Futebol feminino

A visibilidade do futebol feminino contribui cada vez mais para a construção de memórias coletivas

A consolidação da modalidade além das grandes competições e com ajuda das mídias digitais cria bases mais sólidas ao futebol feminino

* Por Sarah Lídice e Bruno Miliozi

Marta recebe de costas na ponta-esquerda. Meia-lua de chaleira na lateral, invade a área, corta para a perna direita e bate pro gol. Um “golaço de gênio”, segundo a narração vibrante de Luciano do Valle, para selar o 4 a 0 que o Brasil emplacou sobre os Estados Unidos, na semifinal da Copa do Mundo de 2007. Talvez esse seja o gol mais bonito já marcado pela melhor jogadora da história do futebol feminino, na melhor campanha em mundiais feita pela seleção feminina. Você se lembra desse lance?

Amante ou não do futebol, é raro encontrar algum brasileiro que não se lembre onde estava durante o 7 a 1 ou nas finais dos mundiais masculinos. Há na imprensa, inclusive, uma série de crônicas e boas histórias pessoais relacionadas aos jogos memoráveis da seleção brasileira masculina. 

Mas as lembranças do 4 a 0 que o Brasil travou contra as estadunidenses —  ou outros grandes momentos anteriores da seleção brasileira feminina — ainda não costumam ocupar lugar de destaque compatível na memória afetiva nacional. Uma enorme diferença de repercussão midiática, presença cultural e, claro, décadas de investimento envolvem esses dois momentos. 

A construção de memórias, um dos principais meios pelo qual se constrói a relação entre o jogo e o torcedor, permite dimensionar a falta de um imaginário coletivo quando se fala de futebol feminino. Isso está em processo de mudança, principalmente com o recente boom de repercussão que a modalidade recebeu: nas oitavas do mundial de 2019, na França, quando a seleção feminina foi eliminada, foram cerca de 59 milhões de espectadores, 35 milhões no Brasil. Mas engana-se quem pensa que essa popularização se deu apenas pela mídia tradicional, ou pela cobertura e transmissões da Copa do Mundo de 2019 da TV Globo.

Visibilidade construída por caminhos alternativos

Um dos principais agentes dessa atual ampliação midiática do futebol feminino foram os veículos alternativos, principalmente os digitais. Alguns exemplos conhecidos são Dibradoras, o 1×0 Feminino, Tá Bela e Resenha Delas. A historiadora do Museu do Futebol Aira Bonfim, especializada na modalidade, explica que a construção dessa memória não esteve vinculada intimamente à grande mídia tradicional. 

“Quando olhamos o histórico do futebol de mulheres, temos uma sensação de um momento de ascensão da modalidade que está vinculado com a projeção da internet. De alguma forma, ela dinamiza os meios de comunicação, diminui a dependência do futebol para com os grandes veículos.” 

Sem negar a importância dessas mídias para alcançar as pessoas, Aira pondera que “talvez o que tenha alçado essa sensação de aproximação, de uma memória mais recente, sejam os veículos alternativos”. “Toda a articulação criada de perfis de jogadoras, de perfis de comunicação sem vínculo profissional, com pessoas fazendo porque gostam, ou canais como podcasts, lives, transmissões de Youtube, permitiram que o futebol feminino não perdesse essa força após o fim da competição, inclusive durante a pandemia.” 

Se as mídias digitais auxiliam no acompanhamento contínuo, os grandes veículos de comunicação também possuem sua importância histórica para o futebol feminino. Afinal, foi por meio deles que a modalidade passou a se consolidar no Brasil. As transmissões das participações nos Jogos Olímpicos e nas Copas do Mundo – encabeçadas por nomes como o do narrador Luciano Do Valle, que sempre incentivou a disseminação da modalidade na TV Bandeirantes – foram chave para uma mudança de momento e perspectiva acerca do futebol feminino, elevando os nomes, por exemplo, de jogadoras como Marta e Formiga.  

As transmissões de 2019 contribuíram para que momentos como o hattrick de Cristiane contra a Jamaica, a maquiagem de Marta e o canto das jogadoras no vestiário repercutissem a nível internacional. Segundo a FIFA, mais de 1 bilhão de pessoas assistiram à competição. 

 

Esse público não inclui, necessariamente, pessoas oriundas do futebol masculino: há mulheres e pessoas reunidas a fim de apoiar essa causa, que extrapola o futebol. Um grupo de Liderança Feminina organizado por estudantes da Universidade Federal de Viçosa, por exemplo, criou um evento público no bar da cidade para acompanhar a Copa. “Depois de tanta luta (e sabendo que ainda há muito a melhorar), nada mais justo do que nos unirmos para mandar boas energias àquelas mulheres incríveis que estarão representando nosso país”, escreveram na publicação.

Mas o futebol não acontece só de quatro em quatro anos. Por isso, é de se valorizar o empenho que essas mídias “secundárias” vem realizando para mantê-lo em pauta e com fácil acesso para quem tem interesse em consumi-lo. Esse é um esforço que, até aqui, vem sendo recompensado. 

Um exemplo é a grande cobertura midiática do Brasileirão feminino de 2021. Somando-se ao trabalho da mídia segmentada no dia a dia dos clubes, a competição tem transmissão ao vivo no Youtube, pelo canal Desimpedidos, de 8,8 milhões de inscritos. Os jogos vêm atingindo ótimos índices. Em 13 de maio, o jogo entre Flamengo e Santos alcançou mais de 500 mil visualizações. Meio milhão de pessoas escolheram assistir ao futebol feminino, em um jogo comum da fase inicial do torneio. Índice da crescente mobilização e do interesse pela modalidade. 

“Antes não havia onde encontrar esse futebol. Agora você tem. Antes, não se encontrava ofertas de conteúdos sobre diferentes aspectos relacionados ao futebol das mulheres, e hoje você tem. Então, posso ver o Brasileirão, mas também posso ver o Paulistão, uma Champions League feminina. Também posso encontrar entrevistas e informações sobre as jogadoras. É um processo de qualificação do que se sabe e do que se quer saber sobre o futebol de mulheres no Brasil”, explica Aira, ressaltando a relevância dessas coberturas da mídia alternativa. 

E claro que esse processo é importante não só na construção de memória e imaginário coletivo, mas também para fortalecer a relação entre as mulheres e o esporte. A transmissão gera representatividade e a possibilidade de outras garotas se espelharem e sonharem com um futuro no futebol. 

“Se você não vê, você não se reconhece. E diminui as possibilidades de se sonhar futebol sendo mulher”, destaca Aira. “Ampliar o repertório não se limita ao esporte. O futebol mistura desejos, sonhos e identidades nacionais. É injusto não existir essa posição, no caso das mulheres. Nos despertamos para essa dimensão há pouco tempo atrás. 

São mais de 100 anos de memórias

Não é de hoje que essas brasileiras lutam para ocupar esse espaço de destaque, que, vale lembrar, não foi cedido, e sim conquistado — com muito suor. Faz mais de 100 anos que elas estão com a bola no pé, e a ação e resistência dessas vanguardistas sustentaram a história de estrelas como Marta, Formiga, Cristiane e tantas outras que vestem a camisa da seleção. 

Jandira de Oliveira é uma das que protagonizaram o começo dessa história. Ela, volante do Centro Esportivo Natalense do Rio Grande do Norte, é considerada uma das primeiras jogadoras nacionais. Seu time rival, o ABC Futebol Clube, chegou até a aparecer na capa revista Vida Sportiva. “Acho isso surreal: em 1920, havia capa de mulheres jogadoras e, em 2021, ficamos ‘miguelando’ para ter uma capa com as jogadoras”, brinca Aira.

Jogadoras potiguares do ABC Futebol Clube estamparam a revista Vida Sportiva em 1920.

Além de jogadora pioneira, a potiguara ocupou um outro posto de destaque interessante: foi primeira-dama do Brasil. Ela era esposa do presidente (e também jogador de futebol) Café Filho, que assumiu o cargo depois do suicídio de Getúlio Vargas e foi o fundador do Centro, em 1918 — um dos primeiros times de futebol feminino da história do Brasil.

Nessa década, também, campeonatos de futebol feminino apresentados em forma de espetáculos circenses circulavam no país, no momento em que o esporte se espalhou. Essas “jogadoras” ajudaram a reverter a lógica de um futebol só para os homens. Nas cidades por onde o circo passava, elas simulavam partidas com as blusas dos times locais mais famosos. 

Na década de 1930, eram mais de 15 times de futebol de mulheres no subúrbio do Rio de Janeiro. Margarida Pereira, outra jogadora pioneira, fazia parte de um deles. Mais conhecida pelo apelido — o inverso de seu nome —, Adyragram era a zagueira, capitã e presidente do Sport Club Brasileiro, um dos times mais vitoriosos da época. 

Em 1940, Adyragram e seu time, fizeram história ao jogar contra o Casino Realengo Futebol Clube, em um Pacaembu novo em folha — inaugurado no mês da partida. O Brasileiro acabou levando a vitória por 2 a 0 em um jogo que aconteceu de um amistoso entre os times masculinos de São Paulo e Flamengo, no mesmo gramado. Foi a primeira partida de futebol feminino naquele estádio.

“Se isso já seria significativo hoje, em 2021, fico tentando imaginar o que foi isso em 1940, com um estádio ‘tri-lotado’”, comenta a historiadora. Na época, os limites do Pacaembu não eram precisos: para cada cadeira na arquibancada calculava-se, em média, três pessoas.

Jogadoras do Sport Club Brasileiro no Pacaembu, em maio de 1940. Crédito: Jornal Diário da Noite

Porém, o que hoje é histórico, à época não recebeu as melhores reações externas. Vargas, o então presidente, chegou a receber uma carta de um “especialista em normas de conduta social e moral”. Esse senhor, que assinava sob o nome de José Fuzeira, desqualificava as jogadoras e a pertinência da modalidade. Clubes femininos, segundo ele, seriam “disparates desportivos” e “núcleos destroçadores da saúde”.

Margarida “Adyragram” respondeu a Fuzeira, invertendo — assim como em seu apelido — os valores da época. “Há homens cujas ocupações lhes dão tempo até para tratarem de assuntos femininos”, disse a jogadora, três dias depois, em defesa no Jornal dos Sports. “O Senhor José Fuzeira deveria assistir à prática de futebol feminino, para verificar quão salutar é esse esporte e os benefícios que o mesmo presta a suas praticantes.”

Esse jogo no Pacaembu acabou sendo um combustível político para o Decreto-Lei que surgiria um ano depois, na ditadura varguista. Era o início de um período de quatro décadas de proibição do futebol feminino no país. Porém, se não podiam jogar legalmente, as mulheres conseguiram retornar ao famoso gramado paulista de outro modo, no corpo de “atrizes” que simulavam um jogo-espetáculo de cunho beneficente.

Em 1959, as vedetes — como eram chamadas as grandes estrelas do teatro de revista na época — protagonizaram no Pacaembu o chamado “futebol de Vedetes”, que atraiu um grande público e incrementou a receita dos jogos. A historiadora Aira Bonfim registra que o faturamento das Vedetes no Pacaembu só foi menor que o jogo Corinthians x Palmeiras, pelo Campeonato Paulista daquele ano. 

Essas e outras histórias vêm ganhando reconhecimento, também, com esse ganho de espaço atual. Aira foi curadora da exposição Contra-Ataque, no Museu do Futebol do Pacaembu, que se estendeu durante cinco meses em 2019. A exposição resgatou histórias apagadas de resistência que dizem muito sobre as lutas atuais da modalidade.   

As vedetes, no Pacaembu, jogaram um futebol despreocupado com seus shorts curtos, cabelos cheios de gel e maquiagem, “ludibriando” a legislação proibitiva. Crédito: Coleção Lover Ibaixe/Acervo Museu do Futebol

Memória pautada por resistência, dentro e fora de campo

O espaço protagonizado pelas Vedetes, assim como a prática esportiva do futebol por mulheres, voltaria a ser regulamentado apenas em 1983, quando as competições foram restabelecidas. Desde então, o Brasil participou de todas as Copas do Mundo de Futebol Feminino, iniciadas em 1991. E o time segue em busca do título mundial. Na década de 1990, reinou nos campos aquela tida como a primeira craque da Seleção Brasileira: Sisleide do Amor Lima, a Sissi. 

Sissi se aposentou em 2009. Oito anos depois, foi eleita a quinta maior jogadora do século XX, pela Federação Internacional de História e Estatística do Futebol. Crédito: Arquivo Pessoal/CBF

A jogadora, que quando menina usava as cabeças das bonecas como bola, foi a autora do primeiro gol de ouro na história dos mundiais femininos e viveu o auge na Copa de 1999, do qual foi artilheira com sete gols. Mas experienciou também a dificuldade do começo da modalidade. 

No Mundial da Suécia em 1995, ainda que o Brasil não tenha passado da fase de grupos na competição, já havia um time de peso: Sissi, Michael Jackson, Fanta, Elaine, Senira e Pretinha. Nessa competição, as jogadoras se destacavam pelos calções e camisas enormes: eram os uniformes que restaram da Seleção Masculina da Copa de 1994 — e reaproveitaram também as bolas do ano anterior.

Essa resiliência do passado, na disputa por espaço na modalidade, foi acompanhada também por uma resiliência de autoafirmação — que permanece, mesmo com um processo gradativo no aumento de visibilidade. É uma das marcas do futebol feminino: a resistência em campo muitas vezes extrapola as quatro balizas e sai em defesa de outras tantas pautas, como o racismo, LGBTfobia e desigualdade social. Segundo Aira, esses são alguns “alguns trajetos próprios” da modalidade.

Sissi, por exemplo, com sua cabeça raspada por conta de uma homenagem que fizera à uma criança que passava por um tratamento de câncer, recebeu críticas pela “masculinização”. Situações como essas, da maneira como são levantadas pelo futebol feminino, acabam criando também um público a partir de si e ajudam a eternizar certas figuras. 

“As jogadoras, como a Cristiane, estão pautando temas LGBT, falando de inclusão, de pautas tão necessárias para o futebol, inclusive para o masculino. Mas ele não consegue, está completamente engessado”, conta a historiadora.

A menção a Cristiane se dá pela divulgação de seu casamento, com Ana Paula Garcia. Além de seu posicionamento firme contra a homofobia, a jogadora costuma compartilhar cenas de sua relação nas redes sociais, como o nascimento de seu filho, Bento, o que gera uma visibilidade importante para a causa. Além disso, a maternidade da jogadora deu visibilidade ao assunto da inseminação artificial, poucas vezes tratado na mídia, principalmente em casais LGBT. 

E essa representatividade, para além da questão social, é fundamental para firmar o futebol feminino e eternizar suas figuras no imaginário coletivo. Enxergar-se num atleta, tê-lo como exemplo ou lutar pelas mesmas pautas que ele é um processo de aproximação público-esporte essencial para fixar essa relação e seus vínculos sociais e políticos. As pautas levantadas especialmente pelo futebol feminino, por sua enorme importância em todos os âmbitos, têm esse poder. 

Um caso recente que mostra o engajamento das atletas nas pautas LGBTQIA+ foi o que envolveu Chú Santos. A jogadora do Palmeiras fez um comentário homofóbico nas redes sociais, atacando o falecido ator Paulo Gustavo, e diversas atletas, de clubes de todo o país, se posicionaram contra a homofobia. 

A colunista LGBT do UOL Esporte, Milly Lacombe comentou o caso: “O comentário dela é ofensivo em muitos diferentes níveis. Primeiro, é uma falta de respeito com as lésbicas que fundaram o futebol feminino no Brasil. Ela deve às lésbicas a chance de ser uma jogadora profissional, então mais respeito com as ‘sapatão’, que colocaram o jogo, que lutaram para que o jogo fosse, primeiro, legalizado e depois legitimado. Hoje é um esporte que reúne, claro, diferentes sexualidades, mas o futebol brasileiro raiz, ele era sapatão”, afirmou Milly.

Outro momento importante, agora em âmbito internacional, ocorreu no discurso de Megan Rapinoe quando venceu o prêmio de melhor jogadora do mundo, em 2019. Ela falou, de pé para todo o mundo do futebol, sobre problemas de racismo, homofobia e discursos de ódio, inclusive no masculino. Em seu momento de destaque pessoal, ela não falou dela, ou sequer só do futebol feminino. Em vez disso, Rapinoe assumiu papel de protagonismo diante de várias pautas que, ano após ano, são negligenciadas por diversas personalidades do esporte. 

De uniforme novo, para um futuro em construção

Resgatar as memórias de Sissi, Margarida “Adyragram”, das jogadoras circenses e das vedetes é também resgatar a história do futebol feminino. No próprio Museu do Futebol, por muitos anos, na sala “Números e Curiosidades”, havia apenas uma placa com informações sobre o futebol de mulheres. Agora, mesmo com o desafio de reunir as peças dessas memórias que estão em poucas fontes oficiais, com quase nenhum registro em órgãos e arquivos, essa história foi contada e repartida em audioguias construídos para ambientar as salas.

Para Aira, que é uma das coordenadoras desse projeto no Museu, o caminho do futebol feminino hoje é um caminho de desenvoltura e criação de uma modalidade própria, não necessariamente voltada à produção de celebridades. Ela defende um espaço em que, de fato, mulheres possam estar no país do futebol: “Experimentando esse futebol em qualquer corpo. Seja mulher, trans, cis… o que você for.”

Os novos rumos da modalidade também vêm estampados na camisa da seleção. As meninas têm, pela primeira vez, uniformes — nem largos, nem usados — moldados especialmente para elas. Se antes elas carregavam no peito aquelas cinco estrelas dos títulos da seleção masculina de futebol, agora elas foram substituídas por um espaço em aberto, que será preenchido quando conquistarem o seu primeiro mundial. E será a continuação de uma história que começou há mais de 100 anos. 

Oportunidade, também, para o país do futebol marcar na camisa — e na história — a primeira estrela Mundial Feminino. E, sobretudo, para marcar na memória coletiva: “Onde você estava quando fizeram história as jogadoras do Brasil?”.

Mostrar mais

Jornalismo Júnior ECA-USP

A Jornalismo Júnior é uma empresa júnior formada por alunos de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) que produz conteúdo que vai desde a área de esportes até o cinema, entretenimento e a ciência.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo