Copa do Mundo Feminina

Espanha supera Holanda numa montanha-russa de emoções e vai à inédita semifinal

A Espanha foi superior na partida, mas a Holanda arrancou um empate dramático no fim e a classificação se selou apenas na prorrogação

A Espanha investiu bastante no futebol feminino durante os últimos anos. Ganhou relevância, com o sucesso de seus grandes clubes, e revelou jogadoras talentosíssimas, ganhando títulos com as seleções de base. A ascensão espanhola, porém, não tinha se refletido na seleção principal – ainda. Na madrugada desta sexta-feira, a Roja se classificou para sua primeira semifinal de Copa do Mundo. Um feito grandioso possibilitado por uma partida eletrizante. O duelo contra a Holanda entregou doses enormes de emoção. A Espanha dominou, criou e até demorou para abrir o placar. A Oranje acordou no final do tempo regulamentar e renasceu com o empate que forçou a prorrogação. O tempo extra foi aberto. E as espanholas agradeceram por contar com um fenômeno: Salma Paralluelo, de apenas 19 anos. A jovem cravou o gol que deu a vitória por 2 a 1 na prorrogação e eliminou as atuais vice-campeãs do mundo. A Roja pegará Japão ou Suécia na semifinal.

Paralluelo merece ainda mais destaque por ser uma personagem especialíssima. A atacante, filha de pai espanhol e mãe equato-guineense, é uma das principais revelações recentes do futebol espanhol. Durante toda a adolescência, a garota conciliou a trajetória nos campos com as pistas de atletismo. Competia em torneios juvenis de 400 metros rasos e 400 metros com barreiras, inclusive com recordes em sua idade, enquanto conquistava os Mundiais Sub-17 e Sub-20 nos gramados. O sucesso com chuteiras a levou a abandonar as pistas, mas a recompensou de outra forma. Jogadora do Barcelona desde a última temporada, Paralluelo vira sensação na Copa do Mundo. Fez boas partidas contra Costa Rica e Suíça, o que tornou sua ausência no time titular contra a Holanda até estranha. Contudo, a jovem saiu do banco e apresentou sua famosa velocidade, além da habilidade, num gol enorme para a Espanha.

Paralluelo era a única mudança na equipe titular da Espanha em relação à goleada sobre a Suíça, e dava lugar a Mariona Caldentey no ataque. A trinca de frente mantinha Esther González e Alba Redondo. Já o meio reunia os talentos de Teresa Abelleira, Aitana Bonmatí e Jennifer Hermoso. Na Holanda, o grande desfalque era a suspensa Danielle van de Donk. Damaris Egurrola Wienke acompanhava Jill Roord na armação. O resto da formação se mantinha, com Lineth Beerensteyn e Lieke Martens no ataque, além de Sherida Spitse e Stefanie van der Gragt como nomes importantes na defesa. No gol, Daphne van Domselaar vinha com moral após a vitória sobre a África do Sul.

Espanha domina, mas não faz

Por características de jogo, era de se esperar que a Espanha dominasse a posse de bola contra a Holanda. O primeiro tempo, no entanto, guardou um controle impressionante da Roja. A equipe tinha muito volume de jogo e conseguia forçar os erros da defesa da Oranje. Não demorou para que as chances pintassem para as espanholas. Logo aos quatro minutos, numa boa tabela, Esther González escapou na área e bateu para fora. Impressionava a capacidade das ibéricas em recuperar a bola rapidamente. As holandesas não conseguiam progredir. Não tinham muito respiro.

O gol da Espanha não saía. E uma das responsáveis por isso era a goleira Daphne van Domselaar. A camisa 1 da Holanda salvou sua equipe aos 17 minutos. Desviou uma cabeçada de Alba Redondo que ainda bateu na trave. No rebote, a goleira teve sua pitada de sorte quando, caída, viu Redondo carimbar o poste de novo. As espanholas dominavam as chances de gol. Quando a Holanda teve um mínimo escape no ataque, foi num cruzamento que quase traiu a goleira Catalina Coll e seguiu para fora.

A reta final do primeiro tempo seria um pouco mais equilibrada em posse de bola, mas não em termos de oportunidades. A Holanda não tinha penetração e não conseguia conectar as suas jogadas. De novo, o gol da Espanha não veio por um triz. Aos 38 minutos, numa bola alçada na área, Redondo ajeitou e Esther González bateu para as redes. Houve um impedimento mínimo, que resultou na anulação do tento. A Roja terminou a primeira etapa com 12 finalizações, contra só uma da Oranje. Faltava eficiência, o que deixava o cenário ainda perigoso para as ibéricas.

A queda e a redenção de Van der Gragt

O segundo tempo voltou ainda pendendo para a Espanha. Esther González mandou um chute muito perto do gol logo no primeiro ataque. A superioridade das ibéricas seguia clara, contra uma Holanda sem muita imaginação para construir. O problema é que a Roja diminuiu sua quantidade de finalizações. Um descuido poderia custar caro, e quase isso aconteceu aos 18 minutos. Lineth Beerensteyn recebeu o passe em profundidade e, mesmo com a marcação apertada, conseguiu escapar para invadir a área. A atacante caiu da área e a árbitra Stephanie Frappart anotou o pênalti, mas anulou com razão depois da revisão no VAR.

A sequência do segundo tempo seria um pouco mais picada, por conta dos atendimentos médicos. Salma Paralluelo entrou neste momento. Depois, Laia Codina chegou a deixar o campo por conta de uma concussão. Mas ainda era a Espanha quem ditava as cartas, à espera do momento de resolver. Sem que a Holanda se apresentasse ao jogo, o gol veio aos 36 minutos. Num cruzamento de Salma Paralluelo pela direita, Stefanie van der Gragt desviou com o braço, num erro infantil. Pênalti, que Mariona Caldentey cobrou no meio do gol, para vencer a goleira Van Domselaar. Quase ainda rolou um tento do círculo central na sequência. Teresa Abelleira arriscou e Van Domselaar deu um tapinha para tirar o tirambaço que tinha endereço.

A Holanda só acordou de verdade depois disso. Quase sempre dependia de Beerensteyn. A atacante teve duas boas escapadas. Na primeira, ficou sozinha com a goleira Coll e bateu em cima, facilitando a defesa. Na segunda, fez fila diante da marcação e chutou sem direção. No desespero, Van der Gragt virou atacante. E as circunstâncias foram favoráveis à Oranje. Primeiro, pelos 12 minutos de acréscimos. Depois, pela saída de Aitana Bonmatí, o que desorganizou a Espanha. Por fim, pela estrela de Van der Gragt. A camisa 3 empatou aos 46 minutos. Victoria Pelova deu uma enfiada perfeita, para a defensora escapar das marcadoras e encher o pé, tirando do alcance de Coll. Belo gol. O restante dos acréscimos foram abertos. As holandesas assustavam em algumas escapadas em velocidade. As espanholas voltavam a ter a bola, mas ainda com dificuldades de definir.

Paralluelo brilha

O primeiro tempo da prorrogação contou com o momento de domínio mais contínuo da Holanda. A equipe começou bem, com o controle no ataque, mas não capitalizou. Nas principais tentativas, a goleira Coll conseguiu fazer defesas bem seguras. A Espanha voltou a crescer com o passar dos minutos e pressionou no final da primeira etapa extra. Tinha suas melhores chegadas nas bolas aéreas, com Hermoso testando Van Domselaar. Do outro lado, Coll precisou sair da área para um chutão, quando Beerensteyn quase escapou sozinha. As espanholas fizeram três alterações nesta primeira metade da prorrogação, botando Alexia Putellas.

Van der Gragt saiu logo na volta do segundo tempo da prorrogação. Quem seguia em campo era Beerensteyn, um pesadelo em cada ação. A atacante de novo ficou a um triz do gol, numa escapada em velocidade, mas chutou para fora. Pouco depois, uma bola levantada na área pingou limpa para Beerensteyn e ela isolou na risca da pequena área. Custou caríssimo. Afinal, a Espanha anotou o segundo gol segundos depois, no talento de Paralluelo. A atacante arrancou, gingou diante da marcação e finalizou com enorme precisão. A bola beijou o pé da trave e entrou. Restavam oito minutos para a Holanda tentar sobreviver.

Apesar das necessidades, a Holanda não produziu muito na reta final. A Espanha ainda finalizou mais para buscar o terceiro gol. Com autoridade, a Roja pôde comemorar a vitória. É uma classificação que valoriza a equipe, mesmo sem fazer a melhor atuação. Faltou um pouco mais de objetividade e precisão no ataque, mas o resultado final recompensou. Já a Holanda se despede com um resultado amargo, até pela maneira como o time não funcionou na maior parte do tempo. Apesar disso, no geral, foi uma Copa positiva do time. E que se encerra também por méritos de uma adversária que, pelo que investe no futebol de mulheres, colhe os frutos na semifinal.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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