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#AgoraÉQueSãoElas | Como a minha paixão por futebol mudou a minha relação com meu pai

A campanha #AgoraÉqueSãoElas foi criada por Manoela Miklos e convida que homens cedam seu espaço para que mulheres falem. Se você, mulher, tem histórias para contar sobre sua relação com futebol, seja da sua paixão por esse esporte que a gente tanto ama, seja de discriminação que sofreu por isso, assédio ou o que for, estamos abertos. Nos escreva no [email protected] Queremos te dar voz. É hora dos homens ouvirem e refletirem. Porque #agoraéquesãoelas

Por Juliana Mitie Souza

Atire a primeira pedra quem nunca xingou a mãe do juiz. Bem, melhor não dar ideia… Vai que alguém queira jogar a pedra, literalmente, no árbitro. Melhor evitar futuros atritos, não é mesmo? Lembro até hoje a primeira vez que assisti a uma partida de futebol no estádio. O jogo era Ceará x Ferroviário e eu tinha uns 10 anos; fiquei embasbacada com a quantidade de palavrões que circulavam pela arquibancada, eu era apenas uma criança, né? Mal sabia que dentre uns anos, eu seria uma daquelas pessoas. Mas não foi ali que o futebol entrou na minha vida.

A paixão por este esporte tão louco, passional e sentimental demorou a vir. Já tinha ido a jogos estaduais, acompanhado finais de campeonato e até presenciado Falcão arriscar uma carreira nos gramados. Mas nada demais. Foi em 2008 e fazia dois anos que tinha mudado da capital paulista para o interior do estado, ainda estava tentando me acostumar com o choque cultural que era tudo aquilo. Mas, num dia normal de escola, umas meninas da minha sala resolveram montar uma equipe amadora de futsal feminino, apenas um passatempo para as sextas-feiras à tarde, e pensei comigo mesma “por que não?”.

Confesso que não éramos nenhum Ronaldinho Gaúcho nos primórdios da carreira, ou aquele fulaninho que se destacava nas peladas, pelo contrário, o que valia ali era a diversão e reunir várias minas para jogar futebol. Foram quase dois anos de muito aprendizado, fiz meus golzinhos, fui capitã do time, tivemos nossos momentos de glórias, mas muito mais de derrotas. Até porque a gente era bem ruim mesmo, mas e daí?

Foi nessa fase que comecei a me interessar por futebol. Venho de uma família de são-paulinos que me deram muito boas vindas quando quis mergulhar neste mundo e o futebol foi além das atuações de Rogério Ceni, de um técnico como Muricy Ramalho e, na época, saber quem era o tal de Marcelinho – cá entre nós, Lucas Moura ficou bem melhor, né? Cristiano Ronaldo me apresentou a Premier League, Robin van Persie tornou o Arsenal meu xodó e Jürgen Klopp me fez torcer por um técnico.

Essa nova amizade que surgia reforçou a relação que tinha com meu pai. Hoje, a gente liga um para o outro só para falar de futebol, jantamos conversando sobre o nosso time, torcemos e assistimos aos jogos nas quartas-feiras e quando meu irmão se junta à conversa… Coitada da minha mãe! Meu pai nunca me forçou a gostar do Tricolor e muito menos foi contra quando disse que iria jogar bola. Ele sempre me viu como uma parceira para conversar sobre os caras e, creio eu, deve amar ter alguém a mais para conversar sobre este mundo.

Mas não é todo mundo que pensa como meu querido pai e é por isso que precisamos falar sobre um assunto sério. Quando, nós, mulheres, jogamos na roda algo relacionado a futebol, aquela pergunta vem à tona: “você curte futebol?”. É claro que existem as pessoas que abraçam a ideia e o papo flui e tudo vira uma mesinha de bar com muita cerveja. Mas por que certos homens querem testar nossa paciência e fazer daquilo um questionário no estilo “Vai, mulher. Vamos ver se você sabe mais de futebol do que eu”? Não seja esse cara!

Quem nunca discutiu em redes sociais, no barzinho, numa roda de colegas sobre futebol? SIM, nós já discutimos. SIM, nós amamos nosso clube do mesmo jeito que vocês. SIM, a mesma notícia que você lê sobre o Neymar, a gente também lê. Isso não tem gênero, gosto não tem gênero. Querer se informar não exige gênero.

A famosa fala “nossa, mas você entende mesmo (de futebol), hein?” ainda vai nos assombrar por um tempo. Mas, enquanto isso, a gente continua lutando contra esse preconceito, mostra o girl power – Olá, seleção feminina dos EUA! – e continua torcendo e tentando não xingar a mãe do juiz.

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