Conmebol faz o mínimo ao ouvir críticas de jogadoras sobre estrutura na Copa América Feminina
Seleção brasileira compartilhou descaso sofrido durante principal competição de seleções do continente
A Copa América Feminina de 2025 ainda vive a fase de grupos, mas já foi alvo de críticas refletidas pelo descaso dado pela Conmebol à principal competição da América do Sul, responsável pela classificação na Copa do Mundo do Brasil em 2027 e para as Olimpíadas de Los Angeles, no ano seguinte.
O cenário de amadorismo passou a ser exposto logo após a partida do Brasil contra a Venezuela, quando o treinador Arthur Elias foi questionado pela ausência de Kerolin como titular na primeira partida da equipe nacional.
— A gente, infelizmente, está em uma competição que as seleções não aquecem no campo ou seja, elas não aquecem futebol, elas aquecem outros movimentos, algumas coisas que a gente tenta chegar o mais próximo possível de uma situação de jogo, mas é muito longe. Porque [onde aquecemos] é mais ou menos do tamanho dessa sala [de imprensa]. A gente só consegue aquecer as titulares, não podemos nem aquecer as reservas. Não são gestos que são de jogo. Não tem troca de passes, não tem intensidade — revelou o técnico da seleção brasileira.
Mas a situação ficou ainda pior antes do jogo contra a Bolívia. Sem a permissão para realizar o aquecimento à beira do gramado (por receberem dois jogos em sequência), às seleções foi dada apenas uma sala em que teriam que compartilhar para realizar o aquecimento e as atividades durante os momentos que antecederam a partida.
De acordo com o “ge”, houve um princípio de confusão entre os times. Na ocasião, o Brasil teria recebido uma sala bem menor em comparação ao espaço cedido para as bolivianas.
Após o jogo, a meia Ary Borges detalhou as condições dadas às jogadoras para atividades, cobrou o presidente da entidade, Alejandro Domínguez, por melhorias no torneio e comparou as estruturas oferecidas para o torneio masculino e feminino.
— A gente passou por uma situação muito complicada. No começo da partida, acho que a Bolívia até entendeu as coisas erradas. A gente, dentro do esporte, tem que se juntar e não ficar uma contra a outra. Porque o que a Conmebol está fazendo é ridículo. Até os jogos de várzea eram mais organizados do que está tendo. Perguntar para o Alejandro se ele conseguiria aquecer dentro de um espaço de 5,10 metros e com cheiro de tinta. Acho que a gente teve o exemplo da Copa América Masculina, com uma estrutura enorme. Por que a feminina está tendo esse tipo de coisa? A gente ter que dividir um espaço de 10,15 metros quadrados para aquecer. É algo que fica o questionamento para ele, como presidente. Acho que a gente merece coisa melhor — reforçou a jogadora em entrevista ao “Sportv”.
O coro foi entoado pela rainha Marta. Atuando pelo Orlando Pride, dos Estados Unidos, desde 2017, a jogadora enfatizou a preocupação com a forma como as competições na América do Sul estão sendo realizadas e pediu atitudes da Conmebol.
— Havia muito tempo que eu não jogava um campeonato aqui na América do Sul e ficamos tristes com essas situações. Cobram desempenho das atletas e um nível alto de trabalho, mas também temos que cobrar um alto nível de organização. Temos o direito de cobrar a organização. Essa situação realmente atrapalha, não tinha espaço suficiente para as duas equipes, mas ambas queriam estar ali para se preparar. Realmente, não entendo o motivo de não poder aquecer no campo. Isso ainda é ruim para gente porque aqui é muito abafado, tem a altitude. Torcemos para que a Conmebol reverta algumas coisas e melhore — declarou ao “ge”.
O cenário encontrado no torneio criou um alerta, chamando atenção para o descaso com o desenvolvimento do futebol de mulheres na região, que se aproxima de sediar uma Copa do Mundo Feminina, realizada pela primeira vez na América do Sul.
A gente tem uma Copa do Mundo que vai ser no Brasil, mas vai representar todo o futebol sul-americano. Estamos juntos para fazer essas reflexões e cobrar quem tem que ser cobrado. Estou sempre à disposição para colocar esses pontos em alerta — destacou Arthur Elias.
— Os acréscimos e o tempo de bola rolando são coisas que nós como futebol sul-americano precisamos ter mais cuidado para evoluir. Perguntei à árbitra qual critério para paralisar, porque a Fifa recomenda 60% de bola rolando e no primeiro tempo tivemos abaixo de 40%. No segundo, foram 32% de posse. Isso é muito ruim para o futebol. E pode ser determinante para a classificação, porque o saldo de gols é critério de desempate. Estamos fazendo diferente da Fifa? E por que estamos fazendo? — finalizou o treinador.

Após críticas, Conmebol altera protocolo de aquecimento
Após a seleção brasileira compartilhar as situações vividas no período de preparação da Copa América, e cobrar atitudes por parte da Conmebol, a entidade anunciou a alteração no protocolo de aquecimento para as partidas a partir da próxima rodada.
— Após uma avaliação do campo nos estádios da competição, e levando em consideração o feedback recebido, a Conmebol decidiu implementar um ajuste em suas operações. A partir de agora, além das goleiras, as jogadoras de linha também poderão se aquecer em campo pelo mesmo período de 15 minutos — decidiu a entidade.
Em contrapartida ao que vivem as seleções da América do Sul, o futebol feminino vê avanços ainda maiores na Eurocopa Feminina, realizada no mesmo período. O torneio europeu teve recorde de público na primeira fase, aumento no investimento e na premiação, além de utilizar tecnologia para auxiliar as decisões na partida, como o VAR e o impedimento automático.
Já na Copa América, o árbitro de vídeo só estará disponível na fase do mata-mata.
— Estou assistindo a Euro hoje. É surreal a diferença de estrutura, audiência e investimento. Chega a ser desanimador. Não queria vir aqui falar sobre isso, mas estrutura seria o mínimo para nós. Não tem como o mundo todo evoluir e aqui não ser feito nem questão. Pelo mesmo é a experiência que estou tendo. Espero que revejam e melhorem é uma competição entre SELEÇÕES!! Enquanto na Euro bate recordes de tecnologia, a gente aquece em uma sala de MÁXIMO 20m com cheiro de tinta. BIZARRO — publicou a Kerolin.
Líder no Grupo B e invicto na competição, o Brasil voltará à campo na próxima terça-feira, onde enfrentará o Paraguai, às 21h.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
Falta de estrutura na Libertadores
Episódios de falta de estrutura e reclamações por amadorismo da Conmebol ao tratar o futebol de mulheres se acumulam. Na Libertadores de 2024, a meia Gabi Zanotti, do Corinthians, veio a público para criticar as condições do gramado e do ônibus oferecido para transportar as jogadoras.
A jogadora chegou a compartilhar uma foto do veículo com as cadeiras rasgadas e com espuma aparente, além de afirmar que o ar condicionado não estava funcionando como esperado. Zanotti também foi eleita a artilheira do campeonato, mas relatou que o seu troféu foi entregue quebrado.
Após a competição, atletas do Timão e comissão técnica publicaram um vídeo em repúdio à forma como a Libertadores foi realizada e pedindo melhores condições para o torneio.
Já a goleira do Boca Juniors, Oliveros, chamou atenção para o curto período entre os jogos, relatando o desgaste físico que foi acompanhado das altas temperaturas. O torneio foi realizado no Paraguai.



