Ligue 1

Guerra e gesto controverso: por que ultras do PSG ameaçaram Vlahovic?

Manifestação após jogo pela seleção sérvia faz torcedores ameaçarem Vlahovic, que interessa ao PSG para reforçar o ataque, em meio a outros nomes

Dusan Vlahovic é um atacante que chama a atenção pela alta capacidade de marcar gols e ser perigoso dentro da área. Contratado pela Juventus no início de 2022, no meio da temporada 2021/22, ele tem sido cotado para deixar o clube, que não se classificou à Champions League. Um dos interessados é o Paris Saint-Germain, mas um grupo de ultras do clube francês não ficou satisfeito e fez ameaças graves ao sérvio, de 23 anos. As razões para isso se explicam na política.

Antes de tudo, porém, é bom dizer: ameaçar alguém de violência é sempre errado e os ultras não só não devem, como não podem fazer isso. Esse tipo de ameaça é algo que estamos acostumados a ver no futebol, mas não deveria ser tão comum e tem que ser visto com firmeza e seriedade pelas autoridades.

O que despertou a ira dos Ultras do PSG

Nesta segunda-feira, oito torcedores do PSG foram até o estádio do clube, o Parque dos Príncipes, e escreveram “Vlahovic a Paris on te coupe tes 3 doigts” (“Vlahovic, em Paris cortaremos seus três dedos”, em tradução livre).

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As palavras não foram escolhidas à toa. Os três dedos são uma referência a uma foto em que Vlahovic aparece comemorando a vitória da Sérvia sobre Portugal em 2021, nas Eliminatórias da Copa do Mundo, ao lado de Filip Kostic e Stefan Mitrovic. Ele está mostrando três dedos, sendo indicador, dedo do meio e dedão. Ele também está vestido com uma camiseta que contém o território de Kosovo, como uma forma de não reconhecer a independência e considerar território sérvio. É uma mensagem em alusão a movimentos nacionalistas sérvios.

 

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O gesto com as mãos é ainda mais controverso. Na Sérvia, essa forma de mostrar três dedos simboliza, há séculos, a vitória, se referindo à Santa Trindade Cristã (o Pai, o Filho e o Espírito Santo) e é chamada por lá também de “saudação sérvia”.

Só que o mesmo gesto, com os mesmos três dedos, é usado em diversos lugares da Europa como “saudação Kühnen” e é uma referência usada por neonazistas, como uma forma alternativa para fazer o símbolo nazista e chamar menos a atenção. E é isso que enfurece esse grupo de Ultras do PSG, muito embora seja difícil fazer essa associação nesse contexto.

Sendo Vlahovic sérvio, jogando pela seleção e comemorando a classificação à Copa do Mundo, é muito mais provável que o significado seja o primeiro. Não que ele seja isento de polêmica por si: o gesto, mesmo não associado aos movimentos neonazistas, é usado por nacionalistas sérvios e, por isso, gera insatisfação na região, como em outros países dos Bálcãs. O nacionalismo sérvio é uma questão complexa na região, devastada pela Guerra Civil que dilacerou a Iugoslávia nos anos 1990.

Vlahovic em atuação pela Sérvia (Icon Sport)

Sérvia x Kosovo

Ao usar uma camiseta em 2021 com a presença do Kosovo como território sérvio, Vlahovic desperta um conflito que, para os sérvios, não está resolvido. Kosovo declarou a sua independência em 2008 e seria aceita como nação livre na ONU em 2013. Antes disso, porém, kosovares de origem albanesa fundaram a República do Kosovo e a declararam um Estado independente em setembro de 1992, já em meio aos conflitos iugoslavos.

Em 1999, mais de 11 mil mortes foram relatadas ao Tribunal Criminal Internacional. Em junho de 1999, o presidente sérvio Slobodan Milosevic concordou com a presença militar internacional dentro do território do Kosovo e retirou as suas tropas. Durante a Guerra do Kosovo, mais de 90 mil sérvios e pessoas de etnias não-albanesas deixaram a região. Nos dias seguintes à retirada do exército da Iugoslávia do território kosovar, muitos dos remanescentes sérvios foram vítimas dos mais diversos tipos de abuso. Os que conseguiram, fugiram do país e se tornaram refugiados. A grande maioria foi para a Sérvia. À medida que autoridades de origem albanesa retomaram o controle das regiões, expulsaram civis sérvios.

O Tribunal Internacional de Crimes da ex-Iugoslávia (ICTY) julgou crimes cometidos durante a Guerra do Kosovo e nove altos funcionários da Iugoslávia foram indiciados por crimes contra a humanidade e crimes de guerra, cometidos entre janeiro e junho de 1999.

Seis dos acusados acabaram condenados, um foi absolvido, um morreu antes da sua pena começar a ser paga e um morreu antes do julgamento acabar. Seis membros do Exército de Liberação do Kosovo foram indiciados por crimes contra a humanidade e crimes de guerra e um deles foi condenado.

No total, mais de 10 mil civis foram mortos durante a Guerra do Kosovo, sendo mais de 8 mil albaneses, mais de mil sérvios e 445 ciganos, além de mais de 3.200 membros das forças armadas que morreram em conflito.

Com todo esse histórico, há um ódio estabelecido entre as duas nações. E o nacionalismo sérvio nunca aceitou que Kosovo se tornasse independente. Essa implicação ainda acomete o futebol, porque Sérvia e Kosovo são sempre separadas em sorteios de seleções e clubes nos torneios. Ao mostrar apoio ao nacionalismo sérvio, Vlahovic desperta muitos sentimentos dos dois lados (e, claro, opostos).

A forma como a Sérvia lida com o conflito até hoje é controversa e o país jamais reconheceu a independência do Kosovo.

A necessidade do PSG por um atacante

Em meio a toda essa questão, há a necessidade do PSG em contratar um atacante. Porque o time está se reformulando e há saídas de peso, como a de Lionel Messi, mas também outras como de Mauro Icardi, contratado em definitivo pelo Galatasaray. O PSG quer ter um centroavante no elenco para além de Hugo Ekitiké, que é visto como alguém que não está pronto, aos 21 anos.

A Juventus está disposta a vender Vlahovic e já tem um interesse em Romelu Lukaku alinhado para substituir o sérvio. O PSG também especula Harry Kane, embora esta seja uma transferência muito mais difícil porque há o interesse concreto do Bayern de Munique, que já fez duas propostas e que interessa mais ao jogador.

Outro nome bem visto pelos parisienses para vestir a camisa 9 é Victor Osimhen, do Napoli, mas é outro que a negociação tende a ser bastante difícil para os franceses. Já o nome de Randal Kolo Muani, do Eintracht Frankfurt, tem surgido com mais força. Atacante da seleção francesa, Kolo Muani fez uma grande temporada na Alemanha e mostrou capacidade de adaptação em diversas funções, o que seria muito útil em Paris. Além disso, seria bem mais acessível que Kane ou Osimhen. O clube alemão, porém, quer uma boa quantia por ele e ainda não houve qualquer proposta.

Com essa manifestação de um grupo de ultras, pode ser que a contratação de Vlahovic seja pesada também do ponto de vista extracampo, para não criar um problema. Mas isso é algo que só saberemos mais à frente.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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