Copa do Mundo Feminina

Austrália derrubou a França nos pênaltis em um duelo tomado por tensão, drama e insanidade

Após trocar chances perdidas com as francesas, as australianas desperdiçaram dois pênaltis que valeriam a vaga até finalmente confirmarem que, pela primeira vez, estarão nas semifinais

A Austrália começou a Copa do Mundo que ajudou a sediar ao lado da Nova Zelândia com problemas. Derrotou a Irlanda por um placar apertado e perdeu da Nigéria. Para piorar, Sam Kerr machucou a panturrilha e houve incerteza até se conseguiria disputar o torneio. A goleada sobre o Canadá, campeão olímpico, foi uma mensagem. E neste sábado, após trocar chances perdidas com a França em um 0 a 0 com bola rolando, venceu nos pênaltis para chegar à semifinal pela primeira vez em sua história – depois de parar três vezes nas quartas de final.

Foi uma das disputas de pênalti mais insanas que já existiram. A Austrália saiu na frente, permitiu o empate, mas depois teve duas oportunidades desperdiçadas de selar a vaga. Mackenzie Arnold teve que defender a mesma batida duas vezes porque a primeira foi anulada pelo VAR. Cada lado chutou dez vezes da marca do cal. As australianas venceram por 7 a 6, para o delírio da torcida local, que passou mais de duas horas com o coração na garganta.

A França, melhor no primeiro tempo e na prorrogação, embora a Austrália tenha tido chances claras de marcar, foi competitiva, com o trabalho ainda curto de Hervé Renard, mas novamente parou nas quartas de final. Pela terceira vez seguida.

França domina, Fowler perdoa

A seleção francesa foi melhor no primeiro tempo. Teve uma chance logo aos sete minutos, quando Kadidiatou Diani ganhou no corpo ao perseguir um lançamento e bateu cruzado com perigo. Tomava a dianteira e foi premiada com a sua melhor chance. E é inacreditável que a bola não tenha entrado. Renard dividiu um escanteio pelo alto, e Eugénie Le Sommer chegou batendo de perna esquerda. A bola foi exatamente na direção de Maëlle Lakrar, sozinha, na pequena área. Era apenas encostar. A defensora do Montpellier furou.

A Austrália ainda não tinha comparecido ao setor ofensivo, mas a França não manteve o ímpeto na criação. E quase foi punida. Porque o primeiro tempo terminou com duas ótimas chances para a atacante Mary Fowler. A primeira, tudo bem, podemos colocar na conta de Élisa de Almeida. As donas da casa chegaram pela direita e, após uma indecisão entre Sakina Karchaoui e Pauline Magnin, Emily van Egmond cruzou para Fowler, de frente, com o gol vazio. De Almeida fez um lindo corte quase em cima da linha para evitar o gol.

Antes do intervalo, Fowler recebeu a bola longa entre as zagueiras e tentou tocar na saída da goleira. Magnin saiu na hora certa para abafar.

Austrália equilibra

Os números são quase invertidos no segundo tempo. A França teve nove finalizações antes do descanso e caiu para cinco – nenhuma no alvo. A Austrália pulou de três para 11. A posse de bola também foi diferente, 52% para as francesas na etapa inicial, 53% para as australianas na final. A mudança de postura foi visível e poderia ter gerado um gol. Mas realmente não era o dia da Fowler.

Se o pé não estava afiado, pelo menos ela estava ligada e interceptou um passe ruim de Magnin na saída de bola. Entrou na área, deu o corte para a perna direita e bateu rasteiro, com desvio para escanteio. Após se lesionar no começo da Copa do Mundo, Sam Kerr saiu do banco de reservas aos 10 minutos e, logo de cara, puxou um contra-ataque que terminou com uma batida forte de Hayley Raso, bem defendida por Magnin para escanteio.

Aos 14 minutos, a defesa da França lidou mal com um cruzamento da direita, e Fowler recebeu de frente. Bateu rasteiro e com força, mas Magnin defendeu com as pernas. A partida seguiu disputada, os nervos se acirraram. As chances de gol secaram, e a prorrogação chegou ao estádio Suncorp em Brisbane.

Hervé Renard troca a goleira

A França poderia ter resolvido a parada na prorrogação. Teve até um gol contra de Alanna Kennedy, mas a árbitra Maria Carvajal identificou, corretamente, uma falta de Wendie Renard no lance. A Austrália encaixou um bom ataque com uma subida de Caitlin Ford pela esquerda. Cortnee Vine se antecipou na primeira trave e desviou com perigo. Mas no geral a prorrogação foi dominada pelas francesas.

Grace Geyoro fez uma grande jogada, aos cinco minutos do segundo tempo, dominando e tirando da marcação ao mesmo tempo. Cruzou sem ângulo, e Arnold conseguiu apenas o desvio. Stephanie Catley afastou o perigo na boca do gol. Como Louis van Gaal pela seleção holandesa masculina na Copa do Mundo de 2014, Hervé Renard colocou suas fichas na mesa para a disputa de pênaltis ao trocar Magnin por Solène Durand, nos acréscimos.

Antes das batidas, Le Sommer tentou resolver. Trouxe pela direita, arrancou em zigue-zague e soltou a perna direita. Arnold espalmou para fora.

O delírio e a loucura dos pênaltis

Quem mais brilhou, porém, foi a goleira australiana Mackenzie Arnold. Ela abriu os trabalhos defendendo a batida de Selma Bacha, mas quem achou que tudo se decidiria na primeira cobrança se enganou redondamente. Foi uma das disputas de pênaltis mais doidas dos últimos tempos. A Austrália chegou a ter a vantagem três vezes e desperdiçou dois pênaltis que lhe dariam a vaga antes de finalmente confirmá-la pelos pés de Courtnee Vine – na décima batida das anfitriãs.

Depois da primeira defesa da goleira do West Ham, Caitlin Foord cruzou de perna direita e colocou a Austrália à frente pela primeira vez. Diani empatou, mas Durand justificou a confiança de Hervé Renard defendendo a cobrança de Stephanie Catley, a batedora oficial das Maltidas. Havia convertido contra Irlanda e Canadá na fase de grupos. Wendie Renard fez 2 a 1 para a França, e Sam Kerr empatou em 2 a 2.

A histórica Le Sommer marcou com tranquilidade. Fowler era a próxima e bateu com tanta força, tanta raiva, que pareceu querer compensar os gols perdidos com bola rolando. Conseguiu. Ève Périsset não cobrou tão bem. Arnold conseguiu desviar o chute cruzado e o direcionou ao pé da trave. Deu à Austrália a chance de se classificar. Ou melhor: a si própria. Arnold assumiu a responsabilidade pelo quinto pênalti. Bateu alto. Mandou na trave.

As alternadas não foram menos insanas. Geyoro deu uma paradinha, bateu mal, no meio do gol, mas conseguiu marcar. Arnold ficou reclamando com a árbitra. Durand colocou as mãos no chute de Katrina Gorry, sem conseguir fazer a defesa. Karchaoui marcou para a França, Tameka Yallop para a Austrália, Lakrar para a França, Carpenter para a Austrália. De repente, ninguém errava. A tensão crescia.

E eclodiu quando Kenza Dali bateu mal de perna direita, aberto. Arnold fez a defesa. No entanto, o assistente de vídeo chamou Carvajal ao identificar que a goleira australiana havia se adiantado. De fato, nenhum dos seus pés estava na linha quando pulou. A vaia no estádio de Brisbane foi enorme. Dali teve uma nova oportunidade e bateu no mesmo lado, mas pelo alto. Arnold fez outra defesa, melhor ainda.

A Austrália novamente teve o pênalti da classificação aos seus pés. Clare Hunt tinha tudo para ser heroína. Encheu o pé no meio e… Durand defendeu. Mas a França entregou outra chance para as donas da casa, com o erro de Vicki Becho, que bateu cruzado no pé da trave. Pela terceira vez, a Austrália precisava apenas acertar um pênalti para chegar à semifinal. Era a décima cobrança. Mal havia alguém sobrando.

Cortnee Vine bateu firme. A Austrália avançou e espera Inglaterra ou Colômbia.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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