Futebol feminino

A despedida de Formiga é um marco na Seleção, após 26 anos de um trabalho incansável que transformou o futebol feminino

Formiga disputou a última partida de uma trajetória inigualável, com sete Copas e sete Olimpíadas

Durante 26 anos, Formiga personificou a identidade da seleção brasileira feminina. A craque experimentou o melhor e o pior da modalidade, que se transformou muito desde que aquela garota baiana teve a chance de disputar sua primeira Copa do Mundo em 1995. Miraíldes Maciel Mota enfrentou o descaso, a falta de investimento, o preconceito. Jogou, correu, lutou muito. Também encabeçou grandes times, liderou campanhas inesquecíveis, esteve presente nos maiores palcos. Disputou sete Olimpíadas e sete Copas do Mundo, feito único a qualquer futebolista da história. E bota um ponto final numa trajetória inigualável, por tudo o que representa, por tudo o que atravessou. Parece inconcebível que possa existir uma seleção feminina sem a volante inoxidável brigando por cada bola e por cada avanço do esporte. Ainda assim, uma hora era preciso dizer adeus, e ele veio com uma grande homenagem nesta quinta-feira, com a goleada por 6 a 1 sobre a Índia em Manaus.

Quem se lembra da seleção feminina sem Formiga já tem certa idade. E não são muitos que conseguem se recordar, dada a falta de visibilidade que o esporte tinha e as próprias barreiras em seus primórdios no Brasil. Foi nesse contexto, de raras sonhadoras que se aventuravam nos gramados, que Formiga deu seus primeiros passos. Seria necessária muita resiliência não apenas para se tornar profissional numa modalidade incipiente, ainda vista com preconceito, mas também para encarar as limitações diárias da falta de recursos destinados às mulheres em campo. Mesmo com tão pouco, Formiga fez muito.

O próprio apelido de Miraíldes não poderia ser mais sugestivo à sua trajetória, de quem precisou trabalhar incansavelmente como uma formiguinha para atingir esse status inquebrantável. Trabalhava muito em campo, para conquistar as vitórias, e trabalhava também fora dele, para garantir o desenvolvimento. O futebol feminino ainda não atingiu o patamar desejado, porque o sonho não tem limites. Mas mudou bastante entre a primeira Copa do Mundo e a última Olimpíada de Formiga, de primórdios forjados na raça à atualidade bem mais reconhecida pela mídia e apoiada pelas entidades futebolísticas, mesmo que nem sempre da forma ideal. Tal engrandecimento da modalidade, aliás, também acontece por um engajamento que caracteriza bastante o futebol feminino. A baiana sempre esteve nessa linha de frente, como mulher negra e homossexual.

E se de um lado a batalha marca os 26 anos de Formiga na equipe nacional, não se ignora também a excelência que sempre exibiu em campo, independentemente das condições. A capacidade física e o empenho são as virtudes geralmente mais exaltadas – não à toa, pela forma como sua carreira se estendeu. A meio-campista também é muito combativa, daquelas que nunca deram uma jogada por perdida. Porém, não se nega a enorme qualidade técnica da volante. Seus lançamentos eram daqueles que valiam o ingresso, consagrada como uma das melhores passadoras do esporte. E foram muitas outras craques da Seleção que se beneficiaram com sua visão de jogo – de Sissi a Marta, de Kátia Cilene a Cristiane. Por suor e por bola, Formiga é aquele tipo de jogadora que a gente adora ver defendendo nosso time, e ainda mais a Seleção.

O mais impressionante de Formiga foi conseguir manter esse nível com oscilações pequenas por 26 anos a fio. E tal longevidade é raríssima no futebol, restrita a pouquíssimos jogadores em alto nível nos 158 anos do esporte. Por equipes nacionais, com a assiduidade e a importância de Formiga, só ela. Recordes e mais recordes foram debulhados, sem que mudanças de treinadores ou de gerações fizessem com que a meio-campista deixasse de ser considerada como uma das melhores jogadoras do país. Como uma das melhores do mundo, para quem participou das finais mais importantes e também experimentou grandes títulos por clubes.

Quando Formiga passou a barreira dos 40 anos, sua aposentadoria parecia questão de tempo. Até foi ensaiada algumas vezes, mas deu para adicionar mais uma Copa do Mundo e mais uma Olimpíada. Entretanto, uma hora o adeus precisaria vir, para dar um descanso ao corpo e para permitir que os tempos se renovem. E nada seria mais justo que uma homenagem organizada pela seleção feminina. Parte da história viva do futebol brasileiro encerraria sua simbiose com a camisa amarela.

A CBF cometeu muitos erros na organização desse último jogo, a ponto de sequer divulgar informações básicas no início da semana. A própria Formiga não escondeu seu incômodo. A venda de ingressos teve problemas com o atraso e os preços altos, a cidade escolhida não era a mais ligada à história da meio-campista, o horário do jogo não favorecia. E isso numa semana em que o assunto forte no futebol brasileiro é outro, sendo que a veterana merecia todos os holofotes para si. Contudo, se a confederação não foi suficientemente competente para recompensar quem deu tanto a ela, as companheiras e os torcedores em Manaus foram capazes de um adeus tocante à craque.

Formiga começou no banco durante a vitória arrasadora sobre a Índia – com a reserva sendo outro erro sobre a despedida, desta vez da técnica Pia Sundhage. Como esperado, as brasileiras não tiveram problemas para golear. Debinha abriu o placar no primeiro ataque e, mesmo com o empate das indianas, Giovana retomou a vantagem antes do intervalo numa atuação apenas razoável da Seleção. Já no segundo tempo, Ary Borges marcou duas vezes, enquanto Kerolin e Geyse completaram a contagem. Nenhum gol seria maior que a entrada de Formiga em campo aos 32 minutos.

Nas arquibancadas, parte considerável dos 3,1 mil presentes levou cartazes e outras homenagens a Formiga. A própria família da veterana presenciava o fim dessa história, com a mãe pela primeira vez nas tribunas. Ainda quase saiu o gol da camisa 8 no finalzinho, mas ela não aproveitou duas boas chances. E se o apito final encerrava o último dos 234 jogos disputados pela volante com a camisa amarela, dava início à melhor parte da noite especial.

Jogadoras e comissão técnica formaram uma guarda de honra para aplaudir Formiga. Uma placa com a camisa da craque foi entregue, com o seu número oito transformado em símbolo do infinito. A esposa e a mãe entregaram o presente à veterana. Já uma grande surpresa aconteceu com a presença de Marta, ausente no jogo, mas que compareceu para entregar um buquê de flores e oferecer palavras bonitas à amiga. Palavras e números que ajudam a dimensionar a grandeza de Miraíldes, mas não totalmente a sua representatividade. Sua carreira, de qualquer forma, ainda não acabou: por pelo menos mais um ano de contrato ela defenderá o São Paulo.

Formiga vai ser sempre um exemplo de talento e de empenho pelo futebol feminino. Sua luta em campo pode terminar, mas fora dele há um longo caminho para seguir auxiliando. E não há dúvidas de que uma experiência de 26 anos, de quem conhece mais do que qualquer um a realidade e as necessidades, poderá oferecer uma imensa contribuição também do lado de fora de campo. A história de Formiga será eterna, até porque dificilmente alguém conseguirá repetir seus grandes feitos. E se espalhará através de outras tantas meninas, de outras tantas mulheres que se inspiraram em sua trajetória para também impulsionar o futebol feminino.

As principais mudanças, afinal, acontecem a partir do trabalho incessante de muitas formiguinhas juntas. Formigas como Miraíldes – que, após 26 anos, se despede com um legado imensurável: como uma das maiores esportistas que o Brasil já teve a honra de aplaudir.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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