Copa do Mundo Feminina

Brasil sai da Copa do Mundo Feminina em dívida com Marta

Marta encerra sua carreira na seleção do Brasil em uma Copa do Mundo Feminina marcada por vexame enorme

Foram muitos os problemas técnicos e táticos observados no empate da seleção brasileira por 0 a 0 com a Jamaica. O resultado, que culminou em uma eliminação precoce na fase de grupos, fato que não acontecia há quase 30 anos, teve gosto ainda mais amargo por um detalhe que está muito longe de ser pequeno ou insignificante. A despedida de Marta.

Após seis participações em Copas do Mundo, a maior jogadora de todos os tempos vestiu a camisa azul do Brasil pela última vez, segundo ela mesma. “Para mim é o fim da linha”, disse, em entrevista concedida depois do jogo. Foram pouco mais de 75 minutos em campo como titular de muita entrega. Mas também de nervosismo e melancolia.

Dizer que o Brasil errou muito é ‘chover no molhado'. O Brasil até criou, mas faltou refino no passe, e até organização tática em alguns momentos. Faltou caprichar na finalização. E de lá de dentro do campo, a Rainha pouco pode fazer. Brigou, lutou, mas não conseguiu carregar a jovem seleção brasileira, carregada pela bandeira da renovação, rumo às oitavas de final. Uma despedida muito aquém do que se desejava.

Pouco caso ao adeus de Marta da Seleção

Despedidas não são o forte da Era Pia na seleção brasileira, e isso ficou claro em 2021, quando Formiga despediu-se de forma oficial da equipe. Foram 26 anos de dedicação. Um dos maiores nomes na era pós-pioneiras, a atleta com maior número de jogos com a camisa amarela entre homens e mulheres deu adeus à seleção em um amistoso contra a Índia.

A vitória por 6 x 1 no placar ficou em segundo plano. No banco de reservas, Formiga entrou já com 32 minutos do segundo tempo, e jogou por apenas 15, para tristeza das arquibancadas da Arena Amazônia, que cantavam “Formiga, cadê você? Eu vim aqui só para te ver”. A justificativa da técnica, na época, era a renovação. Miraíldes recebeu flores de Marta, chorou, agradeceu aos torcedores e pediu o de sempre: que o poio permanecesse.

À Marta, restou apenas a emoção por uma eliminação muito longe de casa.

Marta na Copa do Mundo Feminina 2023

Mesmo vinda de uma temporada de lesões, Marta precisava estar na competição. Espelho para grande parte do elenco, ela passava segurança, experiência, orientação. Do banco de reservas, ela viu o Brasil golear o Panamá e a estrela de Ary Borges, sua grande fã, brilhar.

“Fiquei feliz demais por ela. Óbvio que fazer três gols em uma estreia não é nada fácil, e ela foi abençoada. Na verdade, ela fez três gols e ainda deu uma assistência. Então, foram quase quatro, porque aquele ali [terceiro gol], se ela não tivesse tido a leitura tão perfeita de ver a Bia [Zaneratto], ela poderia até ter tentado finalizar. Foi muito feliz”, disse, sobre a camisa 17.

Na dolorida derrota para a França, ela ainda estava no banco de reservas, nervosa, quando Wendie Renard fez o gol da vitória europeia. Entrou três minutos depois. Tempo insuficiente para mudar o resultado.

Contra a Jamaica veio de titular. Experiência e confiança para o time, diziam. Mas a ansiedade se transformou em pouca efetividade. O Brasil tentava, mas pecava demais no último terço do campo. A posse de bola foi tão superior que Letícia Izidoro foi pouquíssimo acionada. O resultado não vinha. Sobrou para a Rainha.

Aos 30 minutos do segundo tempo, ela deixou o jogo ao lado de Antônia e Luana para a entrada de Geyse, Duda Sampaio e Andressa Alves. E com o apito final, se emocionou. A Copa tinha acabado para o Brasil. A Copa do Mundo tinha acabado para Marta.

Continuem a apoiar o futebol feminino

Em entrevista à Fifa após o fim da partida, Marta pediu para que o público continue apoiando a seleção feminina como foi feito durante todo esse ciclo, que envolveu campanhas ruins tanto nas Olimpíadas quanto na Copa.

“É difícil falar. Não era nos meus piores pesadelos a Copa que sonhava. É só o começo. Povo brasileiro pedia renovação, está tendo a renovação, a única velha sou eu e talvez a Tamires perto de mim. A maioria são meninas talentosas com caminho enorme pela frente. Termino aqui, mas elas continuam. Vocês pediram renovação, está tendo renovação. Quero que as pessoas continuem tendo o mesmo entusiasmo como começou a Copa, continuem apoiando, porque as coisas não acontecem do dia para o outro”.

“Estamos vendo seleções que tomavam de sete, oito, 10 e está jogando de igual. O futebol feminino vem crescendo, o futebol feminino é um produto que dá lucro, prazer de assistir, continuem apoiando. A Marta acaba por aqui, estou grata pela oportunidade que tive, e muito contente com tudo isso que vem acontecendo com o futebol feminino do nosso Brasil e do Mundo. Para mim é o fim da linha agora, para elas só o começo”.

Foto de Denise Bonfim

Denise Bonfim

Denise Bonfim é jornalista e produtora de conteúdo. Participou da cobertura de duas Copas do Mundo e duas Olimpíadas, e soma passagens por Estadão, CNN, Jovem Pan, UOL e Globo.
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