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Griezmann é apenas um dos frutos da imigração que une Portugal e França

Amaro Lopes era zagueiro, do tipo raçudo. Defendeu a camisa do Vasco da Gama, que viria a se tornar o Paços de Ferreira. Por volta do final da década de cinquenta, emigrou com a família para Macôn, cidade 70 quilômetros ao norte de Lyon, onde teve Isabelle, a terceira garota entre seus cinco filhos. Ela se casou com Alain Griezmann e deu à luz Antoine, o craque que lidera a França no próximo domingo, contra Portugal, na final da Eurocopa de 2016.

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Lopes, o nome da mãe e do avô, que morreu um ano depois dele nascer, não consta na certidão de nascimento de Griezmann, mas era como seus amigos o chamavam na comunidade portuguesa em que cresceu, uma das muitas que existe na França. Mesmo ganhando fama mundial pelo que faz com a bola nos pés, ainda passa os Natais em Macôn.

Ficou próximo, porém, de estar no outro lado da decisão de domingo: quando estava quase virando adulto, a seleção portuguesa manifestou interesse no seu futebol. Punido pela Federação Francesa por uma noitada, enquanto defendia a seleção sub-20 da França, quatro anos atrás, chegou a cogitar mudar de lado, segundo o Mais Futebol. Mas ficou, e se tornou um notório exemplo da imigração que une os dois países.

Não é o único, mesmo se restringirmos o escopo para o futebol. Robert Pirès foi campeão do mundo em 1998, embora seu pai seja português. Kevin Gameiro, neto de português, é outro exemplo, mais recente. Em 2009, Carlos Queiroz tentou seduzi-lo, mas o atacante do Sevilla preferiu a França. Talvez não tenha sido a escolha mais sábia, pois tem apenas oito jogos pelo time principal dos Blues. Raphael Guerreiro, Anthony Lopes e Adrien Silva, no entanto, nasceram na França e defenderão Portugal no Stade de France.

O Observatório da Emigração apresentou números interessantes sobre a diáspora portuguesa, em um relatório com dados da ONU e do Banco Mundial. Segundo o órgão, Portugal, proporcionalmente, é o líder da União Europeia em emigrantes, com entre 2 milhões e 2,3 milhões de pessoas, aproximadamente 20% da população que ainda reside no país. E a França é o país europeu que abriga o maior número deles: por volta de 600 mil, com números de 2012, o que representa 10,5% do total da colônia estrangeira francesa, sendo a terceira mais populosa.

A imigração portuguesa ficou forte com a Segunda Guerra Mundial e a ditadura militar de António Salazar. Os destinos principais eram a América e as ex-colônias africanas. Em 1974, com a Revolução dos Cravos, pausou por dez anos, antes de ser retomada em meados dos anos oitenta, com a entrada de Portugal na União Europeia. O acordo de livre circulação de pessoas no continente tornou os países vizinhos mais atrativos, e a estagnação econômica serviu de impulsão.

Atualmente, o principal destino é o Reino Unido, seguido de perto por Alemanha, Suíça e, claro, a França. O número de emigrantes qualificados tem crescido – 17% em 2011, contra 7%, dez anos antes – e contribui para o senso comum de que os portugueses são bons trabalhadores.  “A figura do português imigrante que dá o máximo no trabalho é aceita como a característica coletiva da população portuguesa na França, sendo uma das referências a partir das quais os portugueses se posicionam em comparação com outros trabalhadores”, disse a socióloga Inês Espírito Santo, em entrevista ao Diário de Notícias. Outro especialista, Albano Cordeiro, afirmou ao mesmo jornal que se trata da “mais invisível” das comunidades estrangeiras francesas.

A visão de que os portugueses são bons trabalhadores é corroborada pelo deputado luso-francês Carlos da Silva, um dos porta-vozes do governista Partido Socialista. “Os imigrantes portugueses têm uma boa imagem na França, e os que chegam também mantêm essa imagem de gente trabalhadora e séria, que quer ajudar a construir a França”, disse, à agência Lusa. Ele lamenta, no entanto, o pouco envolvimento das primeiras gerações de portugueses com a política francesa, mas credita esse problema ao fato de muitos deles terem vindo do regime ditatorial de Salazar. “Vejo pelos meus pais, pelos mais velhos, que não têm o hábito de participar da vida política, de votar. Minha geração começou a se envolver, mas acho que poderia haver muito mais. Penso que a nova geração vai se envolver mais na vida política do país do que a minha”, completou.

Uma opinião que dialoga com a sensação que a escritora Joana Carvalho Fernandes teve quando pesquisava para o seu livro A Porteira, a Madame e outras Histórias de Portugueses na França. Segundo ela, em entrevista ao Renascença,  comunidade portuguesa vive em uma bolha. Embora integrada à sociedade francesa, “trabalham e vivem em um ambiente muito mais português do que francês”, com colegas de trabalho, rádios, jornais e jantares muito lusitanos. Ainda sofrem com o estereótipo de serem majoritariamente porteiros e funcionários da construção civil e são alvos de piadas.

Mas são muitos. E estarão em peso em Paris, na Eurocopa mais próxima de um torneio em casa que poderia existir, torcendo pela seleção portuguesa contra o time anfitrião. “Paris é como uma segunda capital de Portugal”, afirmou, segundo a tvi24, o presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, no Palácio do Eliseu, ao lado do seu correspondente francês, François Hollande. Uma cerimônia com os chefes de estado dos dois países que foram unidos pela imigração.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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