França

Como treinador demitido durante Copa Africana se tornou esperança no Olympique de Marseille

Jean-Louis Gasset deixou a Costa do Marfim após goleada, e chega no Olympique de Marseille para ao menos melhor a situação até o fim da temporada

2023/2024 ainda não acabou, mas ainda assim é uma temporada para se esquecer no Olympique de Marseille. Primeiro foi a eliminação precoce nos playoffs para Champions League; depois, a saída de Marcelino com apenas 3 meses; reforços que chegaram com grande peso e nem todos corresponderam; e por fim, os números muito aquém do esperado da equipe sob o comando de Gennaro Gattuso na Ligue 1.

E para ao menos encerrar a temporada em melhor situação e talvez conseguir uma vaga em uma competição europeia, o clube apostou por 4 meses em um outro treinador que também está com a moral baixa. Demitido ainda na fase de grupos da Copa Africana de Nações pela futura campeã Costa do Marfim neste ano, Jean-Louis Gasset foi o eleito pela direção para ao menos estabilizar o resultados e encerrar 2023/2024 em uma situação menos pior do que a atual nona posição na liga nacional.

Atualmente com 70 anos, Gasset atuou por 10 anos como jogador do Montpellier, o clube de sua cidade-natal. No mesmo time, ele começou sua carreira como técnico, em 1998. Após passar por times menores como Caen e Istres, ele ganhou mais visibilidade como auxiliar-técnico de Laurent Blanc, quando o ex-capitão da França passou a trabalhar como técnico no Bordeaux, em 2008. Além do time do sul da França, Gasset também trabalhou ao lado do antigo zagueiro na seleção francesa e no Paris Saint-Germain, até 2016.

Depois de uma nova rápida passagem pelo Montpellier, ele se destacou no Saint-Etienne, levando o time, que lutava para não cair, a disputar novamente competições europeias. Além disso, ele também treinou o Bordeaux até 2021, antes de assumir a Costa do Marfim após a seleção não se classificar para a Copa de 2022.

Demissão no meio de uma campanha campeã

Com os Elefantes, veio até agora a maior decepção da carreira de Gasset. Jogando em casa a Copa Africana de Nações deste ano, a seleção fez uma campanha ruim na fase de grupos, com uma vitória, um empate e uma derrota por 4 a 0 contra Guiné Equatorial. Antes da equipe garantir sua vaga como um dos melhores terceiros colocados para alcançar um inesperado título, o francês foi demitido ainda durante a competição, em que a própria Costa do Marfim se recuperou e levantou o troféu continental pela terceira vez.

– Começamos bem a competição, mas um intervalo de cinco dias nos fez perder isso. Como o que. Tomamos um 4 a 0 na terceira partida e eu disse ao presidente que não poderia continuar assim. Uma humilhação dessas. Achei que desistir era a melhor decisão. A sequência provou que eu estava certo. Emerse Faé assumiu e fez uma boa campanha. Tenho um gostinho de negócios inacabados, mas tomei a decisão certa.

Erros em campo e administrativos

E agora Gasset, buscando reencontrar uma melhor versão de si, terá de lidar com um fanático e conturbado ambiente no Olympique de Marseille. Desde a saída de Igor Tudor, por motivos pessoais no fim da temporada passada, o Olympique de Marseille teve dificuldades em arranjar um substituto. A escolha por Marcelino García Toral para substituir o croata não deu certo. Após ser eliminado pelo Panathinaikos em casa nos playoffs da Champions League e um começo aquém na Ligue 1, o espanhol deixou o clube por também entrar em conflito com os torcedores. Em seguida, um humilhante 4 a 0 contra o arquirrival PSG fez a direção, comandada pelo espanhol Pablo Longoria, contratar Gennaro Gattuso, de trabalhos medíocres e pragmáticos em Napoli e Valencia nos últimos anos. Seu desempenho à frente do time francês foi tão insatisfatório que até seu último jogo como técnico do time, uma derrota para o Brest por 1 a 0 no último domingo, o italiano havia vencido apenas um jogo em 2024. Nada mais nada menos do que uma chorada vitória de 1 a 0 contra o Thionville, da terceira divisão, pela Copa da Liga.

E não foram apenas treinadores que não se encaixaram na equipe. Apesar de Aubameyang e Kondogbia estarem fazendo bons jogos, atletas como Joaquín Correa, emprestado pela Inter de Milão, Iliman Ndiaye, comprado por 17 milhões de euros do Sheffield, e Ismaila Sarr, por 13 milhões do Watford, amargam o banco de reservas por não terem tido bons desempenhos até agora. Renan Lodi, comprado por 20 milhões, foi vendido em janeiro deste ano por 23 milhões de euros ao Al-Hilal, fazendo a equipe recuperar ao menos o investimento feito no brasileiro. Mas prejuízos de outras temporadas seguem dando dor de cabeça. Vitinha, centroavante contratado por 30 milhões de euros do Braga em janeiro de 2023, foi emprestado ao Genoa após um ano de decepcionante desempenho em campo.

Os 30 pontos e a 9ª colocação na atual edição da Ligue 1 mostram o que vem sendo a temporada do único time francês a vencer a Champions League. Para a próxima temporada, Pablo Longoria tem grandes chances de deixar a presidência do clube por conta dos prejuízos financeiros e esportivos. E para tentar estancar essa sangria, o espanhol contratou Gasset, que em sua estreia conseguiu um satisfatório resultado. Jogando no Vélodrome lotado, o OM venceu o Shakhtar de virada por 3 a 1, e assegurou uma vaga nas oitavas de final da Liga Europa, em que enfrentará o Villarreal. Na vitória sobre os ucranianos, Gasset mostrou o que provavelmente virá pela frente.

Como vem o novo Olympique de Marseille?

O novo treinador montou a equipe no esquema 3-5-2. Com um zaga bem protegida, Kondogbia e Ounahi criavam jogadas na saída de bola, e a entregavam para Harit, que atuou como único meia centralizado. Mas a equipe apostou bastante em bolas aéreas e verticais que procuravam Aubameyang, principal referência técnica da equipe, mesmo com 34 anos. Ao lado do gabonês, Gasset escalou o também centroavante Faris Moumbagna. Recém-contratado do Bodo/Glimt por 8 milhões de euros, o camaronês teve uma atuação discreta, mas poderá evoluir ao passo que vá se adaptando aos novos companheiros e ao esquema tático.

– Não creio que possamos falar de um efeito Gasset ainda. Só estou aqui há 48 horas. Fizemos palestras com vídeos e tentamos ver em qual sistema os jogadores se sentiam melhor. Mas foi mais uma história de estado de espírito, de confiança. Cada jogador teve que fazer um pouco mais. Tentei ser positivo e simples para relaxá-los. Eu sentia eles tensos -, disse Gasset, na entrevista coletiva após a sua estreia com classificação na Liga Europa -, disse o técnico após a vitória contra os ucranianos.

Justiça seja feita, Gasset terá à disposição todos os jogadores do OM que voltaram após o término da Copa Africana de Nações, quando comparado ao 2024 de Gattuso. Contando com Moumbagna, anunciado como reforço ainda durante a competição na Costa do Marfim, o time francês estava sem oito atletas do seu time profissional que estavam representando suas seleções. E é também com eles que Gasset, após uma traumática experiência no mesmo torneio, busca redimir a si e o seu novo time, que ainda não ganhou um jogo da Ligue 1 neste ano.

O próximo desafio é contra nada mais nada menos do que o Montpellier, clube ele onde ele jogou e comandou, no próximo domingo (25). O contrato dele com o Olympique de Marseille vai até maio de 2024, mas mesmo assim, sua ideia é extrair o melhor da equipe com um pragmático e eficiente esquema em busca de uma improvável redenção e também mirando um futuro mais promissor, tanto para ele como o próprio clube, mesmo que ambos tomem caminhos diferentes em 2024/2025.

Foto de Vanderson Pimentel

Vanderson PimentelRedator de esportes

Jornalista formado em 2013, e apaixonado por futebol desde a infância. Em redações, também passou por Estadão e UOL.
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