Copa do Mundo Feminina: Como será a organização do torneio entre dois países
Evento terá dois torneios paralelos, um concentrado na Austrália e outro na Nova Zelândia, com o cruzamento dessas metades apenas na final
A Copa do Mundo Feminina, pela primeira vez em sua história, se dividirá entre dois países. Será uma edição inédita com 32 seleções e que também demandará uma logística especial, com sua realização compartilhada entre Austrália e Nova Zelândia. Serão usados dez estádios ao longo da competição, seis deles em cidades australianas (Sydney terá dois palcos) e quatro deles em cidades neozelandesas. E a organização do Mundial se dividirá de maneira relativamente equilibrada entre os países. Metade dos times terão sede na Austrália, a outra metade na Nova Zelândia. Serão duas “conferências” paralelas, que se cruzarão apenas na final.
O modelo de organização da Fifa não é novo. O que acontecerá na Copa Feminina de 2023 é parecido com o que ocorreu na Copa Masculina de 2002. De início, o Mundial da Coreia do Sul e do Japão também funcionou como dois torneios paralelos. As partidas dos Grupos A, B, C e D aconteceram nos estádios sul-coreanos, enquanto os Grupos E, F, G e H se concentraram nas cidades japonesas. Já nos mata-matas, os classificados dos Grupos A, C, F e H fizeram seu caminho todo até as semifinais no Japão, enquanto os classificados dos Grupos B, D, E e G atuavam na Coreia do Sul. A final aconteceu na japonesa Yokohama e a decisão do terceiro lugar, na sul-coreana Daegu.
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A Copa do Mundo Feminina adota princípios parecidos, mas de maneira ainda mais separada. Sequer haverá cruzamentos entre países das duas “conferências” no início dos mata-matas. Os Grupo A, C, E e G atuarão na Nova Zelândia, enquanto os Grupos B, D, F e H terão sedes na Austrália. Nos mata-matas, líderes e vice-líderes dos Grupos A, C, E e G atuarão em estádios neozelandeses até as semifinais – com a exceção de duas partidas das oitavas na costa leste da Austrália. Já os líderes e vice-líderes dos Grupos B, D, F e H jogarão apenas em cidades australianas nos mata-matas. Final e decisão do terceiro lugar ocorrerão também na Austrália. Equipes como o Brasil, no Grupo F, sabem que não jogarão na Nova Zelândia até o fim da competição.
A ideia da Fifa é simples: dividir as bases das seleções igualitariamente entre os dois países e facilitar os deslocamentos. As viagens antes das partidas deverão ocorrer majoritariamente de avião e as rotas se tornam mais rápidas, com raros cruzamentos da Austrália para a Nova Zelândia e vice-versa. Além disso, no território australiano, que é bem mais extenso, a maioria dos times ficará concentrada na costa leste. As exceções são aqueles que jogarão mais vezes em cidades distantes e escolheram inclusive centros de treinamento mais próximos dessas localidades.
A divisão entre Austrália e Nova Zelândia
- Grupos A, C, E e G na Nova Zelândia
- Grupos B, D, F e H na Austrália
- 16 seleções com base na Nova Zelândia
- 16 seleções com base na Austrália
- Cinco jogos dos mata-matas na Nova Zelândia
- Onze jogos dos mata-matas na Austrália, inclusive a final
Como foi pensada a distribuição das sedes
O planejamento inicial de Austrália e Nova Zelândia para a Copa do Mundo previa 13 estádios distribuídos em 12 sedes – com sete cidades australianas e cinco neozelandesas. Os dois países indicavam que o mínimo de cinco estádios em cada um deles deveria ser mantido. Além disso, a organização logística do Mundial se dividiria em três grandes áreas: a costa sul da Austrália, a costa leste da Austrália e a Nova Zelândia. Os grupos se concentrariam nestas regiões para facilitar as viagens aéreas das seleções e também das torcidas.
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A Fifa, entretanto, alterou os planos de Austrália e Nova Zelândia. As cidades de Newcastle (nos arredores de Sydney) e Launceston (na Tasmânia) deixaram de ser sedes australianas, enquanto Christchurch (na Ilha Sul) perdeu espaço entre as sedes neozelandesas. A partir de 2021, o Mundial passou a ser planejado com seis estádios na Austrália e quatro na Nova Zelândia. Diante do recorte, o torneio se concentraria em duas grandes áreas de influência na composição de seus grupos – uma na Austrália, sobretudo na populosa costa leste do território, e outra na Nova Zelândia. O planejamento logístico partiria daí.

Todas as sedes da Austrália estão entre si a uma distância de no máximo cinco horas de voo. Já as sedes da Nova Zelândia se separam a no máximo duas horas de voo. Do ponto de vista logístico e com a malha aérea à disposição nos países, o desafio de organizar o torneio não era tão grande – menor do que o ocorrido na Copa do Mundo de 2014 no Brasil, por exemplo. As cinco cidades da Austrália no Mundial possuem aeroportos com trânsito superior a cinco milhões de passageiros por ano, assim como duas das sedes na Nova Zelândia.
Tal capacidade de conexão foi considerada um ponto forte da candidatura de Austrália e Nova Zelândia pela avaliação técnica da Fifa, sobretudo pela maneira como as viagens longas por terra eram impeditivos às seleções. “Enquanto a geografia de Austrália e Nova Zelândia poderia envolver longas jornadas entre cidades sede, geralmente por ar, ambos os países (e suas cidades propostas) têm considerável experiência em receber grandes torneios e eventos, e o transporte não deve ser um grande desafio”, analisou a entidade.
De todas as cidades envolvidas, apenas Auckland e Hamilton permitem um deslocamento mais curto por terra, em viagem de uma hora e meia via estrada. De resto, todas as outras distâncias por terra superam os 600 quilômetros de estrada. Desde o princípio, a organização do Mundial considerou ajustar as sequências de partidas das equipes às conexões aéreas que facilitassem as viagens das delegações. Apenas para o público é que a malha viária e ferroviária foi considerada como alternativa.
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Como serão as sequências de viagens
As seleções presentes nos grupos com sede na Nova Zelândia não deverão ter grande preocupação com viagens longas. O deslocamento entre as sedes não deve exceder duas horas de voo. As viagens serão feitas em aeronaves comerciais ou, se necessário, em voos fretados. Além disso, quatro equipes irão eventualmente para a Austrália nas oitavas de final, em duas partidas deslocadas ao país. Uma partida acontecerá em Sydney e outra em Melbourne, antes que os times classificados voltem para as quartas de final em estádios neozelandeses. As viagens entre a Nova Zelândia e a costa leste da Austrália duram cerca de três horas.
Já na Austrália, as distâncias são mais longas. No entanto, as únicas equipes que farão duas viagens com mais de quatro horas de duração na fase de grupos serão Dinamarca e Haiti. Os dois times estarão sediados em Perth, na costa sudoeste do país. De resto, cada time fará travessias menores dentro do país. Nos mata-matas, Perth não receberá mais partidas e Adelaide, numa área mais central na costa sul, terá apenas um jogo das oitavas. Ao todo, 10 dos 16 duelos dos mata-matas ocorrerão nas três cidades da costa leste australiana – Brisbane, Melbourne e Sydney.
A CBF inclusive divulgou publicamente seu planejamento para a fase de grupos da Copa do Mundo. A Seleção estará concentrada em Brisbane, na costa leste, e fará suas viagens de avião na véspera das partidas. A volta para Brisbane ocorrerá no dia seguinte aos jogos. O Brasil atuará na sua estreia em Adelaide e o terceiro compromisso ocorrerá em Melbourne. O segundo embate, em Brisbane, ainda poupará a equipe do deslocamento aéreo. Já nos mata-matas, a Canarinho deixará de ter sede fixa e mudará sua base conforme avançar na competição. Caso o time de Pia Sundhage avance em primeiro, atuará em Adelaide, antes de retornar à costa leste para a reta final.

Como as seleções se distribuirão em suas bases
Pela primeira vez na história da Copa do Mundo Feminina, cada seleção terá uma base exclusiva para treinamentos. As equipes se concentrarão nesses locais sobretudo durante a fase de grupos, mas alguns times também planejam a permanência ao longo dos mata-matas. As estruturas garantirão a hospedagem das atletas e das comissões técnicas, bem como locais apropriados para treinamentos. Os complexos esportivos incluem estádios espalhados por ambos os países e servem a diferentes modalidades.
Com a divisão clara dos grupos da Copa do Mundo, 16 seleções terão suas bases na Austrália e outras 16 na Nova Zelândia. No caso das cidades australianas, a maior parte das equipes estará hospedada na costa leste do país. O Brasil ficará nos arredores de Brisbane, onde também se concentrarão Austrália, Nigéria e Irlanda. Sydney reunirá as seleções de Alemanha, Inglaterra, França, Coreia do Sul e Colômbia. Já Melbourne contará com Canadá, Jamaica e Marrocos.

Mais ao centro do litoral sul da Austrália, Adelaide receberá as seleções da China e do Panamá. Já na costa oeste, Dinamarca e Haiti ficarão mais afastadas em Perth. China, Dinamarca e Haiti estão no Grupo D, o único com duas partidas em Perth e também o único com duas em Adelaide. Chama atenção a situação das haitianas, que farão viagens mais constantes. Apenas a última partida da fase de grupos acontecerá em Perth. Enquanto isso, a Dinamarca terá dois compromissos no estádio local.
No caso das 16 seleções da Nova Zelândia, a maior parte de concentrações fica na Ilha Norte, que conta com três das quatro cidades sede do Mundial. Serão 13 delegações espalhadas por lá. Argentina, Itália, Nova Zelândia, Filipinas, Noruega, Estados Unidos, Portugal e Vietnã ficarão hospedadas em Auckland. Zâmbia (Hamilton) e Holanda (Tauranga) não estarão tão distantes. Mais ao sul da Ilha Norte ficarão Espanha (Palmerston North), Suécia (Trentham) e África do Sul (Wellington).
Além disso, outras três seleções ficarão na Ilha Sul. A Suíça estará em Dunedin, única cidade sede dos jogos na Ilha Sul, por fazer duas partidas no estádio local. Já Christchurch, que terminou limada pela Fifa na escolha final das cidades, abrigará os elencos de Japão e Costa Rica. Pesa o fato de a cidade contar com um dos maiores aeroportos da Nova Zelândia, bem como com uma estrutura esportiva ampla por influência de diferentes modalidades. Também não serão viagens longas rumo aos extremos do país.
O evento-teste
A Copa do Mundo Feminina contou com um evento-teste para experimentar parte de sua estrutura e da logística para o torneio. Em fevereiro de 2023, a repescagem intercontinental reuniu dez seleções, que disputaram mini-torneios para definir as três últimas classificadas para o Mundial. Por decisão da Fifa, os duelos se concentraram em campo neutro na Nova Zelândia. Das sete partidas realizadas, quatro aconteceram no estádio de Hamilton e outras três em Auckland. Além disso, amistosos paralelos ocorreram nas duas cidades, envolvendo inclusive a Nova Zelândia e outras seleções que não disputavam os lugares restantes no Mundial.
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O novo formato de mini-torneio foi importante também para testar a viabilidade do modelo. A ideia colocada em prática na Copa Feminina de 2023 também será aplicada na Copa Masculina de 2026. A repescagem intercontinental entre os homens também será nesse tipo de chaveamento, envolvendo seis equipes pelas duas últimas vagas no Mundial. Da mesma maneira, será um evento-teste para experimentar as estruturas de determinadas cidades sede do torneio que ocorrerá nos Estados Unidos, no México e no Canadá.
Quanto custa para o torcedor viajar na Copa Feminina
Por conta dos deslocamentos internos na Austrália e na Nova Zelândia, o sonho de acompanhar a Copa do Mundo Feminina in loco não é dos mais baratos. Pacotes de viagens em sites estrangeiros são vendidos por cerca de R$15 mil (geralmente em dólares ou dólares australianos) para acompanhar uma seleção específica durante a fase de grupos. Além dos voos entre diferentes localidades, as companhias oferecem também serviços como ingressos, hospedagem, passeios turísticos e transporte dentro das cidades.
No Brasil, a empresa que detém exclusividade na venda de pacotes de hospitalidade para a Copa do Mundo Feminina é a Momê. Há serviços mais simples e também mais sofisticados. O plano mais barato para as partidas custa pouco menos de R$1 mil. No entanto, é possível também fechar um camarote para a decisão do torneio ao custo de até R$114 mil. Neste caso, não estão incluídas as hospedagens e as passagens aéreas.
Para quem preferir montar a própria logística, os preços das viagens também são salgados. Um voo só de ida entre Auckland e Sydney custa pelo menos R$400. Voos internos na Nova Zelândia são mais baratos, com o trecho mais longo, de Auckland a Dunedin, saindo a partir de R$285. Já na Austrália, o trecho mais longo, de Brisbane a Perth, custa em média R$900. Trechos entre as cidades na costa leste australiana ou na Ilha Norte neozelandesa também podem ser feitos por rodovia ou ferrovia, o que demanda outro tipo de planejamento pelos deslocamentos mais demorados.

