Como São Paulo se tornou um motor do futebol feminino no Brasil
Como um tetracampeão e uma ex-capitã da Seleção ajudaram a desenvolver o futebol paulista para o crescimento do futebol feminino no Brasil
A história do futebol no Brasil está muito ligada a São Paulo. Foi por aqui que Charles Miller, considerado o pioneiro no Brasil, chegou para espalhar o que se tornaria o esporte mais popular do país. Quando se trata especificamente do futebol feminino, a história é um pouco diferente, com muito mais idas e vindas e uma proibição que vigorou por décadas, alijando a modalidade. Apesar disso, São Paulo, e especificamente a Federação Paulista de Futebol, tem uma grande importância para o crescimento atual do futebol feminino, que chega à Copa do Mundo 2023 no seu melhor momento na história.
O futebol feminino brasileiro tem uma história muito rica que envolve luta e resistência em meio a dificuldades. No mundo, se vive um crescimento acelerado do futebol feminino neste século 21 e a Copa do Mundo Feminina em 2019 é um marco nesse sentido. A edição de 2015 teve muito menos exposição, com transmissão na TV Brasil, enquanto a de 2019 foi transmitida pela TV Globo, incluindo a final, que teve a maior audiência do mundo no Brasil, mesmo sem a seleção brasileira envolvida.
O interesse pelo futebol feminino, somado a uma exposição que passou a ter, ajudou a chegar a esse resultado. Muita gente trabalhou por isso, em diversos locais do Brasil, seja com iniciativas ligadas a projetos sociais, seja com pessoas ligadas a federações e clubes. Em São Paulo, essa história teve um ponto de virada importante.
A ex-capitã da seleção que ajudou a moldar o futebol feminino em São Paulo

No Brasil, já víamos alguns fenômenos. O maior deles, sem dúvida, o Corinthians. O time do Parque São Jorge se tornou uma potência. O processo, porém, não foi do dia para a noite. Ainda em 2014, o Corinthians já tinha uma diretora, Cristiane Gambare, que trabalhava para o futebol feminino. Foi naquele ano que ela levou ao clube uma pessoa que se tornaria chave para o desenvolvimento do futebol feminino no Brasil: Aline Pellegrino.
Ex-zagueira, Aline tinha se aposentado do futebol em 2013 e tinha tentado a carreira como técnica. Foi uma passagem breve, no Vitória de Santo Antão. O suficiente para ser campeã invicta do Campeonato Pernambucano. “Eu falo para todo mundo que foi uma experiência muito mais legal os cinco meses como técnica do que os 16 anos de atleta. Tive muita vontade de fazer, tive bons técnicos, outros nem tanto, então foi uma experiência muito grande no Japão, na Rússia, várias competições”, contou Aline em entrevista à Trivela, em 2016.
“Eu tinha aquela coisa: eu quero fazer o trabalho do meu jeito, com aquilo que eu acho que são as coisas ideais, positivas ou negativas que eu tenha vivido na minha carreira com as comissões técnicas que eu trabalhei. Aí tive a oportunidade de fazer isso e foi bem legal. Claro que você enfrenta algumas dificuldades da modalidade que você quando está como atleta, não vê. Na hora que eu estive ali um pouquinho fora das quatro linhas, que eu achei que pudesse fazer e acontecer, vi que não ia dar tão certo assim. Chegou uma hora que eu falei: bom, não adianta, não vou conseguir mudar o mundo, mudar o futebol feminino, deixa para lá”, contou a ex-atleta.
A ex-jogadora viu que esse não era o papel que ela queria exercer e deixou o futebol feminino. Passou a focar na área profissional que se formou: Educação Física. Saiu do clube antes mesmo da primeira edição do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, que aconteceu em 2013 e que o Vitória, como campeão pernambucano, jogaria. Mas ele não quis mais ficar por lá.
Depois de trabalhar como personal trainer, assumiu um cargo no clube Sírio coordenadora de futebol do clube Sírio. Foi a primeira vez que ela exerceu um cargo de direção dentro do futebol. Dali, foi chamada para trabalhar no Corinthians, que começava a se estruturar para ser a potência que, hoje, parece muito acima das demais. Tinha uma coordenadora, que convocou Aline para ser supervisora da equipe. Uma forma de tornar o trabalho da comissão técnica melhor, ao mesmo tempo melhorando o que era feito fora de campo. Foi trabalhando no Corinthians que Aline teve o contato que ajudaria a causar ainda mais mudanças no futebol feminino.
Tudo começa em um curso de gestão oferecido pela CBF, no Rio de Janeiro. Foi lá que um encontro com outro ex-jogador faria com que o rumo das coisas mudasse. Em 2015, clubes da Série A foram chamados para o curso de gestão esportiva, uma forma de tentar qualificar e ao mesmo tempo ter discussões para melhorar o futebol brasileiro. Em 2016, a CBF estendeu o convite para clubes da Serie B e finalistas do Campeonato Brasileiro Feminino. Entre os quais estava o Corinthians, de Aline Pellegrino.
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Mauro Silva: um elo com atletas que abriu caminho ao futebol feminino
O ano era 2016. Em um curso de gestão promovido pela CBF, o encontro de ex-jogadores, àquela altura já dirigentes, acabou ajudando a criar algo que ajudaria a mudar o futebol feminino brasileiro. Mauro Silva era vice-presidente do futebol da Federação Paulista e se encontrou no curso com Aline Pellegrino, na época supervisora do futebol feminino no Corinthians.
“O Corinthians havia passado e tinha um vaga para ter um representante do feminino, a diretoria entendeu por bem me indicar, então foi onde acabei me aproximando do Mauro”, conta Pelle, como é chamada pelas companheiras ex-jogadoras. Mauro Silva chegou à Federação Paulista para ser um elo justamente com os jogadores e ex-jogadores, que pudessem participar mais da gestão de futebol no Estado. E isso incluía, claro, o futebol feminino.
“Tinha outras pessoas do futebol feminino fazendo o curso, o pessoal do São José, do Rio Preto, e o Mauro, muito solícito, a Federação Paulista neste novo momento de gestão, principalmente por causa dele, da integração com os atletas, deu uma atenção muito grande para a gente e descarregamos muita coisa na cabeça dele em uma sexta-feira à noite. Ele então falou para marcarmos uma reunião na terça-feira, disse para passarmos as coisas com calma e ele levaria para o Fernando [Enes Solleiro, vice-presidente executivo] e para o Reinaldo [Carneiro Bastos, presidente]. Ficamos no Rio quinta, sexta e sábado e na terça-feira já tivemos a reunião”, contou Pellegrino.
“Participamos eu, Fabiana, supervisora do São José, que também estava fazendo o curso, e a Cristiane, supervisora do Corinthians. Ele pôde fazer uma pauta, levantar mais coisas e falou que passaria isso para a presidência. Um dos pontos era a criação de um departamento de futebol feminino, porque há demandas que talvez ele não conseguisse fazer as coisas andarem tão rápido porque não tinha tanto conhecimento. É uma modalidade que tem as suas entrelinhas e tem essas pessoas que vivem mais o dia a dia e tem mais facilidade de passar a informação”,
A criação do Departamento de Futebol Feminino na FPF
Tinha ficado claro para Mauro Silva que o futebol feminino precisava de um departamento próprio para poder andar com as próprias pernas e se desenvolver. Mais do que isso: para ser de fato compreendido e, assim, ser importante. Aqui, a conexão entre a Federação Paulista, através de Mauro Silva, com o futebol feminino que já buscava o espaço criou condições para que as coisas andassem melhor. E mais rápido.
“Logo depois dessa reunião, coisa de uma semana, ele [Mauro Silva] já ligou para todo mundo que participou dessa reunião pedindo indicação de pessoas que pudessem ocupar esse cargo, que pudessem de alguma forma responder pelo futebol feminino dentro da Federação Paulista. Eu falei ‘Pô, Mauro, é para este ano ou o ano que vem?’, querendo que ele falasse que era para o ano que vem, porque se fosse para o ano que vem, eu teria uma condiçãozinha (risos). Ele falou: ‘Não, para agora’. Aí eu pensei: ‘Ai, caramba, não acredito’. Porque quando ele passou o perfil que ele estava querendo, eu pensei ‘acho que me encaixo’. Mas como é que você vai falar isso para a pessoa? E eu não tenho esse perfil de fazer isso, jamais”, contou Pellegrino.
“Desliguei, com dor no coração, liguei para a Cris e avisei: ‘O Mauro vai ligar para pedir uma indicação, vamos pensar juntas uma indicação’. Ela me falou: ‘Pô, Pellegrino, tem que ser você’. Aí criei coragem, liguei para ele e disse: ‘Mauro, será que eu não posso participar desse processo de seleção?’. Ele me disse que não tinha problema nenhum. Depois, conversando com a Fabi, ela falou a mesma coisa, se não podia participar do processo. Ainda bem que dessas pessoas que ele escutou, algumas falaram o meu nome, então não fui só eu falando o meu nome”.
“Ele fez a escolha dos currículos, tudo muito rápido. Tive uma conversa com o Fernando, Reinaldo já me conhecia há algum tempo, tive também o aval da Cristiane, que foi quem me trouxe para o projeto. Falei para ela: ‘Posso ir? Posso largar vocês aí?’. Ela falou: ‘Vai tranquila que acho que a modalidade tem a ganhar. Eu fico triste, o Corinthians/Audax fica um pouco triste, mas vai porque vai ser uma coisa importante para a modalidade, vai ajudar não só o Corinthians, não só o Audax, mas tentar ajudar todos os clubes ou representar, que é o que eu estou fazendo hoje aqui. Hoje eu represento todos esses clubes que estão jogando o Campeonato Paulista de 2016, represento todos aqueles que já passaram”, contou a ex-jogadora, então recém escolhida Coordenadora de Futebol Feminino da Federação Paulista de Futebol.
Dali em diante, as coisas mudaram e muito rapidamente. Com liberdade para agir dada por Reinaldo Carneiro Bastos, patrocinado por Mauro Silva, o Departamento de Futebol Feminino trabalhou para fazer o que precisava ser feito há muito tempo. Já naquela época, Pellegrino tinha muitos planos. De lá para cá, o futebol feminino cresceu a passos largos.
O método paulista no futebol feminino exportado para a CBF
Um dos pontos cruciais para o desenvolvimento do futebol feminino era a base. Sem formação, os clubes penavam para montar elencos. Disputar o Campeonato Paulista era uma dificuldade. Não dá para resolver tudo de uma vez, mas esse foi um ponto que rapidamente a Federação Paulista percebeu que tinha que atacar. E só chegou nisso porque havia lá dentro quem tivesse vivido a modalidade, como Aline Pellegrino, e com liberdade para isso.
Quatro anos depois da entrevista que fizemos quando Aline Pellegrino assumia o cargo na FPF, dá para dizer que o trabalho feito rendeu frutos. A Copa do Mundo de 2019 foi um exemplo, mas foi além disso. Hoje temos o Campeonato Brasileiro sendo exibido em TV aberta, em alguns jogos, o que é algo gigantesco. Os jogos do Campeonato Paulista são acessíveis, de graça, em plataformas digitais.
O sucesso da iniciativa paulista fez com que a CBF visse que precisava fazer mais — o que, convenhamos, era óbvio. Começou a se mexer, com a criação de um departamento feminino, algo que não existia, lá em 2020. Foi depois disso que surgiu o convite para que a ex-jogadora se tornasse a coordenadora na CBF, levando as práticas da Federação Paulista para o âmbito nacional. Um sinal que o que tinha sido feito em São Paulo foi bem realizado.
A CBF preparou o cargo de Coordenação de Competições Femininas, dando mais autonomia, para convidar Aline Pellegrino a assumir, em 2020 — quatro anos depois de assumir o cargo na FPF. Desde então, o futebol feminino ganhou mais competições e mais visibilidade.
Hoje, há campeonatos de base também a nível nacional: sub-16, sub-17, sub-18 e sub-20. Com competições de base, a CBF incentiva a formação de jogadoras, algo identificado como um problema lá atrás, ainda pela FPF. Há três divisões nacionais femininas. Além, claro, de uma técnica de gabarito na seleção feminina principal, Pia Sundhage.
Depois de décadas de descaso, o futebol feminino tem gente preocupada com a modalidade trabalhando em cargos importantes. E os resultados começam a aparecer —e não estamos nem falando sobre seleção brasileira, mas sobre o futebol do dia a dia.
A Copinha Feminina ganhará a sua primeira versão em 2023
“Muito além do Paulistão Feminino, primeira competição feminina do país e consagrada no calendário nacional, a FPF criou em 2016 o departamento exclusivo para a modalidade, capitaneado por Aline Pellegrino”, diz a Federação Paulista à Trivela.
“Entre as primeiras iniciativas, foi criado o primeiro campeonato feminino de base do país, o Paulista Sub-17, em 2017, com 16 clubes. Ainda em 2017, foi realizado o Festival Feminino Sub-14. Desde então, a FPF passou a investir cada vez mais na modalidade e priorizando as categorias de base, com a criação das Peneiras Femininas Sub-17 e outras competições, como o Paulista Sub-15 e Paulista Sub-20, além do Festival Sub-12”, continua a entidade.
“Em 2022, a FPF anunciou a maior premiação do futebol feminino do país, distribuindo R$ 2,6 milhões aos clubes participantes do Paulistão 2022, além da cobertura inédita com transmissões multiplataforma em todas as mídias, com 100% dos jogos transmitidos ao vivo. Em 2023, a premiação subiu para R$ 3,1 milhões. Ainda em 2023, a FPF anunciou em parceria com a Prefeitura de São Paulo a primeira edição da Copinha Feminina”.
A Copa São Paulo de Futebol Júnior, a tradicional Copinha, terá a sua primeira edição em 2023. A confirmação aconteceu neste mês de junho e é fruto de uma parceria entre a Federação Paulista de Futebol e a Prefeitura de São Paulo.
“É uma decisão muito importante pois é uma reparação histórica. As mulheres foram proibidas de jogar futebol durante 40 anos no Brasil e quem organizou a primeira Copa São Paulo de Futebol Masculino foi a secretaria (de Esportes do Município)”, relembra Mauro Silva, vice-presidente da FPF, em entrevista à Folha.
O torneio terá 16 equipes, divididas em quatro grupos. Os planos da Federação Paulista é crescer o número de participantes ano a ano. “A competição masculina tem 128 clubes e é a maior competição de base do mundo. A gente começa (a feminina) com 16, mas a nossa expectativa é ampliar a cada ano o número de clubes participantes e com equipes de todo o Brasil”, disse Mauro Silva.
A primeira Copinha masculina aconteceu em 1969, como um evento para celebrar o aniversário da cidade — razão pela qual a decisão foi reservada para o dia 25 de janeiro. A primeira edição teve apenas quatro equipes: Corinthians, Palmeiras, Juventus e Nacional, todas da capital paulista. Foram apenas três jogos, as duas semifinais e a final, e disputadas no mesmo lugar: o Centro Educacional e Esportivo Vicente Ítalo Feola, no bairro de Vila Nova Manchester. O Corinthians venceu o Nacional e conquistou o primeiro título do torneio.
Faltava, porém, uma versão feminina, que nasce com 16 times e uma imensa vocação para ser maior e se tornar, tal qual no masculino, um dos grandes celeiros e holofotes do futebol nacional. “Esse campeonato entre no calendário das competições importantes da federação e da cidade de São Paulo e já com protagonismo. Será um resgaste histórico apoiando uma modalidade perseguida durante tantos anos no Brasil”, continuou o vice-presidente da Federação Paulista.
A Copinha é um golaço da Federação Paulista. Demorou até demais para acontecer. Mesmo assim, é mais um exemplo de que ter um departamento de futebol feminino pode trazer frutos. O Campeonato Paulista Feminino é hoje tão ou mais forte que o próprio Campeonato Brasileiro. Tem ganhado mais visibilidade e se tornou desejo de grande parte das jogadoras do país que sonham em ser profissionais. Um sinal que, quando se trata de futebol feminino, São Paulo tem dado passos largos e importantes rumo a uma melhora cada vez maior.



