da Liga Feminina com o projeto de extensão da PUC-SP, coordenado pela historiadora Aira Bonfim, que escreveu ao livro “Futebol Feminino no Brasil: entre festas, circos e subúrbios, uma história social”. O pré-lançamento da publicação aconteceu durante o evento.

“Esse festival é a prova viva de que a várzea feminina acontece. E, no caso do futebol feminino, é uma cultura de resistência, uma cultura periférica. Nós estamos jogando a despeito de tudo o que vem contra a gente. Na história, essas mulheres pagam um preço muito alto para conseguir ter uma agenda. Um homem sai de casa para jogar bola e deixa tudo para trás. A mulher precisa se dividir entre demandas”, disse Aira, que ainda é uma das curadoras da exposição “Rainhas de Copas” do Museu do Futebol.

Times femininos de várzea
Mapeamento realizado pela historiadora Aira Bonfim, Alberto Luiz dos Santos, Enrico Spaggiari e José Paulo Florenzano (Foto: Divulgação)

O estudo teve como objetivo mapear a distribuição espacial das equipes femininas amadoras de futebol na região metropolitana de São Paulo e traçar um perfil social. De acordo com o mapeamento, foram identificados 146 times de várzea em atividade, dos quais 95 participaram de questionários.

“A gente começou a mapear as equipes amadoras e tudo foi acontecendo aos poucos. Em 2019, organizamos a primeira edição do festival com 72 equipes, no complexo esportivo do Campo de Marte. A segunda edição também aconteceu lá, em 2021, com o mesmo número de times. Neste ano, foram 80 participantes”, disse a criadora da Liga Feminina.

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Futebol feminino é da quebrada

Segundo a pesquisa, a principal dificuldade encontrada pelas jogadoras é o acesso aos campos e quadras, com times masculinos resistindo em ceder o espaço. Além disso, tanto o transporte, quanto os uniformes e as chuteiras são obstáculos na hora de reunir os times. 

“Projetos e iniciativas gratuitas são fundamentais, porque o ‘grosso’ do futebol feminino está na quebrada. Essas meninas, muitas vezes, não têm chuteira, não tem campo. A gente tem obrigação de fazer reparação histórica”, ponderou a pesquisadora.

Mapeamento times femininos de várzea
Dados apontam que pessoas trans estão presentes nas equipes femininas por serem mais inclusivas (Foto: Divulgação)

Outro ponto que chama a atenção é que os times femininos simbolizam espaços de inclusão, com 28,2% deles tendo atletas trans. Por outro lado, há uma minoria de mulheres na liderança ou na administração. Apenas 29,5% têm treinadoras. 

“Um jogo para as mulheres da várzea é carregado de simbolismos. Não é só uma partida de futebol, porque elas foram proibidas de entrar num campo por 40 anos. É difícil ver técnicas, por exemplo, porque elas ainda estão trilhando um caminho que já é dominado por homens”, afirmou Aira.

“Se hoje nós temos a oportunidade de jogar bola, foi porque alguém lá atrás abriu esse caminho e lutou por esses espaços. As meninas têm a oportunidade de sonhar com a profissionalização, e temos que comemorar isso. Depois de muita resistência, mulheres comuns podem simplesmente acessar um direito da Constituição: o lazer.”

Foto de Livia Camillo

Livia CamilloSetorista

Formada em jornalismo pelo Centro Universitário FIAM-FAAM, escreve sobre futebol há cinco anos e também fala sobre games e cultura pop por aí. Antes, passou por Terra, UOL, Riot Games Brasil e por agências de assessoria de imprensa e criação de conteúdo online.

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