Violência na Áustria

A temporada 2011-12 da Bundelisga austríaca terá início nos dias 16 e 17 de julho sob a preocupação com a violência que vem ganhando espaço nos estádios do país e é causada principalmente por hooligans adeptos da extrema direita e do neonazismo.
O estopim da crise foi a invasão de campo por cerca de 200 torcedores do Rapid Viena, no dia 22 de maio, quando o time perdia em casa, no estádio Gerhard-Hanappi, o dérbi de número 297 da história contra o Áustria Viena. Quando o adversário marcou o segundo gol, aos 26 minutos da primeira etapa, os hooligans entraram no gramado, ameaçando partir para cima dos seus próprios jogadores, arremessando sinalizadores contra a torcida adversária e provocando uma arruaça geral.
A partida foi imediatamente paralisada e todos os atletas e membros da arbitragem foram para os vestiários. A polícia entrou em ação e deu exemplo ao mundo de como se portar em casos assim. Os policiais formaram uma fileira próxima á linha da grande área do lado oposto a onde houve a invasão e foram, aos poucos, “varrendo” o gramado e tirando os baderneiros. Dois policiais ficaram feridos na ação. (veja o vídeo da invasão e do trabalho da polícia)
A punição ao Rapid veio, sem trocadilhos, rapidamente. Na mesma semana, o Tribunal da Bundesliga declarou o clube perdedor do jogo por 3 a 0, multou-o em 50 mil euros e decretou que os dois primeiros jogos do time alviverde em casa na próxima temporada sejam disputados com portões fechados.
Mas o que assusta no caso, mais do que o ato de violência em si, é a maneira como ele foi orquestrado. Os hooligans do Rapid Viena usaram como pretexto o fato do time não fazer grande campanha no campeonato 2010-2011 (terminou em 5.º lugar) para promover atos de neonazismo e divulgar ideias de extrema direita. Boa parte dos invasores tinha os rostos cobertos, para evitar a identificação pelas autoridades.
Outro ponto que chamou a atenção de quem acompanhou o caso – embora a própria imprensa austríaca não tenha dado a ele tanta importância – foi um comunicado emitido pelos hooligans do Áustria Viena. Nele, os torcedores pedem desculpas aos rivais por não terem também invadido o campo e partido para a briga. Alegaram que tal atitude poderia prejudicar o clube, que àquela altura brigava pelo título da temporada (o Áustria chegou à última rodada com chances de ser campeão, mas terminou em terceiro).
Punido, pero no mucho
Apesar de anunciada com agilidade, a punição aplicada pela Bundesliga ao Rapid não foi considerada das mais severas. Basta lembrar, por exemplo, que as duas partidas iniciais do clube em casa na próxima temporada (as que jogará sem público algum) são contra adversários de menor expressão: o Trenkwalder Admira (que conquistou o acesso para a primeira divisão na temporada passada) e o Josko Ried (4.º colocado).
A definição da tabela do campeonato 2011-12, aliás, gerou duras críticas aos dirigentes austríacos, justamente pelo fato de que o Rapid, pelo menos em tese, não sofrerá tanto com a ausência de sua torcida nas rodadas iniciais. O site 90 minuten, por exemplo, chegou a afirmar que houve intervenção e uma “anomalia significativa” no sorteio dos jogos.
Mas se de um lado é notório que os mandatários do futebol na Áustria parecem não tomar as medidas corretas para coibir a violência, por outro não se pode negar que o próprio Rapid Viena está agindo contra seus hooligans, ainda que tardiamente.
A diretoria do clube apresentou um plano de ação, composto por vários pontos. Entre eles, está a proibição da entrada no estádio de torcedores que tenham sido identificados durante a invasão de maio. A pena irá variar de um a dez anos, conforme o caso.
Além disso, quem quiser ficar nos setores do Hanappi onde tradicionalmente se concentram os hooligans, deverá apresentar – tanto na compra do ingresso quanto no momento da entrada no estádio – um documento de identificação. Ou seja: o torcedor será “fichado”, facilitando a punição a qualquer ato ilícito que venha a cometer.
A pirotecnia nas arquibancadas também está proibida, exceto em situações autorizadas pela diretoria do Rapid. Quem utilizar fogos de artifício ou sinalizadores sem autorização ficará banido de entrar no estádio por até dois anos. Também serão punidos os que forem flagrados pelo circuito interno de TV jogando objetos dentro do campo.
Outro ponto importante das medidas tomadas pela diretoria alviverde é o anúncio que os próximos dérbis contra o Áustria Viena, com mando do Rapid, serão disputados no estádio Ernst Happel, maior e mais seguro que o Hanappi. O primeiro deles, aliás, está marcado para 20 de agosto, na quinta rodada.
Paralelamente ao anúncio de medidas mais rigorosas pelo clube, a polícia de Viena fez buscas em sete casas de torcedores suspeitos de serem os líderes dos hooligans. Houve apreensão de telefones celulares e computadores, mas ninguém foi preso. Além disso, 40 pessoas foram indiciadas e estão sendo investigadas. A lei austríaca prevê até dois anos de prisão para quem participa de tumultos públicos.
Pior que está, pode ficar
Mas, apesar das medidas anunciadas – que embora tardias podem evitar uma tragédia futura –, a garantia de paz está longe de acontecer. E isso fica claro no comunicado solto pelos neonazistas (ou “ultras”, como gostam de ser chamados) do Rapid como resposta aos atos da diretoria.
Apesar de dizerem que recomendarão aos membros das organizadas que façam o cadastro para seguir acompanhando o time tanto dentro quanto fora de casa, eles se mostraram descontentes com a decisão do Rapid de exibir publicamente as imagens dos invasores identificados. E mandaram uma mensagem direta ao presidente do clube, Rudolf Edlinger: “As pessoas responsáveis pelas coreografias e pelo bom humor (em outras épocas) são parcialmente as mesmas que estavam em campo (na invasão) para expressar seu descontentamento. Não tire com populismo barato o fracasso absoluto Rapid.”
É importante lembrar também que o próprio Rapid é tido na Áustria como um clube que historicamente tolerou ações de violência e vandalismo dos seus torcedores, que comumente brigam em estádios e estações de trem país afora.
A violência mostrada pelos torcedores está longe de ser um ato de quem desesperadamente vê o seu time cair pelas tabelas. Se assim o fosse, ainda que não justificasse, pelo menos haveria a desculpa de que a paixão pelo clube fez aquelas pessoas cometerem tamanha bobagem.
Algumas investigações preliminares do ocorrido no dérbi deram conta que os ultras têm envolvimento com hooligans alemães e gregos e que estes poderiam ter encabeçado a invasão de campo. A ala radical dos fãs do Rapid teria estreitas ligações com as torcidas do Panathinaikos e do Nuremberg.
Rapid não é o único
Não foi à toa que parte da torcida do Áustria Viena fez questão de se desculpar com os rivais por não ter aderido à invasão de campo e provocado uma guerra campal no gramado do Hanappi. Afinal, o clube também tem seus fanáticos de extrema direita, que causam problemas e geram uma imagem negativa ao redor do mundo.
Prova disso foi uma faixa estendida recentemente, com a frase “Josué Libertad!” É de uma campanha mundial promovida pelos neonazistas em apoio a Estebanez Josué de la Hija, um espanhol condenado a 26 anos de prisão pelo assassinato do adolescente Carlos Javier Palomino, de 16 anos de idade, em novembro de 2007. O crime aconteceu numa estação de metrô em Madrid, quando Palomino estava a caminho de uma manifestação anti-facista. Desde então, Josué tornou-se símbolo da extrema direita no mundo.
Atualmente, a Áustria tem o conhecimento da existência “oficial” de 250 hooligans entre torcedores das mais diversas equipes. Porém, apenas 38 deles estão proibidos de entrar nos estádios por causa de incidentes anteriores. E a frase do árbitro Thomas Einwaller – que até queria dar prosseguimento ao dérbi, mas foi convencido do contrário pela polícia —, talvez resuma o tamanho da preocupação do momento: “Agora a última parte do futebol austríaco que tinha boa reputação no mundo está em ruínas.



